Acabou mais um NOS Primavera Sound e na sua 5ª edição o festival portuense obteve a proeza de esgotar os seus passes, marcando-se por vários momentos digno de registo. A delicadeza super suave dos AIR, os Deerhunter a darem-nos algo bem diferente do que estávamos à espera e o showmanship de Ty Segall andaram lado a lado com a azáfama de um festival de quatro palcos e os também fantásticos concertos de gentes como Sigur Rós, Animal Collective e PJ Harvey. A Tracker chega ao fim e faz as contas, deliberando sobre as principais coisas que ficou a aprender com mais uma edição de um festival que progressivamente se vai tornando cada vez mais vital na agenda musical portuguesa. Olhando à nossa volta, pelo colorido recinto, este é o nosso parecer sobre os aspectos mais marcantes deste ano:

Copos reutilizáveis: a melhor solução. Para todos nós neste mundo

Para destacar uma das mais significativas novidades em termos de recursos e logística neste festival, terá mesmo que se mencionar a estreia dos copos reutilizáveis. Uma prática já mais que vigente no estrangeiro, a entrega destes copos devidamente ornados foi provavelmente a mudança mais visível no recinto do festival, que conseguiu chegar ao fim das suas três noites encharcadas em concertos praticamente com uma quantidade nula de detritos. Com esta louvável decisão da organização, o NOS Primavera Sound torna-se então um festival português de grande dimensão a dar largos passos para um caminho sustentável. A limpa e respeitada paisagem por si só é uma recompensa mais que preciosa e a decisão até permitiu a que várias pessoas levassem um pequeno souvenir de Primavera para casa. Senão, podiam sempre devolvê-los em troco de um pequeno reembolso. Inteligente e nobre.

Não conseguimos ver Car Seat Headrest, mas mal servidos não ficámos

Só chegando ao Parque da Cidade é que se tem realmente noção que o NOS Primavera Sound é sem dúvida um festival de correria. Já notório pelos seus quatro palcos em funcionamento constante e em certos horários menos flexíveis, a edição de 2016 propôs-se a continuar radical neste sentido. Assim, o descer e subir de colinas e o constante zig-zag pelos quatro regados palcos foi inevitável. Mesmo quando se tinham de fazer escolhas difíceis (o nosso Marcelo Baptista, sobre Car Seat, mais tarde informou-me de um público dedicado, de letra decorada, num concerto banhado em riffs – fiquei com inveja) e deixar alguém de parte, o ritmo nem por isso abranda, pois logo a seguir alguma coisa se estará a passar. Poderá, desta forma, dar a impressão que a experiência pode ficar danificada, e embora tenha de se admitir que há cedências a fazer, a verdade é que raramente um festivaleiro terá a oportunidade de se ser tão prolífero. Numa boa noite é possível ver em média sete concertos inteiros, o que para os amantes de música em geral, ou aos descobridores compulsivos, pode ser um fantástico turn on. Entretanto, se às vezes o Primavera implica ter que abandonar o Brian Wilson para ver os Dinosaur Jr., também consegue proporcionar choques de adrenalina intensos como sair de um concerto de Battles para cair no meio do mosh em Drive Like Jehu.

… Falando em Drive Like Jehu… o rock, meu!

Os recentemente reunidos californianos foram sem sombra de dúvida um dos pontos mais intensos, ensurdecedores e agressivos do festival. O seu post-hardcore explosivo e áspero fez um concerto de digna memória no antigo palco ATP e foi um dos melhores que se pôde ver no Parque da Cidade em 2016. Debitando os mortíferos sons de Yank Crime e do homónimo, o quarteto conseguiu instalar um espectáculo altamente dinâmico sem nunca perder uma gota de potência. Mesmo nas partes mais melódicas, o som que saiu dos PA’s soou absolutamente sólido e letal. Os Drive Like Jehu foram das bandas que mais bem dignificaram o papel do rock ao alimentar uma, ainda assim selecta, mas intensa plateia com um amontoado de riffs e gritos roucos que se traduziram em peso absoluto e trouxeram uma aura de fauvismo e purificação que hoje é reservada a muitos poucos grupos. Foi música para cerrar os punhos, fechar os olhos e ir ao combate. Absolutamente libertador e catártico, houvesse mais um concerto destes a seguir, estaríamos lá para o sentir.

