“E se acabou no chão feito um pacote bêbado | Morreu na contramão atrapalhando o Sábado.” Versos de Construção (Chico Buarque – 1971) resgatados para o momento presente e transpostos para a passada Sexta-feira na ZDB, na noite de apresentação The Spectacular Empire de Gaika l Flohio l 808Ink l Gloria. Vontade em ser esse pacote bêbado depois de mais um concerto de Gaika, vontade em atrapalhar esse Sábado, dia talhado em descompressão e sobretudo vontade em morrer na contramão, como alerta, como um Tetsuya-Uke aplicado sem comiseração, ao mesmo tempo de protecção a um futuro que se adivinha negro e de ataque na construção de alternativas.

Construção das expectativa amparado em regressos, uma vez mais, à margem do Cávado, à edição do Milhões de Festa 2016, a essa noite tórrida de Julho e recordar uma actuação que causou impacto na energia que emanava, mas sobretudo na fluidez com que Gaika foi construindo a sua narrativa, foi talhando nas nuances o ritmo, capaz de gerir cada momento com exímia audácia, sem cair no exacerbar da fisicalidade como outros ou num excessivo diálogo com o público e no consequente exagero celebratório.

Uma das mais gratas recordações, juntamente com San Araw, desse ano. Construção interrompida aquando do adiamento do concerto inicialmente marcado para o passado mês de Novembro. Reconstrução, aquando da nova data e sobretudo da releitura do Manifesto, The Spectacular Empire – a future imagined by GAIKA, publicado na revista Dazed. Uma frase como constante – “There is no morality in power, only its effect” – claramente não gratuita, de quem observa o que se passa em seu redor com uma clarividência rara e de quem vê as manifestações de poder e os seus efeitos como a perpetuação desse mesmo poder pelos grupos dominantes e pelo abrir de uma clivagem cada vez mais acentuada entre classes, mesmo que aparentemente atenuadas por mecanismos de intermediação mais ou menos acessíveis à generalidade da população.

Um futuro canibalizado, uma cidade distópica, que o mesmo afirma ter uma ancoragem assumidamente territorial na Londres de hoje e uma imagem que bem poderia ser As Tentações de Santo Antão da segunda década do século XX – as vítimas da torre Grenfell.

A implicação artística sempre foi mais ou menos uma constante ao longo da história da música. Sem necessidade de recuar muito no tempo para enquadrar Gaika, não musicalmente mas nas suas preocupações, colocá-lo-íamos no patamar de Moor Mother (ZDB – Abril 2017) ou Matana Roberts  (Outfest – Outubro 2015). Construção pessoal, assumidamente, e como consequência elevadas expectativas. Não se aguardava uma invasão dos novos proletários em manifestações mais ou menos audazes, muito menos imolações, nem umas tímidas invasões de palco, mas e qual Moretti em frente ao televisor – “Gritem o desespero, libertem-no. Afinal Lisboa em que difere de Londres que pintam?”.

Ficamo-nos pelos “Make some noise”, gritados à exaustão pelos 808Ink, que não obstante a boa dinâmica do duo londrino e a capacidade para agitar a plateia, foi o máximo com que nos brindou. As vocalizações de Gloria ficarão sem dúvida como uma das boas surpresas, mesmo a presença de Gaika, a confirmar que estamos perante um dos mais interessantes artistas da rejuvenescida cena inglesa, juntamente com Arca, Actress, Dean Blunt, entre muitos outros e para nos confinarmos à música não revelou ser o ponto de ignição que esperávamos. O seu último trabalho The Spectacular Empire (Warp) complexifica, adensa e amassa, obscurece aquilo que já era duro, talhado na contestação, na construção de um poder colectivo em que tanto acredita Gaika, e o afirma em recente entrevista ao Público.

A inaptidão confessa para gerir expectativas, a excessiva duração do concerto, aqui assumido como um todo – não haveria a possibilidade de apresentar os diferentes projectos doutra forma? -, a inexistência de momentos de verdadeira tensão, de manifestação colectiva mostra-nos que a força para alterar o presente e consequentemente construir o futuro será baseado em pequenas intermitências. Agarremo-nos a elas então, onde quer que elas estejam.

Gaika @ Galeria Zé dos Bois

Gaika @ Galeria Zé dos Bois