Encontrando-se no meio das forças de expressão que não olham tanto para texturas ou técnicas específicas, e numa obrigatória curiosidade sonora que leva às descobertas mais profundas da potencialidade das ondas sonoras, o Out.Fest é um festival que, tal como o cariz exploratório da sua programação, se espalha por todo o lado. E espalha-se graciosamente: na cidade do Barreiro, durante estes dias, a música vai ficar bem distribuída pelos seus cantos. Ora na mais romantizada esquina soturna da Escola de Jazz do Barreiro, ora na dimensão alternativa da ADAO junto aos carris de ferro, ora no cariz mais formal mas sempre intimista e confortante do Auditório Municipal Augusto Cabrita. Espalha-se geograficamente e noutras dimensões em igual: em toda a sua coerência experimentalista e técnica, o Out.Fest viaja entre escolas e correntes que podem ir desde a electrónica terapêutica de Sonic Boom ao alucinante poderio de Evan Parker e o seu gang. No meio, ainda cabe a exuberância torrada dos Acid Mother’s Temple.

No dia inaugural, todo passado na esquina a meia luz da Rua Salvador Correia de Sá, a veia passou predominantemente pela área mais artesanal da arte de extrair som. Agustí Fernandez, compositor espanhol, celebrado nos meandros da música contemporânea, inaugurou o programa com uma actuação de exímia delicadeza. Deslizando no corredor vago entre o magote de espectadores que encheram o Velvet Be Jazz Club, Fernandez chega ao seu piano com um sereno sorriso a ilustrar o silêncio com que se manteve até ao fim da performance. Altamente concentrado na sua postura, aguarda que o silêncio que outrora era só dele se transfira para toda a sala. E aí, soam as primeiras léguas de uma obtusa viagem, quando as suas mãos penetram as entranhas do portentoso instrumento. Esfregar, espremer, bater, arranhar, apalpar são alguns dos verbos que podem descrever todas as acções que o músico foi executando, mas a miríade de sons que deles retirou seria infinitamente maior para se poder enumerar.

A performance de cerca de 40 minutos foi feita principalmente de uma textura muito física. Percutindo as cordas para criar ritmos bizarros e charcos de som que sempre actuavam como efeitos sonoros para um filme e acção inexistentes, Agustí Fernandez fez música altamente expressionista sob um cunho minimal e Beckett-iano, e ilustrou uma viagem sonora de impecável rigor e impressionante perícia. Os filmes que se desenrolavam não eram vibrantes pradarias fantasiosas ou épicas paisagens oníricas, mas antes coisas deste mundo distorcidas sob o novo contexto que os tons dobrados e as notas oscilantes lhes davam. Na sua actuação, viram-se cavernosas salas vazias a receber um eco distante, ou fábricas com linhas de montagem infinitas que funcionavam ao som de graves e pulsantes frequências e entraves na maquinaria aqui preconizados com os materiais diversos que o músico foi colocando dentro e fora do seu instrumento.

Lançado sobretudo numa demanda percussiva onde o piano, graças à manipulação de virtualmente todas as suas componentes, tanto soou a ancestrais bombos a desenhar tribalescos mantras como se viu a acolher a fragilidade de pequenos e infantis sinos, Fernandez fez um poderoso uso do silêncio. Utilizando-o como a base dos seus motivos, foi a partir do silêncio que nasceu a sua música, onde através do seu corte cirúrgico por parte destes sons simultâneamente concretos e abstractos, as composições ganharam uma magnitude absorvente onde o cenário abdicou da necessidade do visual pela importância e riqueza das frequências que oscilavam no ar. Enquanto isso, leves e sensíveis gotas de teclas encarregavam-se de ora pesar o humor, ora fazê-lo levitar à medida que as melodias traziam a percussão mais concreta a paragens mais dramáticas e narrativas.

