Num solarengo dia de Junho, seguimos à velha cidade do Porto, para nos encontrar-mos com Francisco Silva, frontman dos imensos Old Jerusalem. É pouco depois do lançamento do  mais recente álbum A Rose Is A Rose Is A Rose que se dá esta entrevista. Com a vontade de desvendar esta antiga cidade, cheia de interesse e recantos especiais, a Tracker parte curiosa para esta viagem musical. 

Em jeito de desvendar o mistério, porque o nome Old Jerusalem?

Não há uma explicação muito profunda. Vem de uma canção do Will Oldham assim chamada. O que me interessou mais foi mesmo a mancha gráfica do nome e a ressonância estética das palavras.

Vemos que o número de elementos vai variando desde momentos a solo e colaborações, como preferes trabalhar?

Varia muito mediante o que as canções exigem, mas é muito mais divertido trabalhar com mais gente, o trabalho é mais agradável e não depende tanto de ti o que te deixa mais relaxado. No entanto, trabalhar em banda também tem as suas desvantagens. Há discussões, problemas de agenda, incompatibilidades… Há mais questões inerentes ao trabalho. Balanceando o global, se tivesse mesmo de escolher, escolheria ainda assim trabalhar com mais gente.

Old Jerusalem

Old Jerusalem

É assim mesmo em grupo que nasce o mais recente A Rose Is A Rose Is A Rose, correcto? Há alguma carga conceptual no álbum quanto um todo ou as músicas funcionam individualmente?

Sim, é assim mesmo. As canções são independentes. Não foram criadas para fazerem sentido em conjunto, porém há relações inevitáveis entre elas, como as há com as músicas de outros discos mas são coisas ligeiras. O título do disco é uma linha de um poema bastante antigo da Gertrude Stein, e existem algumas relações bastantes pessoais entre essa linha e todo o resto do disco, mas foi uma coesão da qual me apercebi a posteriori.

 Falando agora da carreira já alargada de Old Jerusalem, há alguma parte que destaques como especialmente fulcral ou importante?

Eu acho que a melhor altura e a parte mais interessante para mim foi o início o que é natural. Porque foi a primeira concretização de uma ideia séria, um investimento, uma tentativa. Nessa altura, houve um grupo de pessoas, como os Alla Pollaca, que se identificavam umas com as outras com as quais desenvolvi uma espécie de comunidade muito agradável. Fomos crescendo de forma pouco mainstream mas bastante independente com a ajuda da Borland, editora indie no Porto. Chegamos mesmo a arranjar um apartamento dividido onde fizeram  um laboratório de fotografia, um pequeno estúdio onde foi gravado um disco dos Alla Pollaca e onde se trabalhava em simbiose entre diferentes áreas.

 Assim, podemos mesmo estar na presença de um espaço de co-working bastante visionário?   

Exactamente, antes dessa moda ou do conceito, era o que estávamos a fazer, a tentar fazer com que aconteça. Uma fase experimental que é sempre interessante. As coisas depois entram na normalidade, já não é aquele entusiasmo juvenil, mas as coisas não deixam de ser interessantes.

 É dessa experiência que em Old Jerusalem, retiras uma música que não se entende como experimental, mas parte de uma experiência e de um método de trabalho diferente?

Sim, nunca quis fazer uma coisa marginal, mas a verdade é que as minhas referencias estéticas e os meios utilizados são bastantes marginais. Não podemos dizer que é ou que não é, é daquelas coisas que não se percebe se é carne se é peixe (risos).

Old Jerusalem

Old Jerusalem

Quanto a essas influencias,  podemos dizer que são um apoio forte no teu trabalho ou tentas ao máximo fugir delas?

Quanto a influencias, nunca me custa dizer que tenho muitas. Sou um grande consumidor de música, e é inevitável que isso entre na tua própria música, não deixa de ser algo pessoal. Por exemplo, eu gosto de bandas como High on Fire, uma banda de Metal, mas não os encontro em Old Jerusalem porque não é algo que eu tenha decidido fazer. Agora, tenho algumas influencias específicas bastante claras de escritores de canções. O jogo entre as influencias, a tua capacidade e a pessoalidade é aquilo que dá o resultado final. A ideia de que os artistas criam algo do nada é uma falácia que foi criada há muito tempo. As coisas marcam-nos, se a nossa música for pura, isso vai transparecer.

Quanto à industria, como é fazer música em Portugal?

É difícil (Risos). E acho que cada vez se tem tornado mais difícil.Ou melhor, é mais fácil fazer o mínimo para garantir por exemplo gravações com alguma qualidade em casa. No entanto, é mais complicado pegar nisso e fazer isso crescer com notoriedade suficiente para te levar a algum lado. Ganhamos cada vez menos dinheiro nos discos e mesmo nos concertos, os cachés têm diminuído o que torna difícil demarcares- te do excesso de informação e fazer uma coisa consistem mais difícil do que há uns tempos.

Ainda assim, aparece muita música nova em Portugal, o que aconselhas a essas bandas?

Não me julgo na capacidade de aconselhar alguém de forma empírica. O único concelho que posso dar é igual à cem anos, e será sempre igual: Sejam mesmo bons. Se fores mesmo bom, mais tarde ou mais cedo, conseguirás o que ambicionas. Ainda assim, são raros esses casos.

Dadas todas as dificuldades, diminuição do retorno especialmente, fez o projecto repensar o seu futuro?

 Acabar nunca pensei, mas o ritmo com que faço as coisas penso muitas vezes. Os timings são diferentes, as coisas têm de ser mais ponderadas.  Não vou gravar um disco quando sei que não terei retorno, até porque a vida se tornou diferente. Nunca perdi dinheiro com os discos, ainda que tenha vendido pouco. Mas tocar num sítio um ano, dois anos depois voltar lá e receber metade deixa-te frustrado e faz-te pensar de novo.

Old Jerusalem

Old Jerusalem

Terminada a viagem, há tempo para reflectir. Numa sociedade que ruma em direcção à subvalorização da cultura, é necessário conservar os pontos fervilhantes. Levamos na mão um asterisco por nós feito, não o tomemos como um ultimato mas sim como um alerta.  É desapontante perceber que numa altura de fácil acesso a muita coisa, haja tanta gente que se recuse a aceder. Esperemos que os pilares destas cidades não se corroam, conservemo-las, temos esse dever.