Mas o rock, meu…

Uma das sensações que o dia inaugural do Primavera deu foi que até à altura se havia visto muito pouco de guitarras, de riffs, de power chords, de uivos e de gritos. O dia seguinte, veio resolver em grande medida a questão e a tendência alastrou-se para um Primavera do qual do barulho também vai rezar História. Os Mudhoney foram a banda mais barulhenta do festival, com o seu shredding absolutamente violento e nem sempre congruente ou sequer lógico a fazer-se ouvir tão longe quanto o palco Pitchfork. Por outro lado, neste referido palco, houve também o madrugador concerto absurdista anual dos Shellac e o post-punk categórico dos Protomartyr, uma das mais gigantes surpresas do festival, a colorirem o recinto de riffs abrasivos e coros roucos e intensos – algo que os Linda Martini espelharam com surpreendente e energética categoria num set mais que sólido. De resto, várias lições em como dar um concerto de rock tiveram aqui lugar, como o categórico set dos Dinosaur Jr., que voltaram ao Primavera depois do concerto de 2013 para voltarem a agraciar os seus seguidores com um paraíso de riffs lamacentos e distorção ensurdecedora. Poucos momentos foram mais épicos, por exemplo, do que ver J. Mascis rodeado por três gigantes amps, a largar os seus furiosos e melódicos solos perante uma plateia de gente feliz.

“Don’t let the fuckers get you down”

Por outro lado as Savages, sob o comando da recém-encontrada e épica hegemonia carismática de Jenny Beth, deram o concerto mais claustrofobicamente intenso e altivo do festival, com o pano gótico que as cobria a trazer um perigo felino que só a elas pertence. Sempre de feroz intensidade, as Savages agora, no entanto, são mais do que a banda híper séria e estrita que já por aqui vimos passar algumas vezes. Estão a crescer em larga escala e o concerto deste ano no Palco Super Bock foi prova disso, com uma ginga notória a cair por cima do negrume hostil e a produzir um incrível espectáculo. Mais melódicas e soltas do seu próprio post-punk castrador graças a um progressista segundo álbum, as quatro músicas sediadas em Londres preocuparam-se em seduzir, dançar e incomodar a plateia. A predação desta feita fez-se com seda e veludo ao invés de murros no estômago sem sacrificar a agressão latente que faz de momentos como “Husbands” experiências tão arrepiantes. Depois, há uma vocalista que rapidamente vai subindo para o topo da cadeia alimentar no que toca a carisma e isso foi notável pela submissão absoluta perante a aura de Jehnny Beth. No fim, uma “Fuckers” (como habitual), mas mais especial por ser dedicada aos portugueses e, especificamente, aos que as viram no Primavera 2013 e que inspiram o conceito da música, como as próprias disseram. Não se duvide: há aqui uma história de amor verdadeiro.

Há um raio de luz que está a passar por cima dos Deerhunter e nós gostamos disso

Por alturas da Monomania Tour, datada de 2013, Bradford Cox vagueava pelo palco num vestido de sol, de franja preta e esticada para a frente dos olhos. Quando não estava a insistir num loop infinito do “My Sharona”, liderava os Deerhunter na mescla perturbadoramente bela e soturna que os norte-americanos já vão fazendo há mais de uma década. Mas no passado dia 9, cerca de 3 anos depois da última passagem lusa dos Deerhunter (neste festival, precisamente), algo aconteceu: sob a brisa morna de um dos mais arejados discos do grupo até à data, Fading Frontier, Cox, emanando boas vibrações por todo o lado, apresenta-se à plateia com um elegante fato de toque vintage e assume maioritariamente os serviços vocais. Assim, onde anteriormente residia uma escuridão latente, surgiu o espaço para criação de um espectáculo eminentemente groovy e virtuoso. O próprio catálogo anterior recebeu uma lufada desta nova vitalidade com canções como a “Helicopter” a deixarem de soar dementes e isoladas para passarem a ser perfumadas e abertas. Um carisma, uma boa disposição e uma confiança nata por parte da banda fizeram os Deerhunter brilhar como estrelas e com zero opulência. O que público teve em retorno foi uma fantástica festa onde nem faltou uma incrível versão de “Living My Life” com um brilhante saxofonista (mas mesmo incrível, vão pesquisar, ou viajem para a ver) ao lado do arrepio que é uma canção como “Cover Me (Slowly)”. Com um set bem temperado, visitando todos os cantos da discografia da banda, a festa das 20h00 dos Deerhunter foi mais épica do que qualquer after todo minado que possa ter acontecido nas seguintes madrugadas com um contágio de dança sério. Ao 1º dia, e mesmo ao pôr do sol, os Deerhunter foram os reis prematuros do NOS Primavera Sound 2016 e, encerrada a edição, assim permaneceram.

NOS Primavera Sound: festival de gente séria?