Efectivamente plástico e visualmente rico no seu minimalismo intrincado, Agustí Fernandez anteveu um campo que de uma maneira igualmente fascinante Lê Quan Ninh, no piso de cima da Escola de Jazz do Barreiro colada ao clube, continuou a explorar na área da percussão. Munido apenas com um gigante tambor e um arsenal infinito dos mais diversos instrumentos como pratos, baquetas, varas ou espátulas, o músico franco-vietnamita chegou à sala para continuar a estabelecer o diálogo entre o homem e o instrumento e entre o instrumento e a electricidade que o capta. Tudo isto unido por uma liberdade de exploração que caracteriza o trabalho do aclamado solista. Foi com uma simpatia e delicadeza confortantes que Lê Quan Ninh se apresentou em frente à sua plateia sentada. Altamente metódico nas suas acções e na sua técnica, foi uma rigorosa ordem e disciplina que ornamentaram a sua performance: todos os utensílios eram tirados e devolvidos após uso no seu sítio específico e a coordenação de movimentos fizeram uma dança ventosa tão fascinante de ver como de tentar compreender.

Foram estes elementos necessários para a forte dose de pensamento fora da caixa que foi sendo executada, fruto de um à vontade e liberdade para com as concepções de música que fizeram um fascinante espectáculo. Fluído e líquido como um riacho com vários tentáculos, o percussionista foi, um pouco como Fernandez, construindo as suas próprias narrativas feitas de ricos sons de consistência altamente física e dura. Preferiu, contudo, deslocar-se um pouco do romantismo mais étereo que o primeiro por vezes demonstrava para falar numa linguagem mais concreta e plástica, que em comum teve a ausência de fronteiras. Arrastando os pratos na pele do tambor ou equilibrando frágeis taças em cima dos mesmos através de suaves ataques varajantes, foi produzindo sons tão puros como espirituosos, fazendo uma certa relação entre as texturas mais cheias e graves e os tintilares mais agudos dos metais que tinha à disposição.

Num dos seus auges, em termos de intensidade do seu som, vimos o músico soprar para um dos seus pratos à medida que o mesmo arranhava o tambor para criar um efeito de sucção que se expandiu pela sala e portentosamente engoliu quem esteve presente. Tremendamente colossal e palpável, Lê Quan Ninh criou um furioso vórtex que se foi alimentando de tudo o que atraía através da sua força até o mesmo se fechar em exuberante cerimónia, dando lugar a leves e agudos padrões rítmicos que se seguiram num espectáculo conduzido por uma certa cadência entre o tempestuoso e bucólico. Num certo fio, mais físico do que intelectual, a sua performance fez-se, mais uma vez, de uma certa viagem à berma da estrada, zigzagueando quando lhe apetecia e, certamente, não obedecendo a parâmetros. Nós, o público, fomos atrás e não houve forma de não sermos absorvidos e arrebatados pelo equilíbrio monumental da obra de Lê Quan Ninh que nunca se tornou demasiado densa ou inóspita dando, antes, uma leve sensação de nos estar lentamente a guiar por bosques ainda não desbravados.

No fim de uma performance que havia sido igualmente sonora e visual pela magia que é ver a charmosa e delicada técnica de Lê Quan Ninh a desdobrar-se em palco, o olho desviou-se para encontrar um retrato do artista que estava a ser esboçado na plateia. Do fiel trabalho encontrava-se de novo a ternura livre e expansiva que, nele está a prova, claramente transpareceu para quem o viu e que se encontrou em plenitude com o espectáculo milimetricamente técnico e intrincado do seu artista. Impressionantes pela execução e cativantes pelo ser, fica a prova de uma série de concertos enriquecedores e inspiradores para esta sexta, com a excepção a não ser feita para a última dose da noite, de volta ao pequeno Velvet Be, que actuou como uma bela reunião de última hora dos músicos Jamal Moss, Evan Parker, Orphy Robinson e Yaw Tembé.

