A primeira edição do festival Rama Em Flor, com assinatura da Maternidade – comunidade de produção, promoção e agenciamento artístico, que actua desde 2014 – e a Galeria Zé dos Bois, decorre desde dia 7 e terminará já a 17 de Setembro.
Foi neste contexto que assistimos ao concerto das Ninaz e dos The Younger Lovers. O Damas, a Rabbit Hole, a Rua das Gaivotas 6 e o Lounge também fazem parte deste projecto como espaços que têm acolhido as diversas actividades do programa.

Este festival, inédito em Portugal,mas indo resgatar inspiração ao Ladyfest, que surgiu a par do movimento riot grrrl, brinda ao feminismo e à cultura queer através de propostas de vários formatos artísticos e deseja, acima de tudo, a inclusão. Para isso, e através de concertos, ciclos de cinema, exposições, workshops ou conversas, múltiplos investigadores, activistas, artistas, e performers têm espaço e tempo de antena nesta plataforma, sendo possível para cada assunto nascer debate e discussão, sempre estimulando a liberdade e a expressão das identidades e de género. Esta espécie de iniciativas merece, em todas as formas, o nosso apoio.

Na quarta-feira, dia 14, fomos até ao Damas, atraídos pela maravilhosa programação e, ainda para mais, de entrada grátis: um filme e duas actuações musicais de luxo. Em estreia nacional, passou o documentário Lost Grrrls, curta-metragem de Vega Darling, lançada em Julho passado. O filme traça as raízes e a evolução de uma comunidade feminista local em toda a sua dinâmica e debruça-se sobre as várias formas de o movimento desafiar os estereótipos que teimam em não querer desaparecer.

A abrir a arena musical, entraram as quatro Ninaz: Lucía Vives na bateria, Margarida Lalanje na guitarra, Beatriz Peres no baixo e Joana Peres na voz. O grupo, ainda fresquinho, surgiu no ano passado em Lisboa, a par da lufada de ar fresco que adveio com a Xita Records, uma editora e promotora que actua precisamente com e para amigos e que pretende criar um círculo de jovens músicos. É bonito ver como o panorama da criação musical jovem no nosso país inclui já tantos letristas, músicos, vocalistas, bandas e actuantes a solo, a par das várias editoras independentes, o que faz com que se transcendam horizontes e limites ou se criem inúmeras parcerias, a tantos, tantos níveis. Esta geração produz muito e bem, felizmente.

As Ninaz souberam entrar maravilhosamente em cena na deslumbrante sala de concertos do Damas completamente cheia de amigos e amigos de amigos e demais curiosos. A festa estava prometida e foi festa que recebemos. Uma plateia absolutamente em polvorosa, quatro Ninaz em sintonia musical, experimentando e indo sempre avante com a verdura que ainda acompanha a formação colectiva da banda. Nada de medos. Nada de pânicos. Com algumas características das míticas The Runaways e com alguns sinais das Warpaint, embora mais intensas e menos melosas, iam brincando em simultâneo com sonoridades da década de 80 da música portuguesa, entre os memoráveis jeitos da Lena d’Água ou das Doce, sempre com um registo bastante próprio e bastante marcado. O facto é que as Ninaz jamais vacilaram e, apesar do nome, vimo-las sempre como gente crescida.

Foi um prazer assistir a este concerto de abertura, onde iam actuando em nome de odes às amizades, aos penteados mais polémicos, aos escaldões e às emoções de quando se começa verdadeiramente a crescer, mais em mente que em corpo. Notamos nestas meninas, distintas pelos seus espíritos livres, o caminho de um crescimento musical pleno, com as doses muito acertadas do rock oitentista com a veia virada para o soft punk, adocicadas constantemente pela fotogenia de palco, que as quatro têm, e temperadas com a presença sensual da vocalista Joana Peres. Lembrámos, com esses salpicos cheios de luzes, e pelos passos de dança bastante curiosos, da vocalista dos Rádio Macau, embora com outra peculiaridade.

O rock foi sempre fluindo com uma energia absoluta e especial, de bateria muito assinalada, guitarra alucinada, baixo imensamente pertinente e a voz da Joana em absoluta celebração. Com letras frescas, que sussurram o Verão, festas em terraços, idas ao jardim ou dores de crescimento, tudo em prol de uma combinação a quatro que só pode augurar boas notícias. A ‘maré está mesmo a subir” com estas meninas. Não percam os próximos episódios…pois nós, também não.

Setlist 
Cabelo Curto
Escaldão
Primavera
Domingos
O sol está frio
Andar de kart
Espanhol
Preguiça

Depois de uma breve pausa para cigarros, gargalhadas e copos, a sala de concertos encheu novamente, estando já tudo a postos para os californianos The Younger Lovers. O trio composto por Justin Purnell, James Gutierrez e Thelonius Rabin, que tem andado nómada por toda a Europa, chegou por fim à capital do país. Em cerca de 45 minutos de uma garra insuperável em que o nosso fôlego era embrulhado em adrenalina e tudo salpicava em voo picado, fomos viajando com este grupo de Oakland sem saber o que fazer às pernas que se mexiam ao ritmo do som. O maestro do grupo Brontez Purnell, escritor, músico e coreógrafo inserido no movimento punk afro-americano não parou nem um segundo para respirar. E nós também não, na verdade.

Entre muitas interacções com o público, e constantemente munido de um humor bastante espirituoso e mordaz, Purnell soube logo como exibir os seus dotes à audiência. Em nome dos valores da Rama Em Flor que, decerto, em parte são os seus, ia discursando, polémico, escandaloso, ousado e sempre destemido. Aplausos, assobios, palavras de apoio e logo o grito da guitarra a dar o compasso da próxima música. A criação melódica da banda, com uma bateria estonteante, sem filtros, estilo rugido de leão, encontrava-se como os seus membros, sem medo e com audácia. As letras manifestavam um teor que necessitava de parental control, com factos e curiosidades sobre experiências sexuais que correram mal, alguns corações partidos, outros intactos, práticas surreais da comunidade punk e da comunidade queer, onde Purnell se insere com igual significado. De honestidade à flor da pele, o racismo, a violência, os contraceptivos, tudo é matéria-prima para os The Younger Lovers.

“Desculpem a minha voz…fumo muitos cigarros”. O vocalista ia fazendo rir até o mais céptico da plateia, pejada de jovens do panorama musical português, conforme dava indicações sobre o volume do microfone ou soltava uma piada de bolinha vermelha ao canto. Todo o concerto foi indicado só para adultos, note-se. Quando os ânimos se exaltavam e o público vibrava de olhos fechados, em mil piruetas e empurrões, em que as colunas de som vibravam sem nunca corromper a orquestra dos três, Purnell dizia logo “isto não é um espectáculo punk, por isso nada de mosh no público.”

Se os Sonic Youth e os Bloc Party se unissem numa só banda poderia dar em algo como os The Younger Lovers embora, com sinceridade, o seu som seja bastante difícil de categorizar. E ainda bem. Camuflados por uma mistura de tons que nunca contemplem o shoegaze, palavras do vocalista, o punk vive e renasce das cinzas ou, como a banda define, o power punk, e garante um enorme sucesso em salas como o Damas e em públicos como o português. Regressem depressa, por favor.

Setlist
Down Down Gently
Whiskey’N’Water
Tight Fade
Mature Gracefully
Way Down in Misery
Keeps on Fallin
Hey Jody
Get Up, Get Up
Ballad
Poser
Sugar
Boy from Leeds