No dia 9 de Outubro, domingo, houve mais uma edição de Sofar Sounds Lisbon. Desta vez, o ponto de encontro era o Lost Collective, em pleno Cais do Sodré, e não faltaram os curiosos, os cerca de 80 ou 90 que aguardavam os três concertos. Com o local confirmado ao público, o cartaz permanecia em segredo, sendo esta a alma do conceito que continua a resistir, dia e noite, sem fins lucrativos, actuando como exemplo de boas soluções e dador de boas surpresas.

O espaço, utilizado nessa tarde somente para o Sofar Sounds, adoptou a envolvência ideal para espectáculos acústicos com sofás confortáveis, tapetes coloridos, fotografias nas paredes e ainda um gatinho alaranjado que por lá andava, totalmente à vontade, entre os amplificadores. O salão encheu, cheio de burburinho e expectativa, e soubemos quem seriam os três contemplados da tarde. Nesta edição, actuariam perante um público ansioso Sarah Packiam, Um Corpo Estranho e Postcards.

Com esta notícia, apercebemo-nos de que o folk, nas suas várias vertentes, ganharia nesta edição um enorme destaque e, ao contrário da ocasião anterior, na sessão no Rio Maravilha, esta seria uma sessão de carácter mais internacional. O projecto conduzido por Inês Pires existe já há quase dois anos e tem somado sucesso atrás de sucesso. Ao início de cada sessão, sempre aos domingos, pergunta-se à audiência quem conhece e quem desconhece o conceito, e são cada vez mais os braços no ar dizendo que estão a par da estrutura do Sofar Sounds e outros tantos repetentes que marcam presença pela sofreguidão de não se saber ao que se vai. É, também, pelo apoio dos seus fiéis seguidores, bem como pela passagem do conceito de boca em boca, que o torna num projecto de sucesso.

Com o público a postos, uns sentados, outros meio aninhados, de pé, encostados, de cerveja na mão ou de olhos bem atentos, Sarah Packiam entra em cena. A irlandesa, de pai indiano e que se encontra agora estabelecida na Flórida, actuou já no Sofar Sounds Miami e Equador. Com três álbuns lançados, foi Again, de 2015, o disco em maior evidência na sua setlist. Começou por dizer que, por ser irlandesa, iria beber uísque ao longo da sua actuação, para que não fossemos púdicos, e também porque estava com tosse. Ninguém achou incorrecto da sua parte. Estreou a sessão com “Big World”, em que o refrão “we’ll never be as young as we are today” ressoava com alguma semelhança vocal de vozes femininas de ondas muito díspares, como Gwen Stefani, Dillon, Sarah Bareilles e ainda, em algumas intenções, mescladas entre música e letra, Lana del Rey, talvez pela atitude da performance. Seguiram-se “I Loved You First” e “Again”, faixa homónima do álbum mais recente, e a sua preferida da obra.

Sarah Packiam

Sarah Packiam

Com arranjos acústicos, como é tradição do Sofar Sounds, encontrámos Sarah só com as suas cordas, por oposição à versão estúdio das faixas que conhece outras sonoridades. Animada, e dizendo-nos que não era de propósito que cantava, na maioria, canções tristes, apresentou-nos uma versão bem peculiar de uma das músicas mais entoadas por vários profissionais e amadores: a “Creep”, dos Radiohead. Naturalmente, o público acompanhou-a, timidamente ao início, mas com mais vigor para as notas finais. Também contempladas foram “I Miss You”, outro single seu, e perguntou, com uma voz doce e que não fazia prever estes pedidos, se não lhe arranjavam mais uísque. Entre gargalhadas confessou-nos que, por estar rouca e a cantar músicas à guitarra perante uma bonita plateia em Lisboa, se sentia como uma rock star. Não lhe foi negado esse direito, muito pelo contrário.

A cada nova música que trauteava, Sarah introduzia contextualmente a composição da faixa. Isto permitia que a conhecêssemos melhor ou que, todos aqueles não familiarizados com a sua discografia, ficassem com mais informações e detalhes, o que funcionou sempre perfeitamente. Terminou com “Messed up”, com uma infinita garra no tanger das cordas, em que o som era projectado como um míssil, deixando ainda espaço às suas ostentações vocais, agora bem embaladas pelo ânimo e pelas várias camadas acústicas da divisão, de soalho de madeira e espectadores extremamente atentos.

Em nome da linhagem da música nacional seguiram-se Um Corpo Estranho. Os setubalenses, que compõem desde 2012, trouxeram um festim de blues, folk, rock e um quinhão de lengalengas de tom bem português e, desta vez, cinco elementos para celebrar mais uma edição do Sofar Sounds. Naquela que foi a segunda ocasião em que assinalaram presença neste projecto foi Pulso, o novo disco, o centro das atenções e das opções do grupo constituído, neste domingo, pelos irmãos João e Gonçalo Mota, Sérgio Mendes, Vítor Coimbra e Pedro Franco.

O álbum com 11 faixas, lançado este ano, pousa na catarse melódica em que a incessante busca da luz é sobreposta à treva, pelo menos na sua maioria. A bem ver, e nadando sofregamente entre estas duas desarmonias, Um Corpo Estranho são reflexo de vícios e virtudes da existência portuguesa mas, sobretudo, daquilo que se julga consistir o ‘ser português’, com a inspiração que resgatam aos lirismos de referência, das várias épocas de prestígio e de queda. “Bocage”, para além de ser uma figura da cidade de Setúbal, é aqui homenageado a propósito do seu 250º aniversário, com o soneto ‘Adamastor’ a encontrar uma versão transformada em música pela banda, nas mãos decisivas da dupla João Mota e Pedro Franco, caçadores de portugalidade, à medida que iam actualizando os mitos e as fantasias anciãs. Foi um dos pontos altos da tarde.

