É precisamente com um tiro certeiro que os TOY regressam ao portuense Hard Club. Clear Shot, o disco que traz a banda de Brighton de volta ao palco que os acolheu em 2015,  cresce a cada brincadeira; a sua audição continuada semeia uma sensação de bem estar com o disco e não só. Cada nova audição rega essa semente que o faz crescer exponencialmente. Com mais dois discos na algibeira, os cinco elementos da banda subiram ao palco dia 8 de Março com a abertura a cargo dos Toulouse.

Encantando e cantando o homónimo disco de estreia em 2012, os TOY começaram cedo a formar a sua chaveta sonora, oscilante entre o rock psicadélico, o shoegaze e o post-punk, o que vem simultaneamente dificultar a sua inserção em qualquer um dos géneros. Com Join The Dots do seguinte ano, afirmaram não ser banda de só um álbum sendo também verdade que não acrescentaram elementos ao seu som, dando lugar a uma reafirmação do que haviam deixado impresso em TOY. Com Clear Shot arriscaram e moldaram um som que tinha já adquirido uma certa segurança, optando por um álbum muito mais construído e menos ruidoso. A honestidade e fidelidade às vísceras da banda manteve-se intacta, mas mudou de rosto: ganhou um carácter construtivo que se vai fazendo ao longo de várias audições e marcou uma diferença significativa perante os registos passados.

Todas as diferenças sónicas de cada disco são rebatidas ao vivo. Com uma postura mais presa no início, os TOY sobem ao palco do Hard Club sob os olhos de uma plateia composta mas não cheia, ao contrário do concerto no dia anterior em Lisboa. É com “Fall Out Of Love” que abrem o concerto e, por isso, fizeram-no a meio gás. Salta aos olhos (e aos ouvidos) a presença bem mais marcada da bateria logo à partida, que prometia e viria a cumprir um concerto mais dinâmico e agitado do que o que se percebe em estúdio.

A banda transita para “I’m Still Believing”, o primeiro single de Clear Shot, o longa-duração que vinham apresentar, numa versão bem mais agitada e eficaz, dando o mote para o revisitar do primeiro disco com “Kopter”, uma das mais entusiasmantes músicas que foi celebrada pelo público mal soaram as duas primeiras notas da épica linha de baixo. Evidentemente mais forte, vibrante e ruidosa, este foi o primeiro grande momento do concerto: o tema acabou de forma tão descontroladamente fascinante que deixou repercussões na afinação dos instrumentos já no início de “Fast Silver”, tema de Clear Shot, que permitiu um desvio e descanso por paisagens psicadélicas mais calmas. O sossego acaba rápido com “Colours Running Out”, onde as guitarras ganham vida própria, cores vibrantes e criam uma parede de som estonteante. As faixas deste primeiro disco da banda britânica, há que dizê-lo, resultam de uma forma fabulosa ao vivo. Provam claramente o valor que eles têm e a imensurável relevância que reunem dentro do seu género.

Houve ainda espaço para “Clouds That Cover the Sun”, “Left Myself Behind” e “Another Dimension” que se mostrou facilmente a mais interessante música de Clear Shot a ser ouvida no Hard Club e, consequentemente, a mais bem recebida pela audiência. Com uma ambiência tranquila, com uma linha de sintetizador em uníssono com a voz, torna-se assim uma música especialmente bem conseguida. “Motoring”, “Dream Orchestrator”, “Heart Skips A Beat” e “Join The Dots” concluem o alinhamento do concerto mas, depois de bastante tempo de insistência, voltam para tocar “Dead And Gone” naquela que foi a única música do encore. Os TOY sobem de novo ao palco para atacar esta malha indomável, forte e cheia de elementos, expressão e energia, e provam em palco porque é uma das mais celebradas músicas do grupo e porque é realmente uma das músicas que se guardam numa gaveta para visitarmos religiosamente em qualquer altura, com a certeza de não cansar.

Com uma entrega e atitude crescente, os TOY apresentaram um concerto com uma setlist dinâmica e equilibrada, competente e expressiva, e um amor inegável e evidente pela música que fazem. Com genuinidade e ambição, arriscaram e o risco compensou… Os britânicos mantém-se relevantes, pro-activos e com um potencial ainda por atingir imenso. E acenderam as crianças que há em todos nós: quanto mais brinquedos temos, mais brinquedos queremos. O tiro foi no escuro, mas foi certeiro.