Como em tudo, os ciclos abrem-se e fecham-se continuamente. Na vida secreta das bandas não é diferente, e os Brass Wires Orchestra partiram do primeiro disco – Cornerstone, de 2014 – para uma evolução com tanto de clarificadora como de subtil. Se no primeiro capítulo a orquestra ecoava entre o rústico e as paisagens campestres tão clássicas da folk music, hoje puxam do banquinho de madeira no alpendre para ver o sol nascer. Ao lado, em vez de uma mesinha comida pelas estações do ano, colocam os amplificadores ligados à corrente.

Os Brass Wires não arrumaram os banjos na mala mas abriram uma série de baús. Uns baús mais pop, outros com o vírus da electrónica a tecer malhas de experimentação ténues mas paisagísticas. O novo disco, Icarus, assume-se transparentemente como um passo evolutivo semelhante a uma janela aberta para entrar ar fresco na casa de campo, agora decorada de forma mais urbana.

Duvida-se que exista um número mínimo de elementos para uma orquestra ser uma orquestra, mas se há, os Wires mandam as normas às urtigas que orlam o caminho silvestre por onde têm vindo a caminhar. Os oitos elementos em palco são orquestra no pequenino coreto em que se torna o Musicbox, quando tem de receber algo mais que a estrutura habitual de uma banda rock. No dia 16 de Novembro, por um passe de magia, o palco da sala lisboeta encolheu e de que maneira para receber os Brass Wires Orchestra. A missão: apresentar Icarus em público pela primeira vez. Uma casa cheia de amigos – daqueles reais da vida real e daqueles que conhecem a banda pelos tecidos de som e poemas nos quais embrulham a sinceridade das suas canções – foram introduzidos à personagem que traz de volta passados três anos a orquestra liderada por Miguel da Bernarda aos discos. Não será a folk uma congregação ela mesmo de fiéis ao humanismo e ao acto singelo e verdadeiramente bonito da amizade? Com certeza que sim.

Quase respeitando na íntegra o alinhamento de Icarus, os Brass Wires Orchestra inauguram a noite com o mesmo triskle do disco: “Oxygen”, “Coup de Pied” e “Trust” alimentam o passado e a nostalgia folk que se começava ali a movimentar de si mesma, para mais além. Tal como o símbolo celta – ah pois, não se ia perder a oportunidade das analogias mais pagãs quando temos pela frente uma banda que assenta a sua pedra basilar (see what we did here!? wink wink) nas raízes e no cheiro a terra molhada – a nova vida dos Wires faz-se de equilíbrio entre os elementos, entre o final do que se era e os primeiros bafos de ar quente de uma nova abordagem a esses mesmos elementos. Ar, terra, fogo, tecnologia, água e o mesmo sentido de como se monta uma canção, feita de quaisquer que sejam os ingredientes. A orquestra é a mesma, o amor como mandamento é o mesmo, as histórias são as deles e as que vão escutando pelo caminho… ou não será a folk também a arte de recolher e recontar as histórias? Pois claro que sim.

Chega o momento de trocar pela primeira vez as voltas ao disco; “Haunting” toma o lugar de “Youth”, primeiro single e o sinal que algo de novo soprava nas brisas da banda. A folk ainda não respira fora de si mesma, mas abre guerra ao passado. Um tema que parte do lado mais denso e bélico do género para um lugar de esperança crescente. Esta é uma das canções mais poderosas do octeto e é feita para crescer em espaços fechados, ao contrário de alguns dos novos temas que pedem agora uma amplitude arquitectónica muito superior aos coretos e aos clubes. Sim, é nessas onde entra a pop que eles foram buscar a um baú inesperadamente aberto com mestria. “Youth” é uma delas. A canção, que sucede a “Haunting” nesta noite de amigos e histórias, é absolutamente uma delas. Uma crónica sobre a desumanização geracional que saltou as Primaveras revolucionárias prometidas pela tecnologia e pelas redes sociais directamente para um vácuo de propósito e de humanidade. E não será essa mesma humanidade um elemento essencial da folk? Claro que é.

