of Montreal - Aureate Gloom
70%Overall Score

Os of Montreal já não vão para novos, mas isso não é desculpa para que a criatividade da sua música seja deixada para trás. A cada disco que a banda lança é visível a irreverência, a variedade e a novidade, objectivos que visam ser alcançados pela banda liderada pelo carismático Kevin Barnes. Aureate Gloom é o trabalho mais recente e mostra-nos um lado lírico mais pessoal, onde a fragilidade e a intimidade são palavras-chave.

Barnes descreve-nos o último disco como “a golden despondency”, ou seja, este desânimo dourado, se assim podemos dizer, mostra-nos um homem melancólico cabisbaixo. Ainda em 2014, o vocalista e líder do grupo deu uma entrevista à Stereogum na qual falou do novo álbum e do processo de criação das letras e melodias, bem como das motivações para este novo trabalho. O músico afirmou que este seria um disco com um cunho mais pessoal na vertente lírica, fruto da separação da mulher com quem viveu durante mais de dez anos.

É, sem dúvida, um disco pessoal e intimista, se olharmos para as letras que dele fazem parte, em que o amor, a desilusão e a tristeza vigoram. Musicalmente, descobrimos um disco onde a diversidade é espelhada ao longo dos seus dez temas. A grande excepção acaba mesmo por ser a introdutória e primeiro single “Bassem Sabry” – referência ao jornalista egípcio que morreu em 2014 sob circunstâncias desconhecidas – que com uma abertura em tom de guitarra agressiva, depressa se transforma numa espécie de disco funk que depressa nos colocaria a dançar em plena pista de dança caso estivéssemos nos anos 70.

Logo de seguida, somos emaranhados numa longa viagem entre ritmos e batidas cheias de psciadelismo, muito por culpa das influências que estes of Montreal vão buscar a bandas consagradas de outros tempos como os Television, os Talking Heads, ou mesmo Patti Smith, a geração da vanguarda nova-iorquina que ilumina Darnes e os seus comparsas. Mas a viagem pela gravação do disco teve início aí mesmo, na cidade que nunca dorme, onde o “refugiado” Kevin Barnes passou duas semanas a transpor para o papel e para a guitarra muitas das suas frustrações e mágoas enquanto homem casado. Se ao primeiro tema de Aureate Gloom escapamos da melancolia e tristeza, em “The Last Rites At The Jane Hotel” temos um bom exemplo do retrato pessoal que o vocalista quis pintar. “Empyrean Abattoir” e “Aluminum Crown” são espelhos de uma sonoridade que facilmente nos provoca um déjà vu musical das tendências musicais já referidas.

Melodias e ritmos variados. Este é sem dúvida um disco onde os riffs de guitarra não são esquecidos, nem a distorção das mesmas, nomeadamente no penúltimo tema, “Chthonian Dirge For Uruk The O”. Mas é com o fechar do disco, com “Like Ashoka’s Inferno Of Memory”, que concluímos que a miscelânea de ritmos e géneros musicais são, de facto, o que caracteriza o último disco da banda norte-americana. Não descuidando, claro, o seu teor lírico, em que o vocalista da banda se olhou ao espelho e fez um exercício de auto-reflexão, dos sentimentos que transpõe para a música. No que diz respeito à gravação e remistura do disco, a banda voou até à cidade mexicana de Juarez e, durante duas semanas, viveu num estúdio no meio do deserto mexicano.

A música, muitas vezes serve-nos  de banda sonora ao nosso dia-a-dia e Aureate Gloom, é sem dúvida, aquele disco que quando nos sentimos melancólicos e a deambular pelos nossos pensamentos, melhor encaixa nos nossos ouvidos. Se estamos num período de reconstrução da nossa vida, ou com aquela sensação de que precisamos de escrever um novo capítulo na história da nossa vivência ou pintar um quadro novo, digamos assim, então este pode ser o disco que nos guia ao longo dessa viagem.