O unicórnio fugiu para a synthlândia: será 'Little Dark Age' a salvação dos MGMT?
74%Overall Score

Os MGMT chegam a 2018 e a Little Dark Age com uma tentativa de arranjar pontos de contacto com o seu passado mais longínquo, aquele que em 2007 deu frutos em Oracular Spectacular – o álbum de estreia dos norte-americanos -, e em particular na alta concentração de electropop com a voltagem a bater no vermelho em apenas três canções. Aquelas mesmas três canções que lhes eram contra-natura e uma espécie de desprendimento calculista do amor partilhado por Andrew e Ben pelos sons de 70 e pela neo-psicadelia, a mesma identificação sonora que na universidade os aproximou. Aquelas mesmas três canções que lhes iriam, por ironia do destino, trazer os maiores palcos do mundo. Falamos, claro, de “Kids”, “Electric Feel” e “Time to Pretend”, protagonistas de um álbum que tecia mais uns quantos momentos de brilhantismo pop mas que mostrava já sinais nas outras canções que os ventos podiam facilmente mudar de direcção.

E mudaram mesmo. A Oracular Spectacular seguiram-se dois álbuns – Congratulations, de 2010 e MGMT, de 2013 – que foram recebidos de forma desconfortável (eufemismo) pela maioria daqueles que anos antes se tinha abnegadamente dado aos três temas supracitados. Canções de alienígenas formas ácidas, carregadas de uma psicadelia jazzística pouco convencional, estranha até, por vezes, e que, não surpreendentemente, não caiu bem nos ouvidos de todos, senão nos dos seus próprios criadores, que finalmente tinham conseguido o seu espaço para fazer a música que lhes saía de forma sincera do coração.

A honestidade criativa dos MGMT, por muito louvável que seja, foi atirando a banda para as zonas mais recônditas do esquecimento no que respeita à maioria dos fãs que se ganharam em 2007, afundando-os num período cada vez mais negro – e não tão pequeno assim. Outros foram-se coleccionando pelo caminho, é certo, mas o tempo que mediou 2013 e 2018 apresentou um desafio inédito e transformou-se rapidamente num dilema: optar por manter aquele que seria o quarto álbum na mesma linha sonora dos dois trabalhos anteriores, correndo o risco de assim alienar irremediavelmente os fãs da tríade que lhes deram os maiores públicos, ou conseguir um equilíbrio que permitisse conciliar as tendências manifestamente pop do álbum de estreia e ao mesmo tempo não comprometer a ambição artística da banda.

O resultado fixou-se algures num meio-termo, conseguido de forma imprevisível – não é essa a palavra-chave quando se fala dos MGMT? -, talvez com a tendência a inclinar-se mais para 2007, embora Ben Goldwasser tenha confessado, em entrevista à publicação espanhola Binaural, que este não constituiu um regresso a Oracular Spectacular, mas antes um salto em frente, imbuído de algum do espírito do álbum de estreia, adaptado aos dias de hoje. Little Dark Age chega quase como uma bíblia em forma de cancioneiro, que condensa em dez temas quarenta anos de synth e electropop e mais alguns de psych, nomeadamente nos seus momentos finais. Um álbum que realça a genialidade na escrita de canções dos MGMT com composições assertivas e confiantes, em alguns momentos ousadas, até – “Tslamp” parece encravada numa Miami Sound Machine com “Isla Bonita”, de Madonna, a abafar o horizonte em loop, enquanto “Me and Michael” anda às voltas pelo cosmos a bordo de uns Starship no seu “Nothing’s Gonna Stop Me Now” -, que convencem que a banda é capaz de construir exactamente aquilo que pretende, da forma que planeou, sem que nada tenha acontecido por acidente.

Desde as ambiências que coabitam nos mesmos habitats peculiares de Conan Mockasin e o Ariel Pink de  pom pom (2014) em “She Works Out Too Much” – ambos os músicos colaboraram com os MGMT em Little Dark Age que foi produzido por Patrick Wimberly, dos Chairlift, algo que não passa despercebido neste tema em particular -, passando pela estranheza electro-psych-soul de “Days That Got Away” ou pela new wave de espírito europeizado reminiscente do início da década de 80 de “Little Dark Age” e “When You Die“, não esquecendo o psych estendido em várias camadas de syths de “James” ou aquele que vê o mundo passar num arrasto vagaroso e lânguido no impaliano “Hand It Over” ou em “When You’re Small” – aquele tema que Mac DeMarco não se importaria, certamente, de ter no seu cancioneiro -, Little Dark Age parece ter sido um esforço bem-sucedido do resgate dos MGMT de uma certa clandestinidade, não os fazendo reféns do seu próprio sucesso, e não os afastando de quem lhes dedicou toda a atenção no início da carreira.

Se é um regresso de forma brilhante? Talvez não o seja completamente, e ao mesmo tempo também não distancia muito dessa premissa. Mas em qualquer dos casos, parece que está encontrada uma das bandas sonoras do próximo Verão. E parafraseando o tema de abertura do álbum (que tão bem o resume), get ready to have some fun!

* Por razões técnicas o disco está disponível no spotify mas sem som. Durante o dia de hoje actualizaremos o player correctamente.