Num autêntico “tudo ao molho”, ergueu-se uma bela salada russa de talentos, técnicas e perspectivas diferentes sob a música. A batuta, essa, foi aquela de Jamal Moss que, para além da persona Hieroglyphic Being, actua como dinamizante agente de produção musical em diversas paisagens. A que se pôde ver hoje foi uma de uma natureza meditativa, progressiva e, de certa maneira, ingénua na sua liberdade de espírito, deixando-se ir onde a vontade e o pensamento imediatos sugerem. “Just go with it“, aconselhou Moss antes de começar uma performance improvisada à última da hora que casou as aventuras organicamente sintéticas do equipamento hieroglífico com as ancestrais técnicas da trompete, do vibro e do saxofone. Poético, calmo e relaxado, o grupo levou o seu tempo para cozinhar uma jam flutuante e sem paredes, de inclinações noir e uma vibe cinemática enigmática e misteriosa, tão tentadora como eminentemente cortante.

Tal como um perigo que não podemos evitar escapar, um buraco no qual nos queremos meter, o concerto começou numa nuvem de pó digital, manipulada por Moss para criar uma ambiência soturna, uma máquina de fumo artificial a criar um fumo mais real e hipnotizante que não é físico. Rapidamente a voz do saxofone ergueu-se lentamente e lançou-se em acessos mínimos mas extremamente carregados e melódicos, dando uma aura de intriga e espanto à sala que agora se enchia totalmente só desse fumo e mais nenhum. Com todos os elementos lentamente a elevarem-se uns aos outros e a ligarem-se numa ondulante teia, toda a música se fez constantemente de uma consistência gasosa e oscilante, sempre soando imediata e sentida com os músicos a divagarem uns nos outros e a mostrarem-se em processo de descoberta e deliberação sobre onde queriam ir a seguir.

O encontro surgiu realmente como uma oportunidade de ver experientes mentes musicais explorar e a fazer música num processo pouco filtrado, onde uma ou outra indecisão era permitida e a vontade de manter a sintonia e entender a vibe individual era palpável. Mais melódicos e fantasiosos do que as duas anteriores aventuras, a música aqui feita foi viajando entre vários estádios, pertencendo num segundo a um Black Lodge ligeiramente menos escarlate, noutro a uma excursão mística de contornos espaciais. A relação de Jamal Moss com o ecletismo fundido da obra de Sun Ra tornou-se aqui visível e um extremo gosto de experimentar à medida que moderno e clássico se encontravam numa nova vanguarda tão cândida como intrigante. Foi, neste sentido, que as paisagens ambient de Moss deram lugar para sentarem arrastadas notas de flauta tocadas pelo próprio, pautadas por linhas programadas de sintetizadores e pela expressão mais abstracta do técnico vibrafone de Orphy Robinson.

Nesta cama rítmica, deitaram-se os sopros de Evan Parker, que na primeira de duas actuações distintas, soou tão melodioso e atmosférico, carregando o seu sax de sensações cheias e ricas em sintonia com as também muito ritmadas paisagens lançadas por Yaw Tembé, trompetista que se sediou em Lisboa e preencheu o concerto com friccionados sons e gritantes melodias de uma fantasiosa natureza. Em todas as medidas um concerto que encheu a alma, não foi tanto um de evocar emoções, mas um que através da melodia, da eventual dissonância e dos casamentos improváveis fez nascer filhos que despertaram impressionantes sensações. O conforto, o embalo, a náusea transportante e a descoberta por um túnel de som que não precisa de iluminação para ilustrar as suas impressionantes paisagens, fizeram todos parte de um autêntico mel sonoro que parte não de um conhecimento, mas de uma bela experiência. Uma que obteve o seu charme na sua simplicidade e no seu descompromisso. É essa a palavra de ordem para os melhores laboratórios.

Jamal Moss, Orphy Robinson, Yaw Tembé & Evan Parker @Outfest 2016

Jamal Moss, Orphy Robinson, Yaw Tembé & Evan Parker @Outfest 2016