Quase de certeza que o triângulo dos alt-J se fechou no seu terceiro lado com o lançamento de Relaxer em Junho do ano passado, apenas um mês antes de voltarem ao palco principal daquele que tinha sido a sua principal morada em termos de palcos portugueses, o NOS Alive. Depois de três passagens por Algés – uma primeira gloriosa no Palco Heineken e duas (des)promoções ao palco principal -, e da estreia em 2012 no Milhões de Festa e no Mexefest, a banda de Joe Newman, Thom Green e Gus Unger-Hamilton fechou o segundo trilátero no que toca ao relacionamento com os palcos nacionais com a estreia em sala (finalmente). Uma sala aparentemente demasiado grande e com o palco puxado a meio da Altice Arena e muitas das bancadas ou despidas ou cobertas de panos negros, deixa a questão como teria sido esta noite num Coliseu ou dois a rebentar pelas costuras. Mas isso é mera ficção e de ciências exactas encheram os alt-J a noite de Reis em Lisboa. Mas voltando atrás no texto e no tempo…

Quase de certeza que os alt-J fecharam, com o disco de 2017, uma fase da carreira que criou uma figura geométrica de edições perfeitamente ajustadas umas às outras. De An Awesome Wave até Relaxer, com This Is All Yours pelo meio, não mexeram quase uma fibra óptica na forma quase laboratorial como inserem pitadas de diferentes tipos de emotividade e sensibilidade numa lamela para serem objectos de estudo primeiro e vítimas de experiências sonoras depois. Uma ligeira briza espessa de algo ainda indefinido já pulsa no último disco dos meninos do delta mas se será um aprofundar das anti-delicadezas sinfónicas, ou uma entrada pé ante pé por um experimentalismo pop de câmara, ainda não é possível definir. O certo é que se sente em Relaxer se não um final de algo, pelo menos uma transmutação subtil na abordagem antropológica da banda a tudo o que os rodeia, inclusive na sua faceta menos abstracta de zeros e uns. Mas o futuro aos cyborgs divinos pertence, e aqui olha-se para a noite dos alt-J na maior arena da capital portuguesa.

Pelo que se viu em Lisboa, a devoção continua a ser ponto fulcral em relação aos britânicos. A mesma devoção que vem crescendo desde 2012, tanto por parte do público – que curiosamente atravessa pelo menos duas gerações, apesar da ainda tenra caminhada da banda – como por parte da banda. Se a manta humana passou a curta hora e meia do concerto, entre um estado de transe focado nas ramificações, pilares e focos de luz que vinham do palco e explosões pontuais de delírio ora doce ora histérico, já a banda é devota da clonagem quase perfeita das suas músicas. Tendo-se perdido pontualmente um ou outro pormenor num palco tão grande, o facto é que em nada isso se sentiu. Os alt-J têm esta capacidade de transporem o essencial das canções para o palco, fazendo com que ninguém se lembre que o que está a assistir é fruto de experimentação. Em tons de pop, é certo, mas de experimentação. E o que é o essencial das canções? O calor humanizante que tanto transporta as emoções por um espaço sideral planante, como por uma nave de igreja feita em pedra onde a luz atravessa os vitrais sonoros dos britânicos.

Com cada um dos elementos da banda colocado em rectângulos traidores à causa da perfeição e delimitados por barras de luz, os alt-J arrancaram com “Pleader”, “Fitzpleasure” e “Nara” – que pena não lhe terem colado “Leaving Nara” logo de seguida -, percorrendo de rajada os três álbuns que os puseram como um dos nomes de maior culto da actualidade. O início deixava antever uma viagem equilibrada entre discos que não viria a acontecer, com o foco principal da noite ainda a ser iluminado pelo álbum de estreia. A prova por equações nada complicadas de entender que a raiz de tudo está ainda em 2012, acha-se na estatística. E quando, num alinhamento de 19 músicas, 10 são desse mesmo registo, entende-se que a fórmula ainda resulta mas que a duplicação não está a trazer os mesmos frutos que a awesome wave colheu… ou será que não há amor como o primeiro? Os resultados da equação podem variar consoante quem usa a calculadora da devoção.

