Um ano após terem editado A Viagem dos Capitães da Areia a Bordo do Apolo 70 e um dia antes de comemorarem sete anos de existência, Os Capitães da Areia subiram pela primeira vez ao palco do Centro Cultural de Belém para uma noite de celebração. O seu segundo disco atingiu proporções sem precedentes em Portugal ao ter um vasto leque de convidados, desde artistas consagrados (Lena D’Água, Rui Pregal da Cunha, Toy), até aos da nova vaga musical portuguesa (Capitão Fausto, Tiago Bettencourt, Samuel Úria), permitindo-lhes afirmar-se como uma banda a ter em conta. Por esse mesmo motivo, era mais do que justificável a grande enchente que se fez sentir na sala do Pequeno Auditório, composta até às laterais.

Dez minutos passados das nove da noite, os Capitães subiram ao palco todos vestidos de branco e a rigor (afinal, foram astronautas no último álbum), para se juntarem aos seus instrumentos e iniciarem os primeiros acordes de “A Partida Para O Espaço” acompanhados por uma apropriada projecção de uma descolagem para o espaço. Pouco depois, Pedro de Tróia aparece em palco com um ‘instrumento’ no mínimo peculiar – uma raquete de ténis – e solta as primeiras palavras da música. Seguiram-se “Beijos Espaciais” e “Nasci Para Enriquecer” e tornava-se cada vez mais palpável o receio e a pressão de actuar num palco tão ilustre como o do Centro Cultural de Belém, o que os tornou demasiado rígidos, dentro das suas próprias bolhas, e não tão soltos como actuações passadas nos têm vindo a habituar.

Um provável factor para este nervosismo: a música d’Os Capitães da Areia não é a mais adequada para ser tocada para um auditório cheio de gente sentada. Para piorar a situação, o público revelou-se tímido e, apesar de umas palmas aqui e acolá, apenas se rendeu e deixou-se de cerimónias na já habitual versão da “Sempre Que O Amor Me Quiser” de Lena D’Água. Aqui, o Capitão Tróia orquestrou os presentes para que mostrassem os seus dotes vocais nesta música e os coros que vieram da plateia funcionaram como um estimulante para a banda, que perdeu a ‘timidez’ e passou a comandar toda a sala. “No Tempo das Sereias”, o single mais recente e que contou com a projecção do vídeo, as palmas do público alcançaram o seu maior nível de intensidade até ao momento, assim como alguns firmes trauteares vindos especialmente das laterais. Demorou, mas o público já estava a dar sinais de vida.

A partir daí, bem, a festa foi imensa. “Bailamos no Teu Microondas” marcou o momento em que mais de metade da sala se deixou de rodeios e se levantou das cadeiras, começando a dançar e aos saltos nas laterais. “Já que o público está na palma da minha mão, porque não aproveitar?” deve ter pensado Pedro de Tróia, propondo à plateia que se fizesse um comboio pela sala… e assim aconteceu. A festa instalou-se no Pequeno Auditório, tanto dentro como fora do palco, culminando em “Dezassete Anos” durante o qual os mais aventureiros do comboio tiveram a oportunidade de subir ao palco enquanto se entoava bem alto por toda a sala os “papaparara” daquela que é, provavelmente, a música mais conhecida d’Os Capitães da Areia. Apesar dos jovens que dançavam e batiam palmas ao lado de Pedro Tróia, Inês Franco, Tiago Brito, António Moura e a mais recente aquisição do grupo Tomás Gonçalves, terem sido expulsos pelo chefe da sala, ninguém os calava ou parava; estava instalada a diversão pelo recinto, avistando-se muito poucos ainda nas cadeiras.

Já na reta final, “Menina Bonita do Cinema” não deixou a festa morrer e muitos eram aqueles que já estavam colados ao palco, de mãos dadas no ar para o clássico ‘ora para a esquerda, ora para a direita’ enquanto cantavam e aplaudiam o convidado surpresa da noite: o pequeno petiz que protagoniza o vídeo de “No Tempo das Sereias” subiu a palco para cantar e dançar um pouco ao lado da banda que o tornou famoso e para os fãs que o elogiavam por ser “tão querido e fofinho!“. Para o encore, “Arco das Portas do Mar” retomou o festival de palmas e saltos (desta vez, por toda a sala) que se instalou naquela noite e que terminou com chave de ouro através de um reprisal de “A Partida Para o Espaço”, tocado de forma solta e sem despreocupações através de um antibiose de entrega tanto da parte da bando como do público, que deixou este último a repetir em coro a sua forte frase “quero pão com marmelada” mesmo após o final do concerto e das luzes do Centro Cultural de Belém se terem acendido.

Mesmo tendo um início um tanto para o engasgado, Os Capitães da Areia assinalaram um concerto sublime e mais do que apropriado para a celebração dos seus sete anos de existência, beneficiando do facto de terem apresentado um reportório que equilibrou bem os temas dos seus dois discos, O Verão Eterno d’Os Capitães da Areia e A Viagem dos Capitães da Areia a Bordo do Apolo 70. Antes do término da noite, Pedro de Tróia informou que, lá fora, “vamos estar a vender os discos, portanto as contribuições são bem-vindas para ajudarem a construção do terceiro disco“. À saída da sala, a banca do merchandising estava cheia, citando assim o óbvio: no que depender do público, a banda estará para durar.

Os Capitães da Areia @ CCB