Há noites que surgem milimetricamente certas para aquilo que é preciso. A festa de lançamento de um primeiro disco só se faz uma vez e com muita alegria, Portugal tem visto estas aventuras a acontecer cada vez mais frequentemente: cada vez mais novos artistas a refrescar constantemente o riacho interminável de cultura musical com oportunidade de criar e divulgar, com a circunstância adequada, o fruto do seu trabalho. Depois de bravos meses a colorir os palcos com o seu rock instantaneamente convincente e a gerar um considerável burburinho de admiração no seu torno, chega a vez dos Galgo apresentarem o primeiro trabalho de estúdio. A festa de Pensar Faz Emagrecer foi, por isso, feita numa instituição adequadamente colorida e icónica da cena musical lisboeta que tem despontado nestes anos, e em família: os Quelle Dead Gazelle, dos quais Miguel Abelaira foi uma das mãos que ajudou no disco, surgiram para pavimentar de forma triunfante uma noite que seria sempre, à partida, dos quatro tenros e jovens de Oeiras que, por fim, têm acendido um trilho de fogo que não vai apagar tão cedo. Esta noite, no Musicbox, foi mais um pacote de acendalhas lançado ao lume.

A programação dupla encheu-se de uma espécie de tropicalia psicadélica com levas de um math rock bem à portuguesa, e se isso seria evidente no flow cristalino dos Galgo, não tivemos que esperar até lá para se saber do que se fala. Os Quelle Dead Gazelle são um duo que desde 2012 foi desafiando as concepções mais rígidas e amigas acérrimas do metrónomo do matemático estilo musical para o tornar algo com mais ginga e alma do que até aí raramente se tinha visto. Em 2016, regressaram em toda a clarividência com o disco de estreia conhecido como Maus Lençóis e, em palco, apresentam-se como um grupo de sensuais inclinações e imaginativas soluções. Pedro Ferreira na guitarra e Miguel Abelaira na bateria, movem-se ágil e elegantemente como a gazela mais viva que se pode ver e juntos colmatam qualquer questão que o número reduzido de instrumentistas em palco possa suscitar.

Encontramos, por isso, no Musicbox, uma exímia combinação de perícia e sentimento à medida que o duo levava as suas músicas ao colo com um passo dançante, procurando sempre uma nova e criativa forma de levar as suas composições para frente, seja no gradiente variado de texturas disponíveis para a guitarra, ou numa constantemente giratória e surpreendente secção rítmica que simplesmente desliza de tão melódica que é. Mesmo nos momentos mais abafantes, os Quelle Dead Gazelle nunca comprometeram o ritmo e a aura da cantiga, criando um peso que dança e que paira pelo ar na forma de rock acérrimo e directo. Ao mesmo tempo, um rock progressista: caminhando na dualidade entre o registo mais artesanal da bateria (que em toda a sua simplicidade enche uma canção de radiante vida) e uma guitarra moderna e expressionista, os dois músicos enchem o som de cor e assumem habilmente os recursos que têm à disposição.

Vários foram os tons e as camadas que Pedro Ferreira retirou das suas cordas e que iluminaram o Musicbox em esplendor exótico, pautando a agressividade e o elevado ritmo de um post-rock tribal com as cores mais espaciais da vida citadina. Entre fazer a sua guitarra soar como um teclado ou o grito de uma qualquer ave selvagem, e o inteligente uso de loops para afunilar a caleidoscopia geral, o dono do machado foi marchando em frente com os riffs líquidos e rítmicos, assegurando a estranheza dos tempos em ciclos rítmicos que, à semelhança dos da bateria, foram patinando entre modas e feitios. Caminhando os trilhos mais poeirentos do EP de 2013 e, obviamente, fazendo a excursão pelo mais galáctico e moderno Maus Lençóis, os Quelle Dead Gazelle presentearam o início da noite com uma espectáculo conciso e colorido alicerçado num talento natural de dois músicos decididos a fazer música que consegue ser tão divertida como desafiante.

Depois de um fortíssimo fim regado a strobe e às energias intensas da gostosa e clássica “Afrobrita”, os Quelle Dead Gazelle encerram em estrondo, posteriormente participando nos preparativos com os quais haveria de iniciar o aquecimento para a subida em palco dos Galgo. Em quente com o lançamento do disco, o quarteto de Oeiras ensina-nos que pensar faz emagrecer e não nos dá dúvidas que, ao vivo, é como se emagrece melhor. Num estrondo de confiança, entusiasmo e consistência, os Galgo agarraram a noite pelos cornos e apresentaram-se com a maior pujança e energia letal que já nos tinham mostrado até agora para consolidarem ainda mais o seu estatuto como exemplar banda nas prestrações ao vivo. Na bagagem, um disco imaginativo que vê o grupo a traçar o seu próprio caminho dentro de uma paisagem de contornos familiares de um rock exótico e saltitão e que se desenrola numa diversificada e sensorial experiência.

