Quando se fala em relações a dois, é comum surgir no debate a qualificação da rotina como raiz de problemas. O que no início é belo, espontâneo e emocionante revela-se aborrecido quando submetido a repetição infinita. E é assim com tudo. Colocou-o melhor em palavras o Padre António Vieira: “Não há coisa tão preciosa, e tão útil, que continuada não enfade”.

No meio musical, outra máxima frequentemente repetida é a de que “uma banda é como um casamento”. Pontos de contacto não faltarão, e o supramencionado será talvez o mais evidente (perguntem a qualquer banda separada por conflitos internos). Ora, o matrimónio a quatro dos PAUS sempre foi bastante “aberto”, tanto pelo meio das influências variadas que convergem na mistura turbulenta que é o som da banda, como pela concretização de colaborações com outros músicos, mais ao vivo do que em disco. Finalmente de regresso, o ciclo de concertos Só Desta Vez é o epítome disso.

Para além da oportunidade de experimentação interdisciplinar – musicalmente falando –, o Só Desta Vez permite uma quebra com a tal repetição: o circuito disco-concerto-disco ad infinitum. A ideia surgiu há cerca de 6 anos, altura em que os PAUS puderam contar com guitarristas, DJs, bombos e até um baterista extra em três concertos diferentes. Chegada agora a 4ª edição – já estão mais duas marcadas –, foi a vez de João Cabrita se juntar ao quarteto. Membro dos Cais Sodré Funk Connection e Cacique ’97, conhecido também pelo trabalho recente com os Dead Combo e The Legendary Tigerman, entre outros, João veio reforçar a candidatura a saxofone mais rock n’roll do país. Mas não veio sozinho: a acompanhar vieram Jorge Ribeiro e Miguel Marques nos trombones, para além de Gonçalo Prazeres no saxofone barítono, e com eles o quarteto entrelaçou-se sem esforço aparente na enorme parede de som da banda anfitriã.

Paus SÓ DESTA VEZ IV @ Lux Frágil, Lisboa

Na malha cozida pelos 8 elementos, foram sempre evidentes duas cores, não pela separação dos músicos, mas sim devido à maneira como o ponto médio entre as duas forças era descoberto. No “Fumo”, lá para o meio do set, os sopros levitaram a melodia como quem tira a gravidade a duas ou três gotas de água, o que em retrospetiva faz todo o sentido, não fosse este um tema onde as vozes se destacam como em poucos dos PAUS. Graças aos convidados, o groove de “Malhão” ganhou várias ordens de magnitude e o convite à dança estendeu-se a “Era Matá-lo”, gerando um conflito peculiar entre a hostilidade da lírica e o clima de celebração que, de resto, se sentiu ao longo de toda a noite – houve até tempo para cantar os parabéns a Hélio Morais.

Noutras ocasiões, o destaque foi mesmo parar às mãos de João Cabrita e companhia. Na praia banhada a sintetizador e vislumbrada brevemente em “Mudo e Surdo” resgatado ao EP É Uma Água, os 4 cavaleiros sopravam sem acanho no fundo do palco, conjurando todo o drama e teatralidade que se podia pedir de uma formação assim, antes de mergulharem de cabeça (agora os 8) num dos momentos mais intensos de toda a atuação.

Porém, o factor constante nesta noite – e quem os conhece já sabe “o que a casa gasta” –  foi, invariavelmente, o apelo primitivo dos PAUS, muito graças – mas não só -, à bateria siamesa. Isso ficou claro desde o início com a marcha imperial de “Primeira” a estremecer o chão como um batalhão que anuncia a chegada (aqui não há que ter medo), mas o verdadeiro portento dos PAUS demorou a revelar-se, só atingindo o pleno potencial no medley incendiário de “Deixa-me Ser” e “Mo People”. Por esta altura, já o público estava mais que rendido (para além de fisicamente “solto”), o que puxou um encore “Pelo Pulso” absolutamente demolidor; foram PAUS em estado de graça, provavelmente na melhor forma em que já os vimos.

Nesta noite, os PAUS provaram mais uma vez que são uma banda feita para os palcos, na qual o chamamento da percussão aliado ao baixo “gordo” melhor ecoa nos corpos e as melodias de sintetizador e guitarra serpenteiam pela mente. O facto de receberem tão bem outros músicos com a sua própria “bagagem”, só dá mais força à noção de quão bons são como instrumentistas. As próximas “experiências” já têm data – 27 de abril e 29 de junho. Depois desta, só se pode chorar por mais.

Paus SÓ DESTA VEZ IV @ Lux Frágil, Lisboa