O palco. Um ligeiro desvio da entrada habitual, um corredor e depois outro, como um convite para conhecer as entranhas do Teatro Maria Matos. Do lado esquerdo da porta corta-fogos, os cobertores e as mantas distribuídas pelo chão aleatoriamente, ou pelo menos assim aparenta. O palco – e desta vez em frente, essa imensidão -, a plateia no escuro, em silêncio, que por umas horas é deslocada numa espécie de desequilíbrio programado. A inversão de papéis, o reforço da ideia de um espectador activo, crítico, sonhador, obrigando-o a um exercício de memória, a lembrar as vezes do lado de lá. Um mecanismo de espelho, que se reforça e se transforma através de pequenos gradientes, de detalhes em construção numa lógica cumulativa.

A pormenorização, a atenção ao detalhe tão próxima ao autor, André Gonçalves, e a quem programa. A desconstrução da lógica dicotómica espectador-artista é cada vez mais frequente e assume proposições bastante variadas (por exemplo, lembremo-nos do último concerto de Paul Jebanasam e Tarik Barri, também no Maria Matos, a 20 de Dezembro 2017, em que se assiste a um conjunto de projecções sem haver a necessidade dos músicos estarem presentes em palco), o questionamento de categorizações pré-existentes, a pergunta sobre a natureza do objecto, será concerto? Recordemos também GAS, a 15 de Novembro 2017, com Wolfgang Voigt a um canto, na penumbra, a obrigar a exercício de abstração, enquanto sinónimo de anonimato que um músico pode assumir. Recuando ainda mais, e voltando ao palco, 26 de Novembro de 2014, Gabriel Ferrandini, David Maranha & Alex Zhang Hungtai – Last Train To God Knows Where, os músicos no centro impeliam os espectadores a uma disposição circular em torno deles.

As possibilidades são infinitas, nunca limitadas por constrangimentos arquitectónicos ou espaciais, mas pela imaginação. Assumindo este princípio, a diferença na disposição de André Gonçalves em Música Eterna II – aliás, como tinha acontecido em Música Eterna -, reside precisamente no confronto que o espectador, ser recolector da plateia, é obrigado a experimentar quando se vê ausente do seu lugar habitual, por um lado, e vê diante de si o vazio, por outro, mas que funciona, simultaneamente, como um mecanismo de delegação de controlo. Todavia, este exercício de controlo é ilusório, porque aí está o André Gonçalves. Estará?

André Gonçalves em conversa com Travassos no podcast Ep. 20:André Gonçalves: o caminho da música, questiona a razão das pessoas irem a um concerto seu. Continua que até não fará muito sentido, uma vez que não há uma acto performativo, nem muito menos a exuberância de uma guitarra atirada ao ar. O que o André não diz é que não há necessidade da afirmação de uma presença para a assimilação de uma mensagem, mesmo que assente numa matriz em permanente decomposição e recomposição. As combinações que estabelece, e que são muitas, assentes em diferentes linhas melódicas, sejam elas instrumentais, através dos sintetizadores, seja via a introdução da voz de Casper Clausen – à semelhança do Música Eterna –, ou pela a harpa de Angelica Salvi, não só remetem para universos muito pessoais, mais ou menos distantes, no tempo e no espaço mas, e ao contrário do que se poderia pensar, tornam a experiência tanto física, como mental. Uma bisectriz desenhada que abre território inexplorado, nem físico, nem mental; ou melhor, ao mesmo tempo físico e mental, próprio e partilhado.

Mas não serão todos? Eventualmente, a não ser que o partilhado seja tão íntimo, e o físico tão físico mesmo que permanentemente deitados sob as mantas. É esta capacidade de exploração e de ocupação dos interstícios que torna o seu trabalho, nas suas mais diversas formas, em projectos como Feltro, na ADDAC System, tão singular. A ideia de percurso acaba por se nos tornar familiar, entranhável a cada pedaço percorrido. Um caminho obviamente não linear, aparentemente circular, mais do que repetições, de ínfimas variações, com a capacidade única de amarrar o que à primeira vista parece não ser associável – a voz sussurrante, de noctívago errante de Casper com a harpa etérea de Angelica. Harpa que ao olhar encontra ponto preciso no espaço – lado esquerdo do balcão, mas ao ouvir torna-se linhas de camada de uma subtileza que se adensa. Encontrámos a eternidade?

Música Eterna II, apresentado no passado dia 23 de Janeiro, na sequência de Música Eterna. Um paradoxo? Poderá a eternidade decompor-se em momentos? Exercício de ironia? Onde pára o Música Eterna I? Uma sequência interrompida? Haverá um momento zero? Encontrar-se-á esse momento numa App? A ordem é sequencial ou arbitrária? Haverá momento III? E no intervalo entre os momentos o que há? A música será eterna? Ou simplesmente será construção mais ou menos abstracta para esse desejo? E todas as perguntas de mundo, porque no palco ou fora dele o espectador é crítico.