Se era preciso mais alguma prova de que a arte surge como reflexo do meio que o artista “absorve”, aqui está ela. Forjados nos invernos rigorosos da Suécia, os Immanu El transpõem para música as gélidas paisagens escandinavas, contrastando as mesmas com o calor das vozes que sussurram canções profundamente humanas.

Mas os Immanu El já não são propriamente um colectivo recente. Formados em 2004 a partir de um projecto experimental de Claes Strängberg (na altura com apenas dezasseis anos), ao qual se juntou o seu irmão gémeo Per assim como os amigos David Lillberg e Jonatan Josefsson, o quarteto de Ionecopinga, no sul da península escandinava, foi ganhando reconhecimento a nível internacional graças a presenças em festivais, desde o infame SXSW, em Austin, no Texas, até ao Strawberry Festival em Xangai e Pequim, assim como em mais de 300 concertos em 30 países após o lançamento o seu primeiro álbum em 2008.

Desde a edição de In Passage em 2011, que o grupo andou em constante digressão, ao mesmo tempo que travava uma batalha judicial contra o Estado sueco que os ocupou durante dois anos (as informações sobre a queixa são muito poucas mas a banda foi considerada inocente ao fim de um par de julgamentos). Após esta experiência potencialmente traumática, era altura de voltar à música. Para isso, contrataram a ajuda do produtor Johan Eckeborn e, na passada primavera, deslocaram-se até Florença, Itália, para tornar perpétuas as ideias que tinham esboçado.

O resultado foi Hibernation, o quarto longa-duração da banda, editado no fim do passado Novembro. Com mais tempo e cuidado dispensado na produção do que em trabalhos anteriores, o álbum é uma obra complexa e de nuances discretas que se vai revelando à medida que lhe dedicamos tempo de audição. As referências não são difíceis de encontrar: recorrendo à gíria frequentemente usada em meio musical, é como se os Mogwai e Sigur Rós tivessem um filho, cuja parteira seriam os Beach House.

“Voices”, o primeiro single retirado do disco, é um bom exemplo disso: espaço e eco com fartura, melancolia tecida nas teclas e guitarras atmosféricas formam o suporte em que é construído um épico digno de qualquer grande banda de post-rock surgida nos últimos anos. Não andam por um caminho longe dos “nossos” First Breath After Coma, por exemplo. Mas o que distingue verdadeiramente os Immanu El dos seus pares é, sem dúvida, o foco na canção e no seu poder catártico:

Through the winter night
in my darkest hour
you glow
you glow in the darkness
both my hands are numb
and my heart is frozen
you burn
you burn like a fire

Claes Strängberg, fundador e principal força criativa da banda, conta-nos a inspiração por trás deste tema, que surgiu acompanhado do primeiro vídeo da banda – realizado por Jeff Penilla, com base na sua curta-metragem The Earth The Way I Left It:

When writing the song “Voices” I recalled a story a good friend of mine told me once,he had this dream every night, over and over again where angels came to him and sang for him all night long. He was so puzzled because of that dream that he couldn’t concentrate anymore on his studies during daytime, and so he had no other choice than to tell the angels one night that they should leave him alone. He never had that dream again. Not sure if he was just inventing this story, but it somehow impressed me.

Mas nem tudo é escuridão e melancolia neste Hibernation. Entre os drones eletrónicos e horizontes glaciais, a luz encontra sempre caminho para entrar, e aqui, fá-lo por “Omega” que, plantado a meio do disco, apela à superação emocional partindo de destroços amorosos. O ritmo é aligeirado, as guitarras recebem destaque e a voz supera finalmente o murmúrio, naquele que é o tema que mais evidencia as tendências para a pop sonhadora do quarteto.

 

Com anos de estrada e grandes obstáculos no retrovisor, os Immanu El têm finalmente o caminho livre. Com este Hibernation, mostram que o futuro é mais claro que nunca, e, se assim continuarem, chegará certamente a hora do reconhecimento mais alargado. Fiquem atentos.