Com o calendário a marcar dia 19 do mês de Agosto, chegamos à última noite em Paredes de Coura, marcando assim o fim da 25ª edição deste festival nortenho. Para abrir em grande, e repetindo cenário do Primavera Sound em 2015, teríamos o herói local Manel Cruz a abrir para os alienígenas vindos das califórnias, os Foxygen. Com a sua poesia tão característica e introspetiva, Manel Cruz deu a alegria a centenas de fãs de voltar a ver o seu rosto e ouvir a sua voz, que tem permanecido na penumbra nestes últimos anos, para nossa tristeza, seguidos pelos sempre imprevisíveis e surpreendentes Foxygen que invadiram e se apoderaram do palco com o seu sarcasmo hollywoodesco mergulhado em maquilhagem e purpurinas. Estavam assim abertas as portas pelos belos garçons que as abriram, para uma trovoada caótica de eletricidade com o prolífero Ty Segall. O inferno desceu à terra nesta hora e meia de descarga de adrenalina e o californiano assumiu o papel de Lucífer, com os seus quatro compinchas a desempenharem a função de anjos endiabrados neste arquétipo demoníaco-musical.

Com tiradas de guitarra capazes de fazer acordar e estremecer toda a fauna e flora do Rio Coura, Ty e a sua banda, que se encontravam oportunamente vestidos de vermelho, foram passando por várias obras do artista, desde do álbum de 2010 Melted, até ao amado Manipulator de 2014 e Emotional Mugger do ano passado. Todos os festivaleiros – inclusive o próprio Ty, que já faz parte, de certo modo, da mobília nacional -, sabiam para o que vinham neste concerto, e prova disso foram as corridas desenfreadas pela colina abaixo aquando do começo do espetáculo.

Em conjunto com Car Seat Headrest – que actuou no segundo dia do evento -, Ty Segall e a sua banda ficaram em primeiro lugar na categoria de mösh mais rápido do festival, e para isso só tiveram de desencantar dos seus power chords simples, distorcidos e eficazes. Estávamos prontos para qualquer coisa: corpos em cima de corpos, arranhões, camisolas rasgadas, pisadelas, tudo. Não garantimos o acontecimento de todas estas demonstrações de afeto, contudo, vontade não faltou à mancha de festivaleiros, sedentos de arrancar cada corda e tecla do equipamento musical da banda. Na verdade, não foi preciso a ajuda de ninguém para que as cordas de Segall se estoirassem, cumprindo ele mesmo esse ofício mais do que uma vez. Não se pode culpar um homem pela sua paixão à música.

Pode parecer que este foi um espetáculo barbaramente satânico, onde se deram a conhecer as raízes mais  encardidas da geração millenial. E foi. No entanto, os momentos mais valiosos e memoráveis deste concerto foram precisamente aqueles de pura absorção e admiração musical, em que Ty se calou e permeou caminho para a expressão e experimentação instrumental. As duas guitarras, o baixo, o piano e a bateria, numa jam infinta – que passou pelo boogie blues, prog e pelo psych -, fizeram crescer tridentes da terra e caudas vermelhas a partir dos cóccix de todos os presentes.

Com uma pronúncia bem característica e num tom quase-normal-quase-falsetto, Segall interseta a jam para arrancar das suas cordas vocais – que, por sinal, já viram melhores dias -, as palavras “I want you to wake up!” de “The Only One”, faixa pertencente ao seu mais recente longa-duração homónimo já deste ano. Acordados estávamos nós, como qualquer pessoa que estivesse a uns bons quilómetros do recinto, para o bem ou mal da saúde de cada um. Este foi um concerto que provocou um abanão daqueles que só temos de vez em quando, que atingem os confins dos nossos ossos, fazendo despertar qualquer átomo ou doença adormecida no nosso corpo.

Resumindo os discursos às líricas, Ty abriu exceção para nos confessar que iria tocar uma faixa que não era apresentada há cinco anos (que, na verdade, não era tocada há dois anos e meio). Se os ânimos já estavam exaltados, então aqui a juventude arrancou todas as vergonhas e complexos do manual de instruções de como ser um ser humano comum e incendiou o recinto nortenho. Com a iluminação a fazer pandã com as cores das roupas da banda, lá vai mais uma corda para o galheiro e lá vai mais uma tareia elétrica. Em “Chompy’s Paradise”, dos BadBadNotGood, tocada no dia anterior, purgou-se a alma, e em “Girlfriend”, a tal faixa não tocada há cinco anos, deixou-se que todos os pecados e promiscuidades nos corroessem o espírito, como uma entrada a pé juntos no inferno.

Já de pé, depois de uma queda bem rock star enquanto acariciava a sua mais que tudo, Segall troca de posições com o seu baterista (o multi-instrumentista Charles Moothart), espancando a bateria até ao último dentinho, deixando bem claro o apreço que tem pelo garage e pelo noise rock. Com um público já devastado de tantos möshes e crowdsurfings, a banda abandona o palco, deixando no público luso uma vontade de voltar a ser contaminado pela distorção.

Ty Segall @ Vodafone Paredes de Coura 2017