Não, não é todos os dias que podemos sair à noite de chinelos. Não, não é todos os dias que temos o privilégio de não nos conseguirmos mexer no Musicbox. Não, não é todos os dias que temos os Woods a tocar o último gig da sua tour numa esquina do Cais do Sodré. Parece que, apesar de tudo, a vida ainda nos sorri de quando em vez.

E de sorrisos ansiosos está a casa cheia; sejam eles de adolescentes, adultos ou “cotas”, o calor norte-americano faz-se sentir tanto em raves como em agradáveis lares familiares. Com uma demora tradicionalmente rock n’roller, lá entram os cinco rapazes, prontos para nos embalar numa atmosfera tropical de uma hora e um quarto.

O deslizamento suave entre folk, reagge e psych é um confortável arquétipo construído sobre a pedra filosofal deste grupo, que é a voz brilhantemente melancólica de Jeremy Earl. Nesta simplicidade casam-se guitarras – ora acústicas, ora eléctricas -, slides, harmónicas, pianos, baixos e baterias, que se vão metamorfoseando à medida que o tempo passa. Com um novo álbum prestes a estrear – Love is Love -, o conjunto utilizou este espectáculo para nos lembrar que já anda nestas andanças há muitos anos. Foram sacadas relíquias dos diferentes baús, desde “City Sun Eater in the River of Light” a “At Echo Lake” (este último ainda do tempo de Kevin Morby.)

Se as primeiras músicas foram pautadas pela serenidade de uma guitarra acústica com os travos elétricos de Jarvis Taveniere, não demorou a troca para um kit eléctrico total com o arranque da tribal “Sun City Creeps”. Damos por nós num quarto escuro onde o termóstato se desregula por completo. Se a percussão é tórrida e abafada, as pitadas harmoniosas e psicadélicas de guitarra trazem uma frescura gélida, assim como a voz bem briosa de Earl, agora desinibida. O atrevimento de Taveniere rompe com a 4ª parede numa explosão deliciosa, que serviu para mostrar aos mais desconfiados que as canções rock alinhavadas a guitarras estão bem vivas com uma jam de uns bons 10 minutos. Importante referir o papel impiedoso do baixo de Chuck Van Dyck – com uma postura e imagem muito Roger Waters, versão asiática –, que não proferiu uma palavra durante a noite, mas apenas olhares profundos e diretos na cara do público.

Entramos noutra maré acústica, pintada por cores amenas e camponesas, com slides e harmónicas, retirados dos álbuns mais antigos. A paisagem é de um campo de cereais com uma casota bem lá no fundo e o fazendeiro de idade balançando na sua cadeira com a sua guitarra de 10 mil anos. Sim, talvez seja Neil Young que lá balança. Quem quer que seja, a voz omnipresente de Earl transmite uma tranquilidade imensa, embrulhada nos seus característicos falsettos e movimentos de anca ao ritmo impenetrável de Aaron Neveu.

This is the last show of our tour, and we’re gonna stay here a few days. So, if you have any suggestions of things to do, please tell us!. Estas foram das únicas palavras que o público conseguiu arrancar dos norte-americanos. Mas que interessa isso, quando a música escreve a sua própria língua? E que maravilha é ouvir “Sphered” e “New Light”. Com um delicioso slide e refrões absurdamente lindos, melódicos e bem construídos, vem-nos um aperto daqueles no coração. Estas duas músicas carregam um poder incrivelmente emocional, tão bonito e absolutamente puro. Uma prova contundente que a simplicidade é um lugar bom de se frequentar.

Ainda houve tempo para a apresentação de uma canção nova e para mais uma rajada de electricidade folk-psicadélica bem ensaiada – afinal, este era o último suspiro do fôlego de uma tour. É um facto que as danças não tiveram grande lugar esta noite. Talvez um pequeno devaneio surgisse com os solos atrevidos de Tarveniere. Um pezinho de dança ou um abanar de anca com o pacote de acordes característicos de Jeremy, é verdade. Mas esta era uma noite predestinada à mera admiração, estupefação e respeito. Todos sabíamos isso. E foi mesmo isso que aconteceu. Um Musicbox rendido às vibrações cósmicas de Woods(stock).