Em Icarus, há quatro músicas que se encaixam em pleno nesta categoria de canções pop maiores que tudo. “Youth”, “Zephyr”, “Icarus” e “The Proposal” são feitas para encher o espaço enorme de um estádio. Sim, mesmo à antiga e contrariando a direcção modernizadora da linha sonora dos Brass Wires Orchestra. Seja em contexto de disco, seja em contexto de palco – e todas as canções do segundo álbum dos Wires passaram pelos ecos das paredes de pedra do Musicbox – parece existir uma linha condutora que os liga a dois dos maiores nomes da história da pop e do rock. Em “The Proposal” e em “Icarus” espera-se ver Bono Vox e The Edge entrar pela portinha de acesso ao palco, ambos vindos directamente dos tempos de Unforgettable Fire e de The Joshua Tree, de colete e cabelo comprido sujo pelo pó das estradas dos Estados Unidos. “Zephyr” une os pontos entre os Brass, os U2 e Chris Martin, que facilmente se consegue imaginar ensopado em confettis durante um qualquer momento épico de um concerto descarada e felizmente pop dos Coldplay. E enterra-se já a polémica com a afirmação que canções como estas – num espectro mais ou menos pop e relembrando momentos em concertos de referências actuais indie como os Arcade Fire e até mesmo… ah tinham de vir… os Mumford & Sons – são de acesso muito restrito a alguns.

Quando se fala de canções maiores que a vida passamos a incluir uma mão cheia ou mais de temas dos Brass Wires Orchestra. Voltando a “Youth”, encaixa exactamente no feixe de luz onde a banda de “Yellow” e “God Put a Smile Upon Your Face” deixou de ser aceite por grande parte da comunidade alternativa e o ponto óptimo em que nomes como Local Natives, os Radiohead de The Bends e Ok Computer e Glass Animals podem flirtar tranquilamente com os tons mais açucarados da cena indie, sem deixarem de ser alguns dos seus rostos maiores.

Há ainda “Whispers”, uma canção que em palco ganha ainda popalidades (qualidades pop). Assumida como a canção favorita da banda do novo disco, este é aquele momento em que se esquece completamente que algures no tempo – e que ainda há minutos -, os Brass eram uma banda de clareza folk a inspirar outras tonalidades sonoras. Esta canção é a canção que poderia marcar a passagem definitiva dos Wires para outros horizontes. Mais precisamente, na Califórnia junto aos Natives que se falava mais atrás. “Whispers” antecede um dos dois flashbacks a Cornerstone. O tema maior até agora da carreira dos BWO, “Tears Of Liberty”, ainda está plenamente presente na memória e tira o único momento de coro de amigos.

Houve espaço para convidados: Timóteo dos NBC veio rappar sobre “Icarus” e Ana Bacalhau emprestou-se voz com voz com Bernarda em “Wash My Soul”. Falávamos de pop, não era?! Lá está. Também se homenagearam fãs desaparecidos, houve pedidos da banda de abraços e beijos entre o público. Falávamos de amor e amizade, não era? Lá está.

Para fechar os Brass Wires Orchestra são fiéis a Icarus: a canção que fecha o disco encerra a noite. “Sitting In The Wrong Church” é uma música de uma vida, é canção maior na carreira de qualquer um. Imaginem Bono, York, Justin Vernon ou Marcus Mumford com a voz sentada ao piano da mais correctas das igrejas e o efeito emocionalmente devastador seria exactamente o mesmo. Uma canção sobre isolamento, sobre fragilidade, sobre a necessidade de ser amado, de recordar. Alguém canta baixinho, Afonso Lagarto olha nos olhos e sorri. Sobre a cumplicidade, a amizade e os momentos maiores que a vida… estamos conversados, porque afinal estamos todos sentados no mesmo banco de madeira sob o mesmo alpendre e a música é sempre o templo certo no tempo certo.

Brass Wires Orchestra @ Musicbox