Depois do assalto à mão armada que se abateu sobre nós com o seu disco de estreia, os 10.000 Russos voltaram a ressalvar as razões da sua grandeza na cena psicadélica. Distress Distress é o terceiro álbum dos portuenses que chegou em março deste ano e emana uma atmosfera distópica que serve como palco de fundo na criação da sonoridade da banda.

João Pimenta (voz e bateria), Pedro Pestana (guitarra) e André Couto (baixo) lançaram o seu primeiro álbum homónimo em 2015 e  que levou o selo Fuzz Records. Com um som igualmente subversivo quando em comparação com o das bandas que assinam pela editora londrina e dotados de uma psicadelia moderna e inovadora como a dos Sonic Jesus, os portugueses destacaram-se e fizeram de si um nome incontornável para os amantes de um bom psych industrial, até porque as performances perfecionistas do trio já os levaram a grandes palcos europeus e os fixaram como peça do puzzle e parte indissociável da cena psyth experimental.

O segundo longa-duração dos 10.000 Russos catapulta sem delongas para um cenário cinematográfico de caos que perpetua a urgência emocional em tons negros mergulhados no krautrock e no post-punk. “Germinal” introduz-nos nesta viagem, reveladora que é de uma escuridão que existe num mundo aterrorizante e que não sabemos bem se é ou não real. É o sentimento de catástrofe que se avizinha, porém é intrínseca a essa malha feita de negritude uma certa beleza. O galope desconcertante mantém a faixa viva e os riffs que nunca chegam à exaustão eternizam a catarse que se fará sentir até ao fim dos 43 minutos que compõem Distress Distress. Os loops do tema alertam para o panorama semelhante a de um filme de terror dos anos 20, como a imponência de Nosferatu a aproximar-se de nós a passos lentos a cada linha de baixo regada a post-punk.

“Tutilitarian” surge com um som ligeiramente mais dançável e a arranhar o pop que se mostra tímido entre a aura obscurecida do álbum. A distorção da guitarra é chamada a palco, e representa um dos pontos fortes da música. As progressões vocais assombrosas e xamânicas dos momentos finais vão-nos preparando para “Europa Kaput”, que eleva a mantra experimental do trio e serve de porta para uma nova dimensão no género musical. O solo cria um verdadeiro desconforto, como se estivéssemos perante os nossos medos numa sala sem saída em que o resultado final será o clímax puro.

Os rasgos eletrónicos e noise também estão presentes e ouvem-se em “ISM”, que se vai rompendo devagar. A tensão vai sendo criada com os toques de feedback e de drone em que a batida krautrock brilha e gera um ambiente claustrofóbico. O efeito de profundidade auditivo atinge o auge em “Radio 1”, tema onde os headphones são obrigatórios para aproveitar ao máximo a experiência. A guitarra carregada estão lá lado a lado com os loops do costume. Porém, são todos os sons e riffs imprevisíveis que progressivamente vão aparecendo e dando densidade à música e a fazem destacar-se num mural de som.

“Distress” finaliza o álbum com um instrumental electrizante e pulsante, e fácil é percorremos a sua duração a sofrer o efeito de choques e calafrios constantes. Os vocais dão um ar futurista ao som que os 10.000 Russos criam nesta conclusão de um álbum denso, complexo e completo, e que vê a desordem caótica como a forma fascinante de encarar o seu som. Acabar de ouvir Distress Distress é assistir ao apocalipse com uma certa impotência e sem meios de o impedir, observando sem reacção o desabamento de edifícios e, mesmo assim, conseguir encontrar respostas e ambição no que virá depois. É como alcançar a alegria no caos.