Se o Brasil pode ser carnaval, futebol e caipirinha, é sempre bom encontrar algo que desfigura este triângulo e que permita vislumbrar o indie que se faz por lá, sendo o brasileiro naturalmente exímio nessa capacidade de se desdobrar em mais do que o mundo o pinta. A boa música brasileira ultrapassa tudo o que as massas nos fazem acreditar que ela é, e ainda bem que ela não se cala. Depois de todo o movimento à volta da música alternativa que tem vindo ao longo das últimas décadas de terras de Vera Cruz de bandas como os Boogarins, os Bombay Groove, Picanha de Chernobyl ou Bike, o psicadelismo volta a vestir-se de amarelo e verde, e os Congo Congo vêm dar uma linha de continuidade ao género.

Formados em meados de 2015, o grupo surgiu como um verdadeiro laboratório em que a psicadelia é o epicentro da criatividade dos membros de bandas de alguns dos maiores nomes da cena indie de Belo Horizonte, em Minas Gerais. Os Congo Congo são compostos por André Travassos (Câmera, Invisível, M O O N S), Gustavo Cunha (Iconili), Leonardo Marques, Victor Magalhães, Pedro Hamdan (Transmissor) e Yannick Falisse (Teach Me Tiger). O álbum de estreia homónimo foi editado em março deste ano pela mão da La Femme Qui Roule e gravado ao vivo na capital mineira de forma despreocupada e fiéis a si mesmos. Na capa, algo esteticamente semelhante a um olho em metamorfose com a lua e as suas fases. Todos estes aspetos fazem acreditar que os Congo Congo espelham tudo o que musicalmente são sem preceitos, entregues ao que fazem e aos seus ouvintes.

“Into The Breeze” é o selo de apresentação a esta catarse emocional que os brasileiros nos proporcionam. O longo começo pausado e intenso vai-nos preparando para um encontro com um disco profundamente sentimental e emerso em guitarras melódicas e synths com cheiro a anos 70. O caminho é calmo, mas chega eventualmente a uma sonoridade relaxada e mais alegre. Faz-se em língua inglesa – tal como o resto do álbum -, e dela emana a mensagem positiva que acompanha a música. Os sintetizadores de guitarra reagem e explodem, ecoando numa festa dançante; a alegria está definitivamente aqui.

Mais arrojada, “Moon Moon” segue os mesmos passos, mas mostra-se mais complexa e rica na sua composição. Fala-nos de um amor encantador e reflexivo que se expressa num solo arrebatador. “I’d rather take my chances on you than regret for being a cautious being”, ou “prefiro apostar em ti do que me arrepender por ser cauteloso”, mostra a voz de um narrador entregue a um sentimento que ultrapassa a monotonia ou o medo de arriscar e transmite a vontade de chegar a uma vida maior que simplesmente a espiração ao comodismo e ao conforto, fazendo chegar isso ao ouvinte de forma a despoletar a autorreflexão.

Congo Congo

As faixas “The Original Congo” e “King Congo” mantêm uma receita técnica impecável; encontram-se vincadas não só pela qualidade nas guitarras que se ondulam numa maré encorpada, mas apaziguadora da emoção, como também fortalecem a ligação dos brasileiros com a boa disposição presente na sua música. Já “Tomorrow Is A Long Day” surge mais melancólica e ponderada. É a música que traz consigo a tristeza saudável que temos sempre de encarar algures, mas necessária para a capacidade de sentir. Tudo isto emaranhado num jogo de guitarras que nos guiam nesse caminho pessoal.

A bateria é o elemento que se destaca em “Tom Tom”, existindo num ritmo muito pouco habitual, e num registo diferente e surpreendente. É também o solo mais empolgante, que chega sem aviso, rompendo o ciclo natural da música que marca a segunda fase do álbum. A partir daqui, o álbum ganha uma nova vertente e a banda move-se num território que confere uma grandeza até aí não tão presente no seu som. Com uma aura mais colorida, “Silent Speech” distingue-se pela sonoridade marcada por riffs mais rápidos, dedilhados mais vincados e uma melodia mais envolvente. O disco termina em “Poor Boy”, a música mais trippy das oito faixas que compõem o álbum e a que permite o apogeu de todas as emoções geradas até agora. A faixa mais longa é aquela que nos possibilita a maior viagem, uma viagem que culmina em pura euforia.

No final, os Congo Congo mostram que produzem música para quem sente. É música para os que se emaranham na própria solidão e emoção, música para o alegre e o triste, numa aceitação da recusa de uma monotonia que acaba num profundo bem-estar e plenitude, tornando Congo Congo numa das estreias a manter debaixo de olho este ano.