Abrir um vídeo de Tycho resulta invariavelmente numa experiência a roçar o transcendental que não raras vezes obriga à observação da estrutura das coisas a nível quase molecular, ao mesmo tempo que atira com borrões digitais e sci-fi para cima do que é reconhecível, familiar, palpável e real.

Talvez a dicotomia terra-espaço ou realidade-ficção esteja apenas a uns meros beats de distância, torrentes de sintetizadores e modeladores matematicamente enquadrados e sincronizados em cósmicas atmosferas ambient pelos dedos e o génio do projecto em parte musical em parte visual de Scott Hansen, cenários onde tudo se dilui numa mesma existência e onde as justaposições de imagens provenientes de vários imaginários traduzem a complexidade de toda uma teia de relações interconexas que espelham os vértices que constituem o universo.

E tal assim é na mais recente odisseia visual de Tycho para o álbum Epoch de 2016, o último capítulo de uma triologia iniciada em 2011 com Dive e continuada três anos depois com Awake. Cinematográfico quanto profundamente comovente e emocional, “Glide” homenageia o trabalho do realizador russo Andrei Tarkovsky ao cruzar imagens de Solaris, o filme de culto que realizou em 1972 – não, não é o morno remake de 2002 com George Clooney -, com a já habitual intermitência de triângulos místicos e interplanetários por entre outros tantos filtros digitais.