Falando na ginga de Cox, ocorre-nos também todo o ambiente sentido durante os dias passados no idílico Parque da Cidade. A primeira entrada pelo pórtico do festival, seja estreia ou regresso, tem sempre um ar cândido e saboroso. O maravilhoso espaço surgiu bem perfumado e eximiamente organizado e para a sua edição de 2016 a tendência continuou, mesmo com uma estreante lotação esgotada. Situado com uma média de idades à volta dos 30 anos, o NOS Primavera Sound, ainda assim, não é um festival completamente jovem e isso reflecte-se não só na fauna, mas obviamente em toda a logística, que preza fortemente a organização, o conforto e a fluidez de um evento que edição após edição sempre segura os seus contornos calmos e amigáveis à família. Assim, jovens e veteranos, nativos e estrangeiros conviveram num espaço que, embora prazeroso para um bom passeio ao sol, vive muito fortemente da música, a razão que motiva menos conversa e mais correria. Não obstante, a cavaqueira sobre os concertos ou até coisas mais triviais acabou por resistir fortemente durante alguns espectáculos onde nem os Sigur Rós foram capazes de conter a “conversa entre carteiras”.

O post-punk e o gótico: os agentes secretos deste festival

Sempre presentes em bom peso dentro da chancela Primavera Sound, seja em Barcelona ou Porto, estas duas cenas, felizes acontecimentos da década de 80, não se verificaram ausentes na edição de 2016. O contigente este ano no Porto, contudo, atingiu os contornos de renovação de gerações e permitiu ao palco observar os mais dignos e directos descendentes de todos os Bauhaus, Echo and The Bunnymen e The Cure desta vida. Por mais curioso que seja, o maior trio de surpresas do festival acabou por incidir precisamente nesses nomes. No palco Pitchfork, os já mencionados Protomartyr fizeram a sua própria espécie de punk desfigurado e gótico num dos mais recompensantes concertos do fim-de-semana. Liderados por Joe Casey, rigorosamente vestido com um impecável blaser, o grupo de Detroit lançou-se aos temas da ainda breve carreira onde as imagens góticas e os ecoantes uivos de barítono do vocalista se juntam às baterias secas e aos zumbidos das cordas. Com mais raça e dinâmica do que a maior das bandas deste género, a herança do hard rock de sangue quente dos Protomartyr foi, se alguma coisa, um precioso estimulante.

Por outro lado, e ainda antes nesse dia, para inaugurar a tarde, os Mueran Humanos encheram o antigo palco ATP de atmosfera com as suas letras gráficas a juntarem-se a um elevado refinamento sonoro. A synthwave deste duo argentino sediado em Berlim tem muita classe em todo seu negrume. Ao mesmo tempo, houve ginga e ritmo suficiente para que até pequenas crianças estarem a dançar ao som de contos vampirescos  banhados de sangue e gore. Por fim, o tratamento mais suis generis do festival: Algiers pega nos sequenciadores duros do industrial e ajusta a repetição pesada e infernal para um energético vocalista de blues. A sua mistura particular funciona de um modo estranhamente aliciante e a novata banda da Georgia deu um dos concertos mais bizarros e prazerosos do Palco Super Bock. A mistura da intensidade da soul negra com a intensidade dos BPM’s sintéticos forma uma proposta que tem de ser ao menos ouvida antes de descartada. Energéticos e com uma confiante e entusiasmada atitude de palco os Algiers, para além de estranhos, foram uns óptimos showmen. Parece aliciante, não é?

Os Battles tiveram o melhor som e deram um dos melhores sets do festival

Os três feiticeiros nova iorquinos apresentaram-se em palco com a pontualidade máxima que foi transversal a praticamente todas as bandas do recinto. Com o mais recente La Di Da Di na bagagem, os Battles atiraram-se a um concerto que foi um absoluto estalo de texturas, experimentações e rock. Perfeitamente calibrados com o palco que os acolheu, os três maravilhosos atiraram-se uma frenética leva de composições com coração na épica bateria de John Stanier (que teve as derradeiras metal faces de 2016) que progressivamente ia vestindo com sucessivos loops cada um mais absurdo que o outro. O espectáculo, pautado a um ritmo elevadíssimo mas dedicadamente seguido por uma plateia à beira do histerismo, deu espaço para o virtuosismo dos multi-instrumentalistas e para o ritual tribalesco das danças da plateia (que em “Atlas” não deixaram de reformular a incompreensível letra do “refrão(?)” para um muito mais universal “oh éh oh”). Os Battles foram um absoluto prazer de observar, já que a paisagem destes três músicos a trabalhar é tão vertiginosa e transgressora como a própria música em si. Um autêntico laboratório futurista, a forma como os Battles desafiam o digital e casam-no com o orgânico é, à falta de melhor expressão, iluminador e enigmático ao mesmo tempo. Mas o grande trunfo aqui é que para além de toda a experimentação aqui presente o Palco Super Bock testemunhou um fortíssimo concerto de rock e um espectáculo visual fantástico com nada sem ser os três músicos e a sua energia animalesca. A máquina a encontrar a fúria da natureza humana no seu melhor. Foi ridículo… e isto no melhor sentido de sempre.