A banda apresentou-se esta noite numa versão mais musculada e intrincada, o que não é o mesmo que dizer que o seu som endureceu e se tornou mais gordo mas, antes, que se complexificou, multiplicando as suas células para criar estruturas e cadeias de sons mais ricas e de diferentes camadas, como acontece com as cebolas. Sendo logo evidente num início de concerto que ficou marcado pela passagem instrumental de habilidoso ambient kraut que desaguou na cósmica “Balanço”, os Galgo já não se limitam agora a variar nas rotações de BPM’s para passarem a viajar, também, por diferentes universos e registos. As canções de Pensar Faz Emagrecer funcionam, muitas vezes , como fluídas composições anexadas por mini movimentos que num contexto maior quase que conseguem tornar o disco inteiro numa única construção; a maneira como o grupo decidiu mexer nos seus blocos, ignorando o alinhamento do disco e mostrando as diferentes possibilidades de o montar, veio precisamente potenciar o valor dessas canções quando ouvidas no formato orgânico.

Leios complexos à parte, os Galgo deram um concerto de rock ao vivo poderoso e, à falta de melhor termo, festivo. As duas guitarras brincam uma com a outra, uma mais tilintante, outra mais cortante, para produzirem cadências rítmicas altamente orelhudas que puxam os pés e as ancas da plateia para aquela dança sexy. O baixo, agora mais gordo, mais proeminente, e a bateria, às vezes tão radical nas suas mudanças que os seus próximos movimentos se tornam indecifráveis e estimulantes no desafio, certificam-se que a coreografia se mete em linha e a coisa avança. Isto ainda é especialmente verdade para as canções de EP5 que agora, fruto da estrada, surgem melhoradas e mais confiantes e continuam a medir-se pelos ombros com as novas. Aliás, como acontece com o contornar da épica rendição de “Torre de Babel”, desta feita lançada para um poço de quasi demente psicadelia anunciada pelo titular refrão que surgiu transformado em lunáticos uivos casados com uma igualmente tresloucada secção de teclados a criar um dos melhores momentos da noite.

Sem perder tempo, como nunca foi hábito entre este grupo, as canções também levaram o seu tempo para criar atmosfera e espaço de divagação. “Lugia”, orgulhosamente antecipada pela “dança interpretativa” da baterista Joana Batista a imitar o único Pokémon que interessa, viu o Musicbox a receber uma lufada de jovens ondas místicas onde se fez sentir uma eléctrica brisa marítima. Já a ácida e complexa “Pivot” fez sucesso com o groove do seu baixo porcalhão antes de evoluir para aventuras mais mexidas e breakdowns gravíssimos a puxar para um doom matemático. Os Galgo expandiram o seu som, cruzando géneros e amalgamando técnicas para criarem uma esquizofrenia que é deles e tudo sob a égide jovial e fervorosa dona de uma disposição que viu quatro confiantes músicos a divertirem-se com os amigos ao mesmo tempo que davam ao litro e tudo aquilo que possivelmente tinham.

Tanto assim foi que quando desafiados a regressar ao palco após o primeiro fim do concerto, exclamaram não ter mais músicas por já terem tocado tudo o que sabiam. O pessoal não se convenceu e exigiu nova dose de “Skela”, que se em estúdio é de incontornável sucesso, ao vivo é simplesmente uma vitória que não dá chance de resistência. Da primeira vez, motivou uma invasão de palco por parte de fieis seguidores; da segunda, numa versão “vale tudo”, viu-se o vocalista Alexandre Sousa desistir da guitarra para se lançar num entusiasmado crowdsurfing que, por pouco, não o levou para rua. A este ponto já se podia dançar livremente num Musicoox que era só sorrisos e nenhum pé no chão, e a leveza dos corpos invadiu plateia e banda igual numa onda de entusiasmo próprio da música que faz abandonar a razão. E é tudo isso que se quer: festa, risada e muita fome de rock. Os próprios Galgo haviam dito uma vez que se satisfaziam sempre que viam alguém a bombar esses moves com a sua música por esta ser tão difícil de dançar. Por aqui, e com tantas razões que nos dão para isso, não nos importamos de continuar a tentar.

Os Galgo, pela lente de Luís Custódio.

Galgo @ Musicbox