A celebrar 3 anos de existência em Lisboa, o Sofar Sounds tem sempre cartas na manga. Imparável na sua curadoria musical, entre Portugal e além fronteiras, cada edição vem carregada de novidades, deixando qualquer um, estreantes e repetentes, completamente surpreendidos por este conceito.

No passado domingo, 12 de Março, o espaço We L You acolheu mais uma sessão de música, sidra e maçãs, e provou ser um dos lugares mais interessantes a entrar no mundo do Sofar Sounds. Existe com a nobre finalidade de permitir que os turistas deixem a sua bagagem em segurança, enquanto continuam os passeios pela capital, e permite também que descansem no espaço lounge conforme esperam a viagem de regresso ou aproveitem a recém-chegada. O ‘L’ sustenta luggage e lounge, mas fica claro que pressupõe também love, já que o espaço é muito acolhedor, de ambiente familiar e hospedou, com muita simpatia, e em pleno Campo das Cebolas, as três actuações secretas.

Steve Smyth foi o primeiro a chegar. Australiano, de momento a viver em Barcelona, tem em si a essência dos verdadeiros wanderers do planeta. O cantautor trouxe ao público do Sofar um portento de actuação e um privilégio que, hoje em dia, é observado em artistas folk com alguma raridade, permitindo uma transparência tão grande que a audiência quase se sentiu intrusa perante tamanha sinceridade. Cada tema que trouxe encheu, de imediato, as paredes do We L You de um prazer imenso, coordenado pelas suas raízes universais e pelas suas viagens que, em tudo, enriqueceram a sua música.

“Written or Spoken” foi entoada de forma sublime, mas foi com “In A Place” espreitando pela janela, tema capaz de fazer erguer até a ondulação do Tejo, que os curiosos do Sofar ficaram em absoluto absorvidos, trocando palmas com uma energia de corar. Steve Smyth pode parecer incógnito por terras lusitanas, mas já esteve em digressão com os The Killers, Angus e Julia Stone e ainda com Lanie Lane. O single “Shake It” recebeu críticas maravilhosas da Rolling Stone e o vídeo a acompanhar foi nomeado um dos melhores do ano. De boina na cabeça e guitarra eléctrica bem colada ao corpo, actuou como um pedaço íntimo de som e com o seu ar amistoso e, em simultâneo, misterioso, Smyth trouxe um banquete acústico e muito sensível.

Com o seu ar de bardo-viking e entre a presumível rudeza que logo se desdobra em corações partidos, é possível recordar Tom Waits, a dupla Buckley ou Bob Dylan. E por muito que Smyth tenha transformado o espaço We L You e ocupado cada cantinho das divisões, não se duvida que fosse capaz de sustentar palcos muito maiores. E esse dom cabe a poucos. No dia anterior à sua performance no Sofar Sounds, Steve actuou ainda no Musicbox, a convite de Captain Boy.

Steve Smyth @ We L You, Sofar Sounds Lisboa

Beatriz Pessoa chegou, entretanto, para a segunda actuação do serão, fazendo-se acompar de Margarida Campelo, nas teclas, João Hasselberg, no baixo e João Pereira, na bateria. Entre o indie-pop e o jazz, Beatriz e a banda trouxeram um bouquet de frescas melodias, de registo intimista e delicado e apresentará, em breve, o seu EP de estreia, Insects, o primeiro projecto pessoal de uma voz ainda jovem, mas já tão consistente e marcante, de enorme graciosidade e elegância nas letras e no arranjo musical, com cunho da Arruada.

A junção da voz de Beatriz Pessoa aos instrumentos dos membros da banda prova como, de facto, o talento não reconhece fronteiras e como é possível ir buscar o que de melhor se faz em Portugal e juntar, com êxito, artistas e intérpretes de vários géneros, criando parcerias inovadoras. Margarida Campelo, por exemplo, costuma tocar com Bruno Pernadas, e João Hasselberg costuma actuar com Luísa Sobral. Com tamanho talento presente no We L You, tornou-se inevitável pensar em Esperanza Spalding, Lianne La Havas ou Ibeyi, mas vendo Beatriz com uma jovialidade e um conhecimento muito especial do jazz, elaborado com requinte e de assinatura alegre e inovadora, exibe uma voz capaz de ir onde e como quiser e prova haver espaço, hoje e sempre, para o jazz e todas as suas nuances.

Com “You Know”, tema mais recente, o público do Sofar foi embalado e ficou com vontade de o entoar. Beatriz trouxe também “Disguise”, uma belíssima faixa de Insects, ficando a sua aparição a saber a pouco embora tenha valido o suficiente para a marcar como uma das performances mais belas do Sofar Sounds Lisbon. É ainda urgente escutar o tema “Insects”, homónimo do EP, para que todos os trunfos de Beatriz surjam à superfície. De forma encantadora, sem erros, Pessoa apresentou-se na tarde do Sofar e logo ganhou novos fãs que, apanhados de surpresa pela musicalidade e talento da sua actuação, de imediato perguntaram por obras que pudessem comprar.

No contexto dos Concertos inComuns, Beatriz levou os seus temas ao Museu Júlio Dinis em Ovar a 10 de Março e, ainda que por agora só seja possível escutar os seus temas em formato digital, pode sempre ouvir-los nas plataformas de streaming habituais, como o iTunes ou o Spotify. Quem quiser repetir a proeza ao vivo, é estar atento à agenda de Beatriz ou procurar por temas que, logo que se carregue no play, será uma acção a repetir muitas e muitas vezes.

Beatriz Pessoa @ We L You, Sofar Sounds Lisboa

Fechando o ciclo a três tempos do Sofar Sounds Lisbon, chegou Cláudio Martins, a.k.a Sleep在patterns e f.k.a. Taser. O beatmaker, cujo talento engrandece a olhos vistos, trouxe teclas e samplers pautads por um gosto abrangente e heterogéneo, fazendo autêntica magia com as mãos. Pela Habitus Collective lançará o seu álbum estreante, AFEC2 EFEI2 e, sem realmente adormecer ninguém – antes deixando cada curioso do público atento ao seu espírito melódico -, trouxe sons que actuaram como botões de efervescência no entardecer ventoso de domingo. “TEMPO” é uma verdadeira façanha e teletransporta todos os ouvintes para a mente de Cláudio.

Com uma serenidade contagiosa, Sleepin Patterns entregou-se totalmente à sua actuação, encerrando com classe mais uma edição de Sofar Sounds Lisbon e deixando, em todos, o beat atrás da orelha, fruto da sua produção destemida. A Habitus encontra-se também a colaborar com a Gruta, um espaço que actua como laboratório para novos nomes musicais, a fim de destacar o ofício dos beatmakers, e é possível escutar a arte de Sleepin Patterns em fervura máxima, conforme vai galgando novos terrenos e alcançando novos seguidores. “Jardim Botânico” ou “Levity” são alguns dos temas que podem encontrar na página de Youtube de Sleepin Patterns. Fechem os olhos e deixem-se viajar por uma sessão de hipnose ímpar e extremamente sensorial.

Sleepin Patterns tinha já actuado recentemente no Sofar Sounds Lisbon e no passado domingo trouxe ainda mais vigor e habilidade ao We L You. Escreva-se a letras garrafais este nome e tome-se atenção ao futuro próximo. Todos precisam de dormir e todos precisam de ouvir Sleepin Patterns.

Sleep在patterns @ We L You, Sofar Sounds Lisboa

Um brinde, de punho erguido, à sorte de estarmos vivos ao mesmo tempo que o Sofar Sounds Lisbon. Até à próxima!