Ouvir algo vindo de Chrysta Bell é ficar preso numa estranha experiência onírica habitada por demónios num estado de dicotomias sensoriais assimétricas; ora embalados pelo sonho etéreo, ora acossados pelo seu congénere mais tórrido, ora até voando entre a névoa da memória, ora dificilmente conseguindo encontrar a saída de um qualquer labirinto tortuoso pelo qual resvalámos de mãos dadas com este ser alienígena.

O magnetismo esotérico da voz de Bell situa-se algures no limbo obscuro entre o sonho e a realidade, e a sensualidade da sua voz paira indiscriminadamente entre os tímpanos e a pele fazendo eco e retombando no centro pélvico do cérebro. A colaboração com David Lynch só veio cimentar ainda mais o universo surreal da música de Chrysta Bell, com o zeitgeist lynchiano a dar corpo a uma energia cinética entre o experimentalismo visual e performático e aos enigmáticos poderes vocais e melodias profundas de Bell.

A revitalização da icónica música de Jullee Cruise encaixa-se de forma perfeita nesta colaboração firmada algures na Red Room de Twin Peaks. Produzido por John Fryer dos This Mortal Coil a faixa “Falling” torna-se algo mais do que uma simples cover, ganhando um corpo ainda mais etéreo com uma patina de cores e sabores diferente. Um convite a mergulhar nos fluxos e refluxos das paixões que exalam perigo por entre paisagens sonoras sombrias e mescladas de nevoeiro.