Curiosamente, ou só para baralhar as contas, o primeiro grande momento da noite está em “In Cold Blood” do novo disco, sem ratinho mas com um valente coro vindo cá de baixo. Já com o sangue quente? Absolutamente! Então o corpo do concerto está plenamente formado e pronto para uma sequência de absoluta devoção religiosa que começa com a perfeitamente catedrálica (palavra que não existe mas que remete para algo como o eco de uma catedral) “Interlude I (Ripe & Ruin)”, e que segue a orar com “Tesselate” – tal como em An Awesome Wave – , “Every Other Freckle” e “Hunger of the Pine”.

alt-J @ Altice Arena

O pulmão artificial troca de pilhas em “Deadcrush” para sentir o pulsar de “Bloodflood”, porque até os mais brilhantes cientistas precisam de respirar e a menina querida de todos os fiéis está quase ao virar deste par de canções. Sim, “Matilda”, a sweetheart de uma geração, chegava logo de seguida e chegava exactamente a mesma que é em disco, uma doçura de criatura que se derrete na boca e, nesta noite, na voz dos milhares de fiéis enquanto abria caminho por entre o jogo de iluminação brilhante que os alt-J montaram. As pequenas labaredas que pareciam crepitar por momentos junto ao chão, rapidamente se transformavam em ramos e arbustos de luz por cima de Newman, Green e Gus, ou, por variadas vezes, em portais que remetiam para o universo de Matrix e para deambulações siderais em naves que cortam a falta de atmosfera do espaço em velocidades warp.

Para fechar a primeira parte do concerto “Dissolve Me”, “Left Hand Free” e a soberba “Taro” – introduzida por Gus Unger-Hamilton num português perfeito “Esta música chama-se “Taro”” – reduz a velocidade que as anteriores tinham imprimido para a parte mais energética da noite. Apesar de quase nem terem saído do palco para aquele que seria um encore de faz de conta, os alt-J voltaram para a tríade final que arrancou com “Intro” do disco de estreia e  ganhou relevância suprema com os dois extremos da carreia dos alt-J a unirem-se no adeus a Lisboa na forma de “3WW” e “Breezeblocks”.

Duas canções marcantes tanto em disco como esta noite em palco. A mais recente envolve-se em parte numa batida e num riff que serve de sequela perfeita a “Teardrop” dos Massive Attack mas com a tal religiosidade – que com certeza bebe do cálice da água benta do folk -, a tomar conta de parte do tema. No restante tempo, a música desliza por riachos de doçura, transmitindo ao vivo a certeza que algo de ainda mais cinematográfico espera o futuro dos alt-J, facto que já os vídeos retirados do terceiro álbum deixavam antever. Por outro lado, a mais antiga realça em todo o seu esplendor a marca que tanto a banda como o tema deixa numa era, numa geração e no percurso que os ingleses tomaram como seus ao longo de apenas cinco anos: a pop experimentalista quase sempre de tons melancólicos mas de carácter celebratório e luminoso assentes em electrónicas e melodias doces entre o inocente e o frágil.

Os alt-J despediram-se com uma vitória segura na primeira noite totalmente sua em Portugal com a demonstração que serão durante muito mais tempo um trabalho em mutação por mais leves e complicadas que sejam de observar a olho nú essas alterações. Esta noite, no laboratório das emoções à flor da pele, foi muito mais fácil olhar para dentro da verdade que fica tantas vezes turva no burburinho dos festivais. Pela lente do microscópio dos ingleses, as partículas com que montam a certeza, a firmeza e a segurança das composições absolutamente inalteradas é gloriosa.

Na primeira parte do concerto, Marika Hackman chegou de fatinho cinzento, ténis brancos e cabelo quase sempre a cegar a visão de quem a observava,  deixando a vontade de a reencontrar de forma mais próxima. Canções como “Eastbound Train”, que abriu o set, a frágil “Ophelia”, a dissonante e íntima “Majesty” ou as “Good Intentions” de rock contido mas insanish com que fechou os cerca de 40 e poucos minutos que passou no palco da Altice Arena com os restantes três elementos da banda, comprovam-na como uma compositora em plena expansão. Tal como em I’m Not Your Man, o disco de 2017 e segundo da carreira da compositora, a inglesa afastou-se esta noite das raízes folk que alimentavam as suas músicas no disco de estreia em 2015, We Slept At Last.