Em Agosto, o Musicbox esgotado para ver uma emergente banda portuguesa! Apesar das férias de milhares de lisbonenses, da inauguração de novo videomapping no Terreiro do Paço e do fogo-de-artifício pelos 50 anos da Ponte, Musicbox esgotado para ver os jovens First Breath After Coma. Até a banda pareceu incrédula, mas foi triunfal!

Como se o Musicbox não tivesse paredes

Na apinhada plateia estavam muitos estrangeiros (de várias nacionalidades), que pagaram para ver uma muito elogiada banda que, só com dois álbuns, no próximo mês já estará no alemão Reeperbahn Festival – com os Gang Of Four, Jagwar Ma ou Wild Beasts -, porque cada vez mais merece tocar além-fronteiras. Mesmo assim, os First Breath After Coma pareceram incredulamente satisfeitos com a casa cheia e também por isso ‘deram o litro’ – de suor, no quente salão -, tendo tentado desde o início que o público retribuísse no apoio. Um início galvanizador, energicamente a toque da épica “Salty Eyes“, o single que abre o excelente novo álbum Drifter, tocado em volume altíssimo e cantado em coro pela densa e intensa plateia onde cedo foi possível identificar dezenas de torcedores – dignos daquele estrangeirismo porque evidenciaram ser mesmo viscerais apreciadores do som da banda de Leiria, com alguns gestos dignos de nota, ao longo do espectáculo.

Mas o som estival dos First Breath After Coma não é só aqueles temas que apetece berrar ao ar livre e, com o calor (também humano) dentro do Musicbox, “Gold Morning Days” foi uma oportuna continuação mais calma do concerto, tanto mais que também em Drifter é a faixa seguinte a “Salty Eyes”. Entre canções, o quinteto nem tentou disfarçar o grande prazer que estava sentindo: do palco veio um emocionado “Obrigado por terem vindo. Acho que nunca tivemos uma sala tão cheia em Lisboa!” – exclamação quase irónica após a lotada apresentação de Drifter no CCB em Maio, por uma banda que é jovem, mas tem acumulado bons concertos em diferentes pontos do país, inclusivamente nas edições de 2014 do Vodafone Mexefest e do grande Festival Paredes de Coura (ao qual regressam já neste mês).

E porque o debutante The Misadventures Of Anthony Knivet é um disco quase tão bom como o seu recente sucessor, os leirienses mantiveram o espectáculo em tom intimista e melodioso com “Shoes For Man With No Feet”, o insolito título que abre aquele álbum, tocada quase como soa no disco porque, de facto, os First Breath After Coma têm feito os álbuns para serem corridos como os concertos rock devem ser – intensamente e escutados em volume muito alto, porque mesmo as canções mais calmas, também com muitos versos cantados em coro por toda a banda, não são para ser escutadas em auscultadores, mas sim para ecoarem nos espaços mais amplos que for possível, fazendo justiça à grandiosidade daquele som. A grandiosidade de, por exemplo, “Terra Del Fuego”, agreste hino de Drifter dividido em dois andamentos – “La Mar” e “Nisshin Maru” – cantados em coro destemido como o mood da música, cuja rendição incluiu synths tocados a quatro mãos e uma orquestração digna de filme épico que arrancou gritos da plateia durante aqueles quase dez minutos, logicamente muito aplaudidos.

Um som que emociona

Para se ter uma noção de quanto os First Breath After Coma são apreciados por alguns fãs e de quão emo o quinteto consegue soar, enquanto iniciavam a balada “Almadraba” (do primeiro álbum), algo invulgar num concerto rock aconteceu na parte de trás da plateia: um jovem disparou um ruidoso “Shhhh!”, irritado pelo ruidoso falatório à sua volta, quase como se estivesse numa casa de Fado. E pensando bem sobre “Almadraba” e o seguinte “Umbrae” – segundo single de Drifter, em colaboração com Noiserv, “que não pôde vir, mas estará no Paredes de Coura” -, talvez haja naquelas canções mais sombria alma fadista que em alguns singles recentes de fadistas da nova geração. Mas era uma reflexão inútil, enquanto se saboreava o quase ensurdecedor volume na sala, e também alheia à banda que, continuando drifting pelo último disco, navegou “Seven Seas” com perícia notável, primeiro na lentidão sedativa do corpo da canção, ilustrado num onírico fundo estrelado projectado em vídeo, e depois no orquestral final jazzy, com portentosos arranjos de metais que fizeram a euforia regressar ao público que nunca regateou aplausos aos leirienses.

Ao contrário dos First Breath After Coma, que nem pela surpresa de terem enchido o Musicbox perderam o controlo, uma jovem loira continuava num frenético vai-vem entre a mesa de som, onde conseguia estar mais perto da banda que tanto a comove, e o fundo do salão, onde estava o casal que a acompanhou. Ao invés, na mesma traseira da plateia (um pouco menos lotada que a frente), duas jovens aproveitaram o plácido início de “Apnea” para se menearem languidamente com os olhos fechados – plausivelmente induzidas pelo céu estrelado que continuava projectado atrás da banda -, num dos tais instantes que atestam quão intensamente um concerto está sendo apreciado. Porém, aquele tema do disco de estreia é quase bipolar e, após o mergulho em respiração suspensa, o crescendo emocional da canção até ao final – acentuado por intermitentes flashes e pela transição do céu nocturno para diurnas paisagens rurais de sonho – devolveu a plateia ao ânimo impetuoso dos primeiros minutos, de “Salty Eyes”. E foi um fim em grande estilo, que deixou o público faminto e sedento por mais, aplaudindo e gritando pelo regresso dos leirienses ao palco, de onde tinham saído.

E eles voltaram, para retribuir a devoção recebida ao longo de uma hora. E também para ‘cobrarem’ as últimas gotas de suor aos resistentes nas apertadas primeiras filas. Primeiro recuando ao vigoroso início de tudo, o single “The Escape” (integrado em The Misadventures Of Anthony Knivet), que foi acompanhado por uma projecção desenhada ao longo do tema e cantado por grande parte do fiel público. Finalmente, retornando ao novo Drifter, a conciliação entre o fim do concerto e o início do dançante clubbing foi resolvida com a sincopada “Blup”, que fechou a actuação da banda em comunhão com a plateia que foi coro nas repetições do último refrão. Post-rock ou rock progressivo, foi um triunfo dos First Breath After Coma na capital! E mais um sucesso da Omnichord Records, que agregou muitas das melhores bandas do ‘viveiro’ de Leiria e tem investido na sua internacionalização – Surma também vai ao Reeperbahn Festival -, fazendo um meritório serviço público para exportar a música pop de Portugal. Que agradem e abram portas para mais artistas nacionais!

+ First Breath After Coma

As imagens de Carlos Mendes sobre o palco do Musicbox:

First Breath After Coma @ Musicbox