Porque a história se vai efectivamente repetindo e os movimentos revivalistas vão e vêm ao sabor da evolução natural das coisas, escolhendo aparentemente de forma aleatória o foco numa década ou outra à vez, os astros têm nos últimos anos conjurado para que numa contemporaneidade complementar ao psicadelismo dos 70s nas esferas mais alinhadas com o rock – mas não só -, se tenha vindo a assistir a uma electrónica cada vez mais embriagada pelas tempestades vaporosas trazidas por castelos de synths, daqueles synths inconfundíveis que musicaram tanto dos anos 80, com camadas que penetram na sua malha mais intrincada e cujas teias melódicas vão buscar o combustível primordial a essa mesma matéria plástica, quase robótica, e a uma artificialidade sonora que tem criado as condições atmosféricas perfeitas para o regresso de alguns sub-géneros já bastante desgastados, pelo tempo e pela memória.

Estávamos em finais da década de 90 quando algumas bandas mais afectas ao electro e seminalmente de raiz europeia mas com tentáculos também extensíveis à costa leste dos Estados Unidos, abriam os baús selados há mais de 15 anos e iam buscar referências ao new wave e ao synthpop do início dos 80s, aplicando as fórmulas que resultaram para os Pet Shop Boys, os Depeche Mode, Gary Numan ou para os Visage, às esferas mais house, não só no respeita à construção sonora, mas também em termos visuais, tendo estes novos projectos uma indissociável componente performativa que envolvia particularmente, e para além de outros elementos, sempre bastantes bailarinos em palco.

Os nova-iorquinos Fischerspooner, um dos pais desse movimento derivado das ambiências mais dançáveis e profundamente enraizadas nos 80s a que se deu o nome de electroclash, andavam arredados dos radares mediáticos desde que editaram em 2009 o álbum Entertainment, isto numa altura que o género sofria já de forma irremediável e irreversível um desgaste que forçava uma trajectória descendente desde meados de 2004. Mas porque a vida tem destas coisas e a década de 80 têm assentado arraiais nas chavetas mais synthpop, tanto nas formações mais populares como nas mais obscuras, a banda regressa agora em 2017 com “Have Fun Tonight”, um tema composto em parceira com Michael Stipe dos R.E.M. e que abre caminho para SIR, o primeiro disco em 8 anos dos Fischerspooner.

E parece que nada mudou. Os sintetizadores continuam elásticos e sombrios, as beats sibilantes e dançáveis, as linhas de voz mergulhadas em eco, embora venha tudo muito bem acondicionado num embrulho inequivocamente 10s. SIR será o quarto longa-duração dos norte-americanos e tem data de edição marcada para 22 de setembro pela Ultra Records. “Have Fun Tonight” com os Fischerspooner.