No último domingo de Setembro, o Sofar Sounds Lisbon apresentou-se no Rio Maravilha, no LX Factory, para mais uma edição carregadinha de surpresas. A 11 de Setembro, os Urso Bardo, Tio Rex e Lucky Who já haviam dado a oportunidade aos mais curiosos com três maravilhosos concertos dados no Clube do Bacalhau. Desta vez, e para celebrar o regresso do evento pós-descanso de Verão, não podíamos ter pedido melhor tarde domingueira.

Já têm obrigação de saber de cor o conceito do Sofar Sounds, mas recordamos os mais esquecidos: cada espaço tem lotação limitada e cada edição conta com três ou quatro concertos distintos, tendo cada um aproximadamente 20/25 minutos de duração. A ideia é que o público confie na programação do Sofar – quanto ao espaço e quanto ao cartaz -, e vá assistir aos espectáculos sem nenhuma ideia, nem sequer a mais discreta pista sobre os artistas que irão actuar, sendo que todos os concertos existem sem fins lucrativos. É segredo absoluto. O próprio local é revelado exclusivamente perto do acontecimento, para que tudo seja o mais inesperado possível… daí que não seja muito indicado aos mais ansiosos.

Deste modo, o público que chegou ao Rio Maravilha ia cheio de incógnitas. Uma ode ao efeito surpresa e um belo hino à música portuguesa em três concertos de géneros diametralmente distintos com os Old Yellow Jack, Keso e Omiri. Esta ninguém esperava! O Rio Maravilha ganhou com o Sofar Sounds e o Sofar ganhou com o Rio Maravilha. Geralmente, os concertos do projecto tendem a ter um público menos numeroso por se enquadrarem em espaços de dimensão mais pequena e tendencialmente não óbvios para o acolhimento de grupos ou artistas musicais. Desta vez, por ser um domingo de sol bem aplaudido pelo Outono lisboeta, muitos foram os que apareceram no bar sem conhecimento de que aconteceriam três concertos do Sofar Sounds e, como é claro, não lhes foi negada entrada. Isto permitiu um mar imenso de pessoas, as que sabiam e as que não sabiam ao que iam, e com isso o Sofar ganhou mais adeptos e o Rio conseguiu um ambiente mirabolante, feliz, cheio de calor humano. Foi maravilhoso, assim mesmo, com todos os públicos e toda a matéria-prima musical, numa celebração de e para a saúde da música.

Num formato acústico, embora com pitada festiva, a tarde abriu as melodias-surpresa com os Old Yellow Jack. Os quatro, Guilherme Almeida, Filipe Collaço, Miguel Costa e Henrique Fonseca, já tinham marcado presença no domínio do Sofar Sounds mas, desta vez, chegaram para apresentar novo álbum, Cut Corners, lançado este mês. O álbum esteve. inclusivamente, à venda para quem quisesse aproveitar. A banda, que esteve presente no Indieota Festaval e no NOS em D’Bandada, actua desde 2011 e tem crescido a olhos vistos. Destacamos a actuação de “Glimmer” que nos manteve absorvidos pelo som e pela incrível prestação do grupo do primeiro ao último segundo, num indie-rock hipnotizante. Realçamos também a faixa homónima do álbum e também “Inner City Sunburns”, músicas que expressam bem a imagem de marca do grupo.

Com sonoridades que formam uma dose legítima de nostalgia, o ‘quarteto de maninhos’ – como eles dizem -, apresentou-se firme e coeso, com o seu tempo de antena encantadoramente preenchido, confirmando um estatuto musical bem marcado, com trejeitos que bebem a várias épocas e com os quais é inevitável recordar os Capitão Fausto embora com menos distorções e com letras cantadas na língua de Sua Majestade com cuidado e qualidade. A química musical entre os quatro membros é bem transparente e isso expressa-se no equilíbrio bem medido e bem afinado que existe em palco. Esperemos que com o tempo só lhes seja possível melhorar e evoluir pois o que até então recebemos já nos satisfaz bastante. A verdade é que a música dos Old Yellow Jack caiu que nem ginjas no Rio Maravilha. A acústica da sala funcionou muito bem e o público redobrou o ânimo com a primeira actuação da tarde que tão bem representou as suas composições abrindo, em todos, o apetite para ir descobrir o álbum inteiro. Vale a pena confiar no mistério se for para assistir ao quarteto ao vivo e depois ainda poder assistir ao pôr-do-sol do alto de um quarto-andar de Alcântara.

