A tonalidade muito particular das guitarras quentes que trazem consigo os relatos não só das vivências como das paisagens que circundam a cultura e a língua tuareg – seja ela proveniente dos territórios estendidos ao longo do Mali, da Argélia, Líbia ou Níger, apenas alguns dos países pelos quais se espraia -, começa a provocar uma sensação de familiaridade, e embora já não seja especialmente novidade para muitos, a verdade é que continua embrulhada em algum mistério.

Vários são já os representantes da música que forra os horizontes de nuances alaranjadas das margens do Sahara, que fazem parte de um movimento bem presente e com o qual a esfera europeia e ocidental do globo tem mantido um contacto especialmente próximo – por razões históricas e linguísticas, muitos deles acabam por desenvolver os seus projectos musicais em França.

Bombino, Tinariwen, Tamikrest e Mdou Moctar – que actuará em Braga e Lisboa em Março -, são alguns dos nomes mais reconhecíveis de um género que cada vez mais se estabelece como autoridade própria e se mapeia nos meandros sonoros mais visíveis, uma consciência a que não é alheio um apreço muito especial pelo desert blues de Ali Farka Touré, uma estirpe geográfica da folk que mantém relações estreitas com a sonoridade tuareg. A visibilidade germinada das raízes africanas do género tem sido de tal forma permeável ao ocidente, que se tem até infiltrado em belíssimos projectos que o conjugam com sonoridades como o rock ou o punk – caso, por exemplo, da dupla italo-checa Oswaldovi, que estiveram recentemente em Lisboa.

Reconhece-se, por isso, de forma mais ou menos automática, a nitidez e a cristalinidade das guitarras que trazem os ventos do Norte de África nas cordas de duas meninas de Illighadad, uma pequena aldeia isolada localizada em pleno deserto do Níger central. Fatou Seidi Ghali e Alamnou Akrouni são, previsivelmente, Les Filles de Illighadad, uma união de artistas que tecem em língua tuareg baladas tradicionais embalantes e canções ritmadas de pendor mais colorido alicerçadas nas particularidades vocais da região, que se transformam em verdadeiros bálsamos revigorantes para a alma. Fatou é, inclusive, pioneira no domínio da guitarra, sendo mesmo uma das duas únicas mulheres tuareg do Níger com ligações conhecidas ao instrumento.

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Emolduradas por pores-do-sol silenciosos, numa região profundamente rural e com um sentido de pertença e de comunidade invejável – apesar da condição nómada intrínseca a qualquer tuareg -, Les Filles de Illighadad tiveram um primeiro momento discográfico de título homónimo em 2016, de seis canções feitos de tecidos tuareg suaves e delicados com Fatou na guirarra e a sua prima Alamnou nos vocais, um trabalho a que deram seguimento em 2017 com o longa-duração, Eghass Malan, no qual participa agora um terceiro elemento com um tende, uma espécie de tambor. Ambos os discos foram editados pela Sahel Sounds.

O mês de Março começa-se a alinhar assim como um mês especialmente agitado no que respeita à cultura tuareg. A Mdou Moctar, juntam-se no calendário as Les Filles de Illighadad, que trazem histórias de um sítio sagrado onde tudo é genuíno e onde tudo é real, à Galeria Zé dos Bois, palco onde tocam no dia 11 de Março e ao Auditório de Espinho, onde actuam no dia anterior. Fatou e Alamnou estiveram em Maio do ano passado em Portugal com uma mini-tour que passou pelo B.Leza em Lisboa, pela Casa da Música, no Porto, pelo Festival Islâmico, em Mértola e por fim, numa última data em Tavira.

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