Um Corpo Estranho @ Sofar Sounds Lisbon

Um Corpo Estranho @ Sofar Sounds Lisbon

As músicas de Um Corpo Estranho, todas com letras na nossa língua-mãe, primam por uma extrema musicalidade em que a cantiga e a melodia abarcam vários estilos e, carregadas de pérolas preciosas, se deixam consumir por odes que recordam tempos frágeis e áureos, lembrando, por exemplo, a era dos descobrimentos ou, mais recentemente, a colonização do continente americano, com o banjo a sobressair da voz dos outros instrumentos mas, sem por isso, estar deslocado ou parecer indevido. De um salto para outro salto fomos viajando entre o faroeste, universo de índios e cowboys e os becos setubalenses, com os pescadores, as varinas, a forte presença industrial ou o bater das ondas ao entardecer, em que as guitarras, da família sonora de Dead Combo, se soubessem palavras, encheriam o salão de pregões, pois já o ocuparam de baladas agridoces e pungentes.

Cada letra entoa em si uma chama muito própria. Cada música existe como se de um poema se tratasse. E criar esse efeito mais lírico, em jeito de epopeia, não é, de todo, fácil. A enorme harmonia de tons que o grupo atinge, pelas vozes entre graves e agudos, e pela improvável boda entre instrumentos de cordas e a percussão, tão propositada e marcada, compassando as pegadas de uma banda que parece contar já várias décadas de existência, tal é a experiência que parece ecoar dos vários ritmos e palavras, é bastante evidente, como se musas estivessem constantemente presentes no momento da criação e da actuação.
Um Corpo Estranho foi muito bem acolhido no Sofar Sounds Lisbon. Destacamos a imensidão de “Onde Quero Arder”, “A Seiva”, do mais recente trabalho, e “Valquíria”, proveniente do disco de 2015, De Não Ter Tempo. Esperamos que os trovadores, Franco e Mota, continuem a sua demanda, e pelos mundos fora passem a palavra e a melodia para que a música permaneça, se possível, imortal e se eternize em cada pulsar de respiração.

Coube aos Postcards a terceira e última performance da matinée. A banda libanesa, oriunda de Beirut, trouxe doçuras sem travessuras aos curiosos instalados no Lost Collective. Tal como Um Corpo Estranho, também eles actuam musicalmente desde 2012. Recompensaram-nos, sem defeito algum, com um folk-rock bem melódico, felizmente agraciado pela voz ímpar de Julia Sabra e contando com os primos Marwan Tohme (guitarra e voz) e Pascal Semerdjian (percussão, harmónica e voz). André Rebelo Galvão, baixista, substituiu Rany Bechara, o baixista original do grupo que, por motivos relacionados com burocracia de fronteiras, não conseguiu viajar para Portugal.

Vivendo quase nómadas por essa Europa fora, por onde viajam em digressão, actuaram ainda em algumas cidades portuguesas de norte a sul, e decidiram honrar o fim da tour pelo nosso país com um último espectáculo no Sofar Sounds, na capital. Pela sua qualidade, indesmentível e merecedora de grande notoriedade, como compreendemos logo à primeira canção, abriram concertos para Angus And Julia Stone e o seu encanto é gritante. Não obstante, as maravilhas dos primeiros encontros, a música deles também fala por si mesma, representando-os com primor.

Postcards @ Sofar Sounds Lisbon

Postcards @ Sofar Sounds Lisbon

Os Postcards fascinaram-nos do primeiro ao último momento da actuação. A química entre cada elemento da banda merece um aplauso digno de fazer estalar as mãos. Viçosos, ambiciosos, felizes e revigorantes, entretiveram uma plateia jovem que rejuvenesceu conforme o concerto avançava e apelaram à participação da mesma. Funcionou sempre maravilhosamente e em “Oh The Places We Will Go” o coro da plateia mereceu prémios por se manter tão afinado e ao ritmo correcto das indicações do grupo. É, também, um ponto de destaque do Sofar Sounds esta capacidade de incluir o público na própria performance musical de cada artista ou banda. Julia Sabra, portadora de uma voz cheia de mel que, em vários segundos, nos recordou Feist, demonstra como é possível ter carisma e elevar a banda a um outro nível de presença ao vivo, sobretudo quando se fez acompanhar de um radiante ukulele. A acústica do salão ganhou com a presença de Postcards e não houve quem conseguisse ficar desinteressado em qualquer faixa que aparecesse.

Com “Walls”, que pudemos associar às melodias à cappella de Fleet Foxes, Bon Iver ou alt-j, por exemplo, assistimos a uma circunstância tão delicada e frágil, demasiado bela para se consumar, e os Postcards confirmaram que têm de voltar as vezes que forem precisas a Portugal. O Sofar Sounds Lisbon foi a plataforma perfeita para a música do grupo, bem como à essência de todos eles e, com “Where The Wild Ones”, já só tínhamos suspiros e palmas em retribuição. Com dois Eps à solta, Lakehouse, de 2012 e What Lies So Still, de 2015, os Postcards encontram-se a trabalhar no primeiro álbum, numa obra mais completa que surgirá, em princípio, no início de 2017. Não podemos conter o entusiasmo ao saber que vamos receber mais criações e versões musicais deles. Resta esperar que regressem pois serão, em qualquer momento, recebidos com abraços e canecas de chá quentinho.