O Hard Club transformou-se, em finais de Outubro, numa estação espacial que recebeu duas missões das mais importantes da cena post-rock e shoegaze desenhando, mais uma vez, naquele espaço, tantas atmosferas remotas. É num ambiente xamânico espacial que somos recebidos, na maior sala do recinto, pelos Thought Forms, em estreia absoluta em Portugal, na véspera de actuar, também, em Lisboa no Jameson Urban Routes ’16. O trio britânico, dotado de uma sonoridade psicadélica, apresentou um concerto de abertura poderoso, pesado e denso, resultando numa celebração geral por parte do público. Entre sopros orientais e tiros de tarola, a música dos Thought Forms afogou-nos em si própria, criando tensão e nervosismo dentro de um conforto sónico negro e estranhamente controlado.

Os britânicos vieram apresentar Songs About Drowning, o seu mais recente disco e, em aproximadamente meia hora de concerto, o trio demonstrou uma entrega arrepiante, uma atitude humildade e uma enorme disposição para a comunicação, o que criou uma empatia diferente do que habitualmente se sente com uma banda com a missão de fazer a primeira parte do cabeça de cartaz. Um projecto a seguir, definitivamente, até pela promessa de um regresso.

Com o palco vazio após um concerto sólido, os 65daysofstatic preparavam-se para descolar o primeiro concerto em Portugal sem ser em contexto de festival e enquanto cabeças de cartaz. Com o mais recente álbum, a banda sonora No Man’s Sky: Music For An Infinite Universe, lançado para o espaço sideral já este ano, a banda propôs-se a uma tour internacional intensa. E é em jeito de hino intergaláctico que vivemos este concerto, um concerto no decorrer do qual nos apercebemos de uma fusão equilibrada entre o analógico e o digital, o eléctrico e o acústico, e tudo aquilo que torna a música encorpada e texturada. Criam-se envolvências sufocantes que tornam o som físico e crescente em cristais intergalácticos vertiginosos.

A descolagem a bordo do vaivém 65 teve como fundo “Monolith”, faixa do mais recente disco imediatamente seguida de “Asimov”, uma das mais vincadas explorações do grupo. O olhar dos elementos direccionava-se, fitando pessoas, criando um contacto visual directo, como se a música assumisse um carácter de manifesto ou ode forçando a intimidade. Algo que, à partida, nos deixaria desconfortáveis mas que, na verdade, torna a experiência do concerto muito mais forte, pura e marcante. Os movimentos em palco revelaram-se bastante bruscos e incisivos, a expressão corporal do colectivo intensificava a já densa paisagem sonora criada pela música arrebatadora que faz projectar linhas, desenhar ambientes e sentir frio, calor ou qualquer outra coisa humanamente possível de sentir… Os elementos da banda desdobraram-se frequentemente por variados instrumentos na mesma música, de forma itinerante, dos sintetizadores, para as caixas de ritmos, para as guitarras e baixos, passando por pianos e bateria.

Estes comandantes espaciais percorreram os pouco mais de dez anos que levam no peito numa viagem pelo infinito com a sua setlist. Deixaram o palco sob uma enorme salva de palmas, que não se parece cansar, sedenta pelo tão aguardado encore. Ouviram-se pedidos de canções ou, simplesmente, gritos de quem chega, uma hora depois, a um planeta na vizinha Andrómeda. A vontade dos 65daysofstatic em tocar de novo era evidente, num concerto em que o público se mostrou reactivo e entusiasmado por diversas vezes.

Sorte é que o Universo é infinito, e que há muito por onde explorar num próximo concerto. Já nos prometeram álbum novo no fim do ano; será que trarão o vaivém de novo até terras lusas? Até lá, e para a memória, fica um concerto brilhante. A distância não parece problema para quem, numa noite, percorre anos-luz. Esperamos para ver.

65daysofstatic @ Hard Club

65daysofstatic @ Hard Club