Keso (Marco Ferreira), o ‘original marginal’, fez-se acompanhar de Spot, duas vezes campeão português de scratch, e chegaram para ocupar o palco do Sofar Sounds sedento de surpresas e bons sons. Depois de um registo inserido no indie-rock com os Old Yellow Jack, ganhou corpo o rap e a spoken word, batendo mil asas até o tecto do Rio Maravilha e fora dele, também. Estava a postos a segunda actuação da matinée. O álbum Revólver Entre as Flores, para muitos considerado uma obra-prima, e ainda o disco só de instrumentais, Keso’s Epiphanies, ambos de 2012, deram o mote para Keso no panorama da criação nacional. Por outro lado, e pelas próprias intenções de Keso, foi sempre indispensável nunca se ‘vender ao público’ sem critério. O show business e a sociedade de consumo rápido, essas premissas doentes, são um foco claro nas letras. É importante, acima de tudo, que se mantenha fiel aos valores da música, a sua música, e às suas letras e voz, que admiravelmente representam o Porto e o país, podemos afirmar. Fomos sempre atentos ao que recebemos.

Abriu assim a arena, tímido que é, segundo o que nos disse, com um poema de Torga. Deu-nos ainda samples de Agostinho da Silva, em minutos que voaram e que deixaram vontade de mais. Com a pronúncia da Invicta na ponta da língua, Keso actuou também no NOS em D’Bandada e no Festival Iminente, oferecendo leitura de crítica social e política, em que a carapuça, para o bem e para o mal, serviu a muitos e em várias ocasiões. Pelas suas mãos cria-se música e palavra num mundo que é seu, que é íntimo e privado, mas que tem terra para que outras pessoas se identifiquem embora, em termos de produção musical, o seu som e modus operandi nos pareçam ímpares. Keso é bastante suis generis nas suas apostas musicais e isso só o engrandece. Apresentou-nos KSX2016, o seu último trabalho, lançado em Maio, e foi ao som dessas faixas que pusemos a mão na consciência e que o coração abriu por completo. Recordamos ainda Raios Te Partam, de 2003.

Pediu ainda desculpa pela linguagem explícita, pois não sabia se havia crianças na plateia, e lá continuava a sua demanda de passar os beats e as sentenças mais assanhadas. Contudo, as desculpas devem pedir-se pelas más acções, e Keso não errou nunca. Deixava-nos a querer entoar os seus refrões, sempre pautados por samples e melodias fora do comum, e ia conversando com a multidão, onde a sala já aquecia a enorme velocidade. Disse-nos querer ser como Luiz Pacheco, escritor do livro “Comunidade” de 1964, que muito aprecia e segue, numa autêntica lição de poesia, antropologia e amor. Prendados pela sua música-manifesto (que melhor forma de manifestação?) Keso, com sorriso na boca e olhos cheios de brilho, lá comentava que a sua música não passava em lado nenhum – e os ouvintes perdem, claramente, com essa situação -, mas estabelece-se, de certa maneira, uma espécie de escudo protector que só desvenda a matéria de Keso a quem ousa procurar e seguir as suas obras.

Foi com “BruceGrove”, “Defeito Sério” ou “Underground”, faixas fundamentais do último disco, que Keso marcou uma presença inesquecível nas sessões do Sofar Sounds. Ainda com “Gente e Pedra”, em todo o lado a mesma merda, só gente e pedra, a sua voz expandia pelo Rio Maravilhoso, contando e cantando as adversidades humanas, as modificações nos vários graus sociais portugueses, sintomas mais vivos sobretudo nos últimos anos com a tão falada Troika, a crise de valores, os maus políticos, as más políticas, o dinheiro e a falta dele, a urgência de emigrar, a saudade de regressar e um infinito de acções que ao mundo inteiro dizem respeito, mesmo na onda da conduta humana e dos defeitos que só vivem nos indivíduos e em mais lado nenhum. Com “Defeito Sério”, Keso falou da sua passagem por Londres, narrando as dificuldades que encontrou, ossos do ofício, bem amargos, de todos os que têm de deixar a terra natal em busca de algum sustento. Em “BruceGrove”, um dos pontos altos da sua actuação, arrepiávamo-nos quando Keso dizia alto e bom som: se me vês a acenar a mano, diz ao meu pai que eu o amo, diz à minha mãe que eu a amo, se me vês a acenar a mano, diz ao Porto que eu o amo, diz ao meu país que eu o amo. “Bruce Grove” é o nome de uma estação de comboios em Londres, uma das mais movimentadas, e há ainda uma menção ao CCTV (closed-circuit television) para repetir que nunca é suficiente, que estamos constantemente vigiados, auscultados e perseguidos.

