Recuando uns meses, éramos bombardeados com a feliz notícia de que os míticos Red Hot Chili Peppers regressariam a Portugal depois de onze anos de ausência dos palcos nacionais, e que voltariam a contagiar de rock e funk as almas lusas após uma passagem pelo Rock in Rio em 2006. Desta vez, seria o Parque das Nações, que a pretexto de um Super Bock Super Rock de volta à cidade, hospedaria os monstruosos californianos. Como seria de esperar, foi num estalar de dedos que os bilhetes do primeiro dia do festival sumiram do mapa festivaleiro e aterraram na mão de tantos milhares de fãs do roteiro pepperiano ainda nem os sinos natalícios tinham soado. Apesar de nomes como Kevin Morby, The Legendary TigermanBoogarins constarem no menu musical deste dia, os veteranos chamavam a si todas as atenções e concentravam especial reverência.

Chegados a julho, cartazes, t-shirts e semblantes pintados com o icónico símbolo que vem a servir e a representar gerações há mais de 30 anos, eram utilizados para demonstrar o carinho e fanatismo pela banda. Para quem nunca tinha tido a oportunidade de absorver a força do quarteto ao vivo, este seria o cenário quase perfeito para completar um sonho de criança – só faltaria a presença do mestre Frusciante. Depois das actuações dos The New Power Generation – a antiga banda de Prince – e Capitão Fausto, a MEO Arena concentrava 20 mil seres humanos que, apesar de idades diferenciadas, centravam em si a mesma ânsia de assistir àquele que seria um disparo de malhas selvagens e nostálgicas ao longo de cerca de hora e meia de concerto.

Analogamente a 2006, os Red Hot Chili Peppers entraram em alta tensão, ainda sem Anthony em palco, numa desenfreada jam entre os três membros. Flea, com a energia de um puto na puberdade e com as calças roubadas ao Cirque Du Soleil, saltitava como um canguru pelo estrado e arrancava as notas do seu baixo com a força de um gorila. Pelos esperneares de Josh, fica o espanto de como será possível ele conseguir arrancar as notas wah-wah de maneira tão perfeita. Não obstante todas as hipnotizantes acrobacias do guitarrista dos californianos, a verdade é que a delicadeza reina nas mãos deste senhor vestido de adolescente. A classe bruta de Chad na bateria atestava a banda de segurança e confiança, preparando o caminho para uma noite de motim musical. Com o riff emprestado a Frusciante, Josh desencantava a melodia picante de “Can’t Stop”, reconhecível em fracções de segundo. Esta é a mesma faixa inicial de 2006, apesar de tocada por outras mãos.

Reza a lenda que, numa fase inicial e atribulada dos Red Hot Chili Peppers, Anthony garantiu a Flea que iria ser o James Brown dos anos 80, de maneira a convencê-lo a continuar com a banda. Ora pois bem, Kiedies só não acertou na década, porque de resto foi na mouche: os seus dotes de frontman são inigualáveis, a sua dança meio-índia meio-lutador-de-boxe incorpora maravilhosamente o som quase-rock n’roll, quase-funk, quase-punk dos norte-americanos. Como um bom vinho, a voz de Anthony surpreendeu com um bramido de leão bem acordado durante toda a actuação, em especial em comparação com a última presença da banda por cá em 2006.  É verdade que de fora ficaram hinos como “Scar Tissue”, “Dani California”, “Otherside” e “Zephyr Song”, no entanto, este foi um concerto eclético que talvez tenha deixado água na boca de alguns, mas que encheu a alma dos maiores fãs.

Red Hot Chili Peppers por Fábio Xavier

Red Hot Chili Peppers por Fábio Xavier

Foram abertos todos os baús, desde Mother’s Milk ao novo Getaway, passando ainda pelo controverso One Hot Minute. Depois de “Snow”, “Dark Necessities” e “Nobody Weird Like Me” – tirada dos (con)fins dos anos 80 –, e com Kiedies já de tronco nu, foi tempo para um dos momentos mais esperados da noite. A beleza dos rapazes de Los Angels sempre esteve na relação entre si, enquanto coletivo, de inter-ajuda, amor e comunhão. E qual a melhor maneira de o expressar perante uma MEO Arena completamente lotada do que com música? Aliás, qual a melhor maneira de expressar essa harmonia e magnitude do que com “Californication”? Uma canção que enche os ouvidos de qualquer melómano, e o coração de qualquer mortal, quando apreciada ao vivo. E foi precisamente isso que acabou por acontecer.

Num solo perfeito, Josh acariciava a sua guitarra como se fosse o seu peluche de infância, tratando-a com o maior apreço e rebeldia que se poderia esperar de um Chili Pepper. A cruz de nome Frusciante parece ir assim desvanecendo das costas de Josh, e de cada vez de forma mais explícita, venha quem vier. Arrepiante a forma como milhares de pessoas entoaram em uníssono e de alma completamente beatificada o verso que reza “dream of californication”. Esta foi uma noite onde a música se expressou autonomamente, e por isso não foram necessários discursos. Palavras e gestos de gratidão, esses sim, foram trocados por todos os membros da banda, feição essa bem característica do rosto da banda. E a gratidão era mútua, ainda para mais aquando da malha “Suck My Kiss”, a estrondosa e impetuosa faixa de Blood Sugar Sex Magik de 1991, gravada na casa onde os Beatles terão tripado pela primeira vez com LSD.

Sensualidade, pujança, estranheza e jovialidade são alguns dos atributos mais preciosos da turminha freak, que tecem a magia resiliente dos Red Hot Chili Peppers, e para deixarem isso bem imprimido no ADN do Super Rock Super Bock, acabariam estrondosamente com “Give It Away”. A MEO caía aos seus pés e ficaríamos só com a Arena, onde se deram os möshes mais canibais e ancestrais que este edifício alguma vez terá já testemunhado. Uma descarga de suor, gritos, energia e, principalmente, de amor foi o que restou da hora e meia mais longa das memórias de muitos de nós.