Às vezes, é difícil saber se se deve bendizer um concerto ter pouco público pela proximidade que possibilita entre público e artista(s), ou se se deve lamentar ter falta de público, pelo risco de arrefecer os ânimos do(s) artista(s). Há poucos dias, aquele dilema veio à tona da consciência na Casa Independente, que acolheu mais uma trovadora folk – a canadiana Ora Cogan, a solo -, no salão com poucas pessoas no dia 14 (sábado de um fim de semana saturado por apelativas ofertas em Lisboa). Mas Ora reagiu com brioso profissionalismo e não decepcionou, parecendo grata às poucas almas que a escolheram, entre muitas opções.

Conversa (quase) em família

Envergando um traje rural (de longo vestido escuro de verão coberto por um cardigan também escuro), a canadiana iniciou a sua actuação caminhando pelo álbum de 2013, Ribbon Vine, do qual interpretou “Waterbound” que imediatamente confirmou que o concerto seria para repor energias (não para despendê-las) e confirmou também a qualidade da voz de Ora, realçada pelo som muito nítido facilitado pela boa acústica do desafogado salão da Casa Independentes. Enquanto algumas pessoas levavam sofás e cadeiras da traseira do salão para as proximidades do palco quase fechando a plateia, Ora anunciou que ia tocar uma versão de uma falecida cantora favorita. “É uma das últimas canções que Lhasa de Sela gravou e estava a tocar no bar, o que deve ser um bom sinal” justicou – o que mereceu agradecidas palmas -, e tributou “Is There Anything Wrong” à finada Lhasa, logicamente longe do timbre assombroso dela e coerentemente antes de “Ground And Grave”, o single de abertura de Shadowland de 2015, antecedida de um atencioso “Como estão? Com disposição de sábado à noite? Relaxados?” Foi sensível a diferença para a versão de estúdio, porque ao vivo Ora soou mais rústica, mais folk, mais emocionada, o que enriqueceu a interpretação.

 

Num tom crescentemente confessional, eloquentemente adaptado ao cenário quase familiar, a canadiana recuou ao álbum Harbouring de 2008 para cantar “uma canção sobre mulheres dos bosques, indomáveis. Uma amiga um dia exclamou ‘Que se lixe tudo!’, foi para o mato, construiu uma cabana e virou uma selvagem e eu escrevi isto para ela.” Foi o momento de “You’re Not Free” e de evidenciar que as substanciais letras de Ora ostentam a verdade de vidas reais e de uma artista que se interessa pelas outras pessoas. E a toada reflexiva foi esticada para a canção seguinte que Ora sugeriu ser autobiográfica, “My Belle” do mesmo disco, enquanto “canção antiga sobre as desventuras de uma mulher na casa dos vinte”.

Agradou, mas acabou precocemente

Com a interpretação de “Move”, o EP Crystallize, editado e reeditado em 2015, foi finalmente incluído no concerto, tendo os agudos de Ora soado ainda mais doces e delicados que na versão de estúdio. A adaptação da versão com banda e bateria para aquela versão só de cordas desnudou a encantadora voz da canadiana, além do carisma de ela estar ao vivo no salão com a mesma descontracção com que, entre canções, gracejou “Só uma gota de chá, que na verdade é whiskey”, semeando risadas na plateia. Porém, o bom humor passou rapidamente a seriedade: “Conhecem Buffy Saint-Marie? É uma das minhas cantoras favoritas; tem letras muito políticas, usava a música para falar de assuntos relevantes; e esta é uma das suas letras mais políticas”. E enquanto Ora interpretou a sua tributária versão de “Disinformation”, gravada para Shadowland, num dos sofás uma jovem da plateia literalmente olhava para dentro. Momento memorável do espectáculo por ser evidência de que Ora estava a realizar o objectivo de nos fazer sentir mellow como nos perguntou no início do concerto.

Muito aguardada era a também versão de “Katie Cruel”, um clássico da folk anglo-saxónica, muito menos intensa que a de Karen Dalton, mas bem recebida pelo público. E com menos que 40 minutos de concerto, Ora saiu precocemente do palco, surpreendendo quem sabe que ela tem repertório para mais e que por isso não hesitou em pedir encore. A canadiana ainda voltou ao palco, mas só para recordar que tem os discos à venda na internet e cantar “Cool” de Shadowland, simpaticamente referenciada como “uma canção sobre pessoas apaixonadas”, sempre se dirigindo ao público tão docemente como canta e cantando docemente como fala.

Terminado o concerto, emergiu uma dissonância cognitiva porque mesmo supondo o desconforto de Ora, por sentir falta de público, a verdade é que Ora se entregou à plateia que a escolheu e por isso plantou o desejo de que o concerto durasse mais 15 ou 30 minutos. Esperemos que aquela bela voz possa voltar, eventualmente numa calma noite de meio de semana mais adequada à bucólica música da canadiana e que facilite a presença de mais público para um momento mais caloroso.

A fotogaleria de Pedro Gomes Almeida:

Ora Cogan @ Casa Independente