Dois álbuns mais tarde e, agora, com KSX2016, Keso tem tudo para estar consagrado, se for isso que desejar e almejar. Da nossa parte, é sempre um prazer ouvir e ver algo desta envergadura ao vivo. É preciso que alguém nos recorde que estamos vivos e que podemos dizer e agir de determinada maneira. O rap e o hip hop nacionais agradecem e todas as suas referências, as pessoais e as que transmite ao público, valem por uma semana, ou mais, de escola. De uma imensa criatividade, com pitada de jazz e com a electrónica sempre apurada, Keso e Dj Spot foram incomensuráveis. Um enorme aplauso a esta actuação e outro igualmente grande ao disco KSX2016, obra máxima da sua assinatura e testemunho de tudo o que é feito com gosto e com a alma nas mãos.

A terceira e última actuação do Sofar Sounds ficou à responsabilidade de Vasco Ribeiro Casais, aka Omiri. Este apresentou-nos logo um bonito rosto numa tela atrás de si, onde vários rostos e imagens captadas em vídeo por Tiago Pereira, realizador e fundador do projecto “A Música Portuguesa A Gostar dela Própria”, foram exibidas. Omiri, coleccionador de samples desses mesmos vídeos com o propósito feliz de divulgar a sagrada e, por vezes em vias de extinção, música popular, trazendo-a para os meios urbanísticos e extra-modernos, uniu sons de várias origens e, com essa diversidade, acompanha-os ao vivo, actuando como um verdadeiro one-man-band. Foi este o fresco movimento, bem vivo e aceso, que tivemos o privilégio de poder assistir num passado domingo quentinho, procurando uma harmonia entre o som e o vídeo, o rural e o urbano, o tradicional/acústico e o electrónico/experimental. Um cocktail em tudo heterogéneo e a garantia de que aquilo que por vezes julgamos obsoleto pode renascer e ganhar vitalidade mais firme.

Omiri @ Rio Maravilha, Sofar Sounds

Vasco Casais ofereceu-nos um belo banquete e disse ser impressionante ver tantas pessoas ali para assistir a bandas que não sabiam quais eram, e este é, sem dúvida, um dos pontos altos do Sofar Sounds, se é que não é mesmo o ponto central do conceito. Nós também não temos resposta, mas gostamos que assim seja. Omiri, que desde 2007 nos faz a todos saltar do chão, levantando a poeira e o que estiver nos pés, apareceu nesta edição do Sofar como uma feliz aparição, dando a muitos membros da plateia a possibilidade de conhecer a magia das suas actuações ao vivo. O músico integra a banda Dazkarieh desde 1999, sempre na onda mexida do neo-folk e do rock alternativo, considerando-se um marco dentro do género difundido no país e com este projecto adquiriu um mundo ainda mais profundo de sonoridades e ideias férteis.

Sem jamais perder a sua esbelta Nyckelharpa, o instrumento sueco que mais nos atraiu para o seu som e forma de tocar, a sua gaita-de-foles, braguesa, bouzouki português e cavaquinho, Vasco não parou de nos surpreender, reinventando a tradição portuguesa no seu melhor, acompanhado do seu Mac, instrumento quase futurista que ia passando os vídeos dos grupos corais, ranchos folclóricos, solistas e ainda dos seus mil e um instrumentos, que quase são parte do seu corpo e existência ou, pelo menos, assim pareceu. O músico apelou constantemente à interacção do público, para que este pudesse navegar nos mares de harmonias que encontrámos em vídeo.

A faixa “Corridinho” marcou o passo de todos nós, dingue dingue dingue dá-lhe dá-lhe dá, dingue dingue dingue dá-lhe dá-lhe dô, e foi o refrão que levámos para casa com a urgente ânsia de explorar mais a arte de Vasco. Disse-nos sempre que a tradição é um instrumento vivo e que pode, a qualquer altura, ser trazida para a cidade e para espaços e tempos que imagináramos incompatíveis. Cantar com as velhinhas, palavras que repetiu e que vemos também presentes no plano do projecto de Tiago Pereira, bem como em todos os projectos que nasceram dessa ideia inicial, acaba por funcionar como a premissa mais bem-disposta e bonita de tudo, e assim ninguém se chateia, muito pelo contrário. Uns belos remixes, com vários séculos de história, e vários capítulos também, e a sincronia de sons e vozes tão díspares entre si que quase custa a crer que seja tudo massa de um só país.

Este milkshake de sonoridades, desde corridinhos, a malhões e a danças tradicionais, muitas vezes partilhados com batidas electrónicas, ficam banhados pelas mãos maravilhosas de Vasco e o seu perfeito projecto, capaz que é de dar vida aos mais raros instrumentos de cordas, fechando mais uma vez, em grande, um dia de Sofar Sounds que, já entendemos, serão sempre desfechos felizes.