Os AIR vieram para fazer o Porto flutuar quando mais se precisava

A noite do derradeiro dia do festival, após quase três de intensa rotina festivaleira, colocou provavelmente a maioria dos presentes num certo estado de cansaço mas não derrota. Acabou por ser também a noite mais consistente dos três dias, com uma enorme concentração de pontos altos como Drive Like Jehu, Battles, Linda Martini, A.R. Kane ou Explosions In The Sky. Moderat e Ty Segall, neste ponto em que nos encontramos, aptamente sentados na colina do palco NOS pouco antes das 23h, ainda estariam para vir. A esta hora, o recinto estaria muito lentamente, quase de forma imperceptível, a levitar com a leveza dos AIR. Num acto de profunda comunhão, também a maioria da plateia decidiu distribuir-se pelo morro, que graças a um relaxante jogo de luzes ficara azulado para receber o remédio que aí vinha. E foi precisamente essa dose de música calmante, lenta e melancólica, minimalista mas densamente progressiva e intricada que aí viajava pelo ar, uma saborosa nota de cada vez. Os franceses deram o concerto mais elegante e suave do festival, com um rigor de veludo. “How Does it Make You Feel”, “Cherry Blossom Girl” e uma versão melosa de “Sexy Boy” figuraram todas numa paisagem sonora e visual luxuosa.

A torre ao lado do palco, imanando padrões de tons frios, parecia uma autêntica nave prestes a descolar e foi aqui que melhor (e finalmente) entendemos realmente o visual espacial para este ano. Extremamente divagante e relaxante, tudo o que aconteceu com os AIR no palco atingiu-nos com lentidão e aconchego: um apelo estimulante aos ouvidos e aos outros sentidos que se figurou como uma experiência imersiva que não fez vibrar, mas certamente regenerou estados de espírito. Na companhia destes comandantes, obteve-se uma experiência que roçou o categórico zen. Sem necessidade de sequer ter os olhos dirigidos para o palco, o espectáculo destacou-se precisamente pelo pequeno prazer de ter uma banda que nos permite divagar e perder-nos nos pormenores mais intricados ou mais simplistas, sejam eles uma cândida e característica linha de teclado, ou o fumo azul que envolvia o conjunto. Terminado o concerto sem grande alarido, o som ainda aconchegava o corpo e a mente, embalado pelo calor da noite e a frescura do assento natural que formava a relva. Tão discretamente como chegaram e ficaram, os AIR foram. Mas connosco deixaram a energia tão precisa para o resto de uma noite que se afigurava ocupada. Sem protagonismos, sem grandes palavras, mas definitivamente heróis galácticos.

Quando Brian Wilson e a sua banda baralharam a concepção intergeracional

O feito mais genuinamente impressionante vai para o veterano incontestável que agraciou o NOS Primavera Sound 2016 no espaço dos “lendários” deste ano. Brian Wilson passou pelo Porto com uma tour que celebra os 50 anos de Pet Sounds e todas as alegrias que a sua perfeição pop veio trazer à música. Com uma casa completamente preenchida para receber o cantor/compositor de 74 anos, acompanhado por uma extensa banda, Brian Wilson procede a debitar as canções do disco, mas não sem antes entregar outras surpresas ao tocar várias preciosidades dos Beach Boys. A fauna do concerto misturava todas as idades, desde crianças até fãs contemporâneos ao artista, todos ansiosos para ouvir dele. Assim, quando Brian Wilson anuncia canções como “Surfer Girl” ou “God Only Knows”, a reacção híper entusiasmada duma plateia foi algo a recordar: a forma como pessoas com os seus vinte anos, cujos pais nem eram nascidos aquando do Pet Sounds reagiram a este espectáculo impressionou até os mais idosos que testemunharam em primeira mão o quão histórico e imortal é este espólio. Literalmente unindo e amalgamando gerações com as suas requintadas composições, Brian Wilson teve a seus pés as dezenas de milhares de jovens que sabiam de cor todas as letras e até o ajudaram com as melodias e tons mais agudos. Um autêntico fenómeno que tornou o palco NOS num dos lugares mais felizes à face da Terra e satisfez o desejo de milhares de putos com t-shirts de palmeiras de poderem viajar até à Califórnia dos anos 60. Muito se fala na retroactividade da música actual com o regresso de várias cenas vintage à ribalta dos palcos através das novas gerações, mas é ao testemunhar um acontecimento como este que se entende como o legado destes artistas está tão vivo e enraizado e como ainda ninguém o consegue fazer como eles. No fim, foi hora de “Surfin’ USA” e bem… Que há mais para dizer?