São Valentim pode ou não ter existido, pode ou não ter sido mais que apenas uma personagem na história – rezam algumas teorias que de três histórias diferentes de três homens diferentes se faz a “verdadeira” lenda do santo Valentim. E apesar de ter sido já despachado do calendário das festividades pela igreja católica, o facto é que uma datas mais festejadas um pouco por todo o lado. Ou seja, apesar de nem provas de ter realmente existido e do dia de São Valentim já não existir desde 1969, o que interessa é a festa em si numa civilização já mais que habituada a celebrar figuras mais ou menos fictícias.

Num dia São Valentim, como qualquer em outro dia de São Valentim, o amor desfila-se, os casais desfilam-se, as juras de amor reafirmam-se e o mundo pula e avança sabe-se lá para onde. Já lá dizia aquele poeta que o amor é fogo que arde sem se ver, mas a opção nesta noite de São Valentim não é como em qualquer outra noite de São Valentim e o amor que arde é distinto, o amor que arde vê-se e avança para um espelho de dois rostos, dois tempos, dois fogos de tempos e viagens separadas por uma fina janela de manipulação dos sentidos, entre o semi-fechada e o semi-escancarada.

Josephine Foster esteve novamente em Lisboa depois de uma última passagem pelo Teatro Maria Matos, em Abril de 2016. Na altura, a norte-americana vinha com No More Lamps In The Morning ainda a iluminar de chama plena um caminho que tinha começado em Fevereiro, na companhia da guitarra portuguesa do seu marido Victor Herrero e do violoncelo da ex-múm, Gyða Valtýsdóttir. Hoje vem sozinha, como um espectro perdido no tempo, como uma voz que sopra por entre a chama de um candeeiro a petróleo que se acende e apaga noites a fora sem mão humana. Sozinha mas não muito, Foster divide a noite com Ka Baird, monstro primordial da experimentação, da ritualização electrónica e aglomeradora de pontos no tempo passado num ponto superior no futuro.

Com apenas um disco em nome próprio a servir de passaporte do convite de Josephine Foster para entrar nas datas da tour portuguesa – o álbum Sapropelic Pycnic –, Baird conduz com a mestria de muito palco e muito estúdio um ritual cyber-primitivo de reinvenção do fogo pelo fogo. Transplantada para o palco a capacidade de abraçar pelas labaredas tanto a música tradicional como embalos sinfónicos classicistas, sentidos como passagens de estações do ano em estações do ano ou de era em era, a vida dupla da electrónica perfeitamente orgânica de Kathleen – sempre enquanto elemento brutalizante mas psicadélico -, fica do lado de lá do espelho, um local onde tudo se sente melhor com o segundo chacra.

Ao longo de um set visceral, Kathleen Baird vai retirando peças da linha do tempo para as moldar em algo indefinido. Baird não é um bardo mas um bravo guerreiro; não é uma criatura do futuro mas uma caminhante das dobras das eras. Não nasceu em tempo algum, não existiu em tempo algum mas continua a assistir de corpo presente à passagem de tudo. Tentar encontrar palavras e termos para a experiência post-vida que é um espectáculo de uma das fundadora das Spires That In the Sunset Rise – o agora duo de avant-folk psicadélico experimental -, é tarefa de gigantes, daqueles que em tempos caminharam sobre a Terra.

A condução pelas esquinas das história é feita num vai e vem vibracional de um diapasão desalinhado com os livros. Baird passa de forma solene pelo canto lírico, passa de forma pagã pelos cantares étnicos, é antropóloga especializada em rituais primitivos de sangue, estudados de forma industrial e desconstrutiva através de uma flauta transversal, de um teclado e de um pequeno colectivo de pedais, operários demolidores e recondutores da sabedoria xamânica de Ka.

Atravessa-se o espelho para encontrar Josephine. Miss Foster entra e arruma os instrumentos de forma nervosa. As luzes nunca se vão, deixando Foster escondida ao fundo do palco exposta aos elementos que atravessam as frestas mal escondidas do mundo lá fora e do lado de lá do espelho. Os dedos espalham pó dissonante sobre as cordas de uma harpa de colo. A voz foge-lhe como só a ela sabe fugir e plana sobre canções para ouvir junto a um forno de pedra numa casa de pedra numa planície protegida por montanhas de pedra, com o espírito de Lou Reed vestido de noite e cigarros de palha e a energia de Vashti Bunyan em plena viagem astral a espreitar pela janela.

Josephine não se encontra em Lisboa: encontra-se em livros de poemas que musica durante a noite distante da cidade e das gentes, rodeada das crianças mortas atentas a si que apenas ela observa em seu redor através de um espelho com camadas de ferrugem e idade acumuladas. Ela sorri para as histórias que conta, para os meninos que são só dela, durante as canções que levitam de instrumento em instrumento, durante os poemas que escolhe para encantar uma noite em que os coiotes divinos não desceram para a ouvir, para ouvir poemas como “Kublak Khan” de Samuel Taylor Coleridge ou “The Ballad of the Hardweaver” de Edna St. Vincent Millay.

Josephine Foster é, tal como Ka, uma personagem que vive deslocada nas dobras do tempo. A experiência de estar presente a um ser que não se sabe localizar com precisão de olhos abertos, é sempre um momento de uma estranha alegria. Mas apesar de carregada do pó de sempre, carregada de outras paisagens e de outras esferas temporais do mundo, Josephine sentiu o seu fogo crepitar com dificuldade durante uma curta noite em que se sentiu mais confortável de costas para a cidade sentada ao piano. Porque nem sempre queimam forte os toros de madeira nos dois lados do espelho. Bonito, mas volátil.