A Casa Independente voltou a acolher as californianas La Luz cerca de um ano após a estreia do quarteto na boa onda daquela praia sem areia do Intendente. E, apesar da concorrência em mais um fim de semana cheio de rock em Lisboa e arredores até Valada e ao Reverence Festival, o salão esteve bem composto para receber o tempero do seu sal.

O revivalismo que era desejado

Naquele quente fim da tarde, cerca das 19:20, as quatro jovens surgiram no palco do salão já meio cheio pelo típico público indie-chic daquele relaxante espaço. Mas assim que acabaram de tocar a ambiental balada “Sleep Till They Die”,que abre o segundo (e último) álbum Weirdo Shrine, já dois terços da casa estavam ocupados: o som do quarteto liderado por Shana Cleveland facilmente roubou público ao pátio da Casa que acolheu a espera da maior parte da plateia. E mais entraram, atraídas pela suave voz da sereia Shana que cantava “You Disappear”: o groove vintage daquelas beach girls assenta bem na Lisboa cada vez mais virada para o oceano como para o rio.

Enquanto afinavam instrumentos entre canções, a sorridente Shana iniciou o bem humorado diálogo com o público. Perguntou como estavam todos e, pedindo perdão por ainda não o saber dizer em português, convidou quem quisesse traduzi-las para subir ao palco, explicando “Open admissions!” Porém, ninguém se ofereceu e o concerto avançou por “With Davey” que, continuando a sequência inicial de Weirdo Shrine, confirmou duas coisas: primeiro, que mais um ano de ‘estrada’ tornou as La Luz mais seguras em concerto, ao mesmo tempo que parecem também mais focadas quando tocam e no que tocam, conseguindo ignorar a pressão da existência de uma plateia; segundo, que o público em Lisboa acarinha as La Luz, já que no salão não só muita gente já dançava, como eram constantes os “yeah!” e outros incentivos dirigidos à banda. E “Don’t Wanna Be Anywhere” atestou (mais uma vez) a qualidade da acústica do salão e do habitual tratamento do som que ali permitiu identificar a pandeireta e o ‘saleiro’ tocados pela teclista Alice.

Como é também frequente nos concertos na Casa Independente, a informalidade da sua excelente energia inspirou mais um dos insólitos que distinguem eventos naquele lugar. No início da balada “I Can’t Speak”, junto a uma senhora que ainda não tinha parado de dançar ao lado da filha, uma jovem estrangeira descalçou os chinelos e pousou-os junto a uma das paredes como se quisesse sublimar areia de praia na madeira do pavimento. O que deve ter sido facilitado pela transição em medley que instalou nos ouvidos a fluída “Hey Papi”, instrumental (ligeiramente vocalizado) adequadíssimo para ser banda sonora de um vídeo de surfistas como a seguinte “I Wanna Be Alone” (With You)”, malha surf garage ainda mais ritmada que a anterior. Aliás, o ambiente estava de ta modo bom que o par de chinelos foi confiantemente abandonado no salão pela dona que se ausentou até voltar do bar com uma bebida, para junto daquele calçado que continuava no mesmo sítio. Coisas que só se sente nos concertos…

Comércio justo: canções em troca de favores

Cumprindo um alinhamento ainda idêntico ao do último álbum, a psicadélica balada “I’ll Be True” pôs muito do público a ondular lentamente como se estivessem sob o quente sol de praia – ou o de Lisboa naquela tarde. O que talvez tenha feito Shana crer que era oportuno espevitar os ânimos. Na pausa entre canções, novo pedido de tradução. Shana perguntou em inglês “Podem-me trazer um shot de tequila?”, recebendo um coro de risos que a fez acrescentar “Falo a sério! Precisam de tradução? Quem se oferece?”. E um dos fãs que mais tinha gritado para o palco ofereceu-se, dádiva aproveitada por ela para o chamar ao palco, perguntar o nome dele (João) e anunciar já com tradução “A primeira pessoa que fizer crowdsurf ganha um CD para manter a tradição aqui na Casa Independente. Lisboa é uma das nossas cidades favoritas!”. Acto contínuo, João perguntou se podia ser ele e atirou-se para os braços das filas da frente que o carregaram até ao bar do salão onde recebeu a prometida oferta.

Foi com João surfando braços e branços até receber o CD do último álbum que começou a corrida “Black Hole, Weirdo Shrine”. Acompanhada pelo público com palmas do início ao fim – quando Shana ainda saudou João, exclamando para o público “Ele é incrível, um jogador de equipa!” -, foi também o som de mais um insólito: o de um africano maduro visivelmente ébrio que entrou graças à condescendência do porteiro e imediatamente interagiu com a mãe que não parava de dançar junto da filha adolescente. Tudo pacífico e tranquilo no salão já cheio sem estar saturado, permitindo abrandar os corpos e inspirar o perfume psicadélico da balada em “Oranges”, um instrumental bucólico e cinemático que agradou bastante ao público, talvez por parecer adequado para ver o sol descer em miradouros arborizados como os da Ajuda ou de Monsanto. Assim como “True Love” que, sendo a última canção do último álbum, confirmou Weirdo Shrine como a base do alinhamento.

O final do concerto pareceu uma sessão de discos pedidos para gáudio do público que queria também escutar canções do primeiro álbum It’s Alive. E a primeira foi o single de abertura daquele disco, a groovey “Sure As Spring”, após a qual Shana perguntou se tinham “mais algum pedido porque o show estava quase a acabar”. Mas acabou por anunciar um tema novo ainda sem título que dedicaram “ao William que guiou por sete horas e meia”, uma balada com um som mais amadurecido e que foi muito bem recebido pela plateia, de onde saíram fortes aplausos. Mais duas baladas, “Call Me In The Day”, a canção mais retro (e r&b) de It’s Alive, e “You Can Never Know”, que o encerra. Já além do “other side” daquele tema, as La Luz retomaram o diálogo com o público que continuava a pedir temas antigos e, após lamentarem “às vezes temos que dizer que é a última canção”, tentaram mais um instrumental cheio de swing que Shana baptizou “Let’s call it our last song”.

Não foi afinal a última, porque a plateia não parou de aplaudir e gritar até elas voltarem para encore – “mais duas porque vocês foram divertidos de observar”. E após perguntarem onde surfar na segunda-feira porque tinham o dia livre, despediram-se com “Morning High” que permitiu os últimos passos de dança à senhora que pedagogicamente levou a filha ao bom rock, e como “really our last song” pagaram as dicas de surf com a balada “Easy Baby” que sela o EP Damp Face. E os tais chinelos? Ainda estavam pousados, porque o casal de estrangeiros continuava no salão como toda a gente! O som das La Luz não é novo, mas é clássico; e o que tem classe pode e deve voltar.

As fotos do concerto de La Luz pela lente do Carlos Mendes.

La Luz @ Casa Independente