Depois de se passar os dois serões de quinta e sexta a percorrer o Barreiro em busca das mais atrevidas e desafiantes excursões sónicas, o Out.Fest 2016 vai desaguar junto ao rio no seu último grande dia de programação. É entre os caminhos de ferro e o terminal fluvial que encontramos um ex-quartel de bombeiros completamente restaurado para servir as jornadas da cultura e da prática da arte. Neste antigo posto de serviço cívico ergue-se agora a ADAO – Associação Desenvolvimento Artes e Ofício, o colorido espaço que recebeu o dia mais dilatado do festival em termos de espectáculos a acontecer. Com 11 bandas a partir das 21:30, o gigante quartel pareceu mínimo face à quantidade de acção que foi surgindo num espaço que, já de si, impressiona imediatamente por toda a cor ambiência que vão escorrendo pelas suas paredes e corredores.

Dotado de uma aura que transpira arte e libertação a ADAO, para além de receber luxuosa programação, foi sozinha já um ponto alto do festival pela possibilidade de visita em contexto festivo. Com cada sala minuciosamente decorada e personalizada de modo a viver sozinha como uma personagem desta multi-variada casa, os seus traços transpareceram inevitavelmente, mesmo apesar da azáfama, com as próprias exposições e peças de arte a viverem lado a lado com a vida da noite e a possibilitarem-se à interacção com o público que, num espaço para além impelido a ver os concertos, estava confortavelmente integrado. Assim, foi nesta aventura de luz negra, tintas fluorescentes de poderosos verdes e azuis e instalações plásticas que pudemos encontrar quatro palcos divididos em dois pisos.

As hostes começaram na onda da síntese experimental com o português POLIDO e os multinacionais Les Graciês a encher o quartel com as respectivas vibrações. De um lado, uma experimentação em grão de uma escola portuense enraizada no hip-hop e aprendiz actual dos ensinamentos transgressores de Berlim. Do outro, a fase final de uma mini-residência que viu o duo franco-americano a recolher previamente os sons da cidade, da indústria e da vida do Barreiro para experimentações sónicas de um calibre que envolve sempre o improviso, o recorte e a justaposição. Lançado ficou o mote que recompensou quem chegou a horas e que foi compondo o ambiente enquanto o renovado edifício lentamente foi dilatando o seu interior e ganhando uma cada vez mais pulsante vida. Isto fruto da música que pintou o ar de ritmos e dissonâncias a dançar conjuntamente com a valsa das pessoas e os seus percursos que, quando atraídas, habilmente se foram distribuindo pela ADAO e os quartos secretos.

Era já do corredor que se ouvia um incessante marchar de pujantes percussões, batidas com tanta alma como perícia. Pelo ar, algum pó cósmico viajava eléctrico e colorido pelos corredores e foi ao chegar à acarrampada Oficina da ADAO que confrontámos um encontro irrecusável. Haveria de ser neste cenário, sobre uma cúpula encarnada a ornar um palco terreno e de baixo estrado. que nos encontraríamos com a dupla Irmler/Liebzeit, pobres em vogais mas ricos em História por serem, respectivamente, membros dos míticos Faust e Can bandas, por sua vez, responsáveis pela cena alemã que actualmente exerce algumas das maiores influências sobre a música popular actual. Numa configuração minimalista encontrando o primeiro nos teclados e o segundo nas tribais percussões, deu-se um espectáculo absolutamente hipnótico tão tributário à world music como ao ambient mais sintético. Tântrica e ritualesca, a música que os dois foram fazendo com tanto entendimento como diversão foi transportadora e densa, pautando-se por uma ininterrupta salva de padrões rítmicos em constante mutação e sem prévio aviso.

Em toda sua simplicidade, o duo manteve a chama viva à medida que o teclado ia esculpindo as bravas ondas e montanhas de som aos quais éramos atraídos pela força xamânica dos ritmos quentes e exóticos. Irmler e Liebzeit foram trabalhando em conjunto para embrenhar a sua plateia na música e na dança interior, fazendo-no com poderoso sucesso. Altamente expansivos, mas sorridentes e acessíveis, foi um triunfo banhado a História e um consolatório concerto para lançar o mood do resto da noite que, por sinal, haveria de começar a esboçar padrões bem extravagantes. Acontece que ao lado, no caminho para a Cave, estaria Van Ayres, o jovem artista multidisciplinar que entre outros outputs chega esta noite para apresentar o seu novo trabalho, Sorry Stars. Seguiu-se assim uma autêntica overdose de açúcar com cores a explodir de todo lado à medida que um “pijamado” Van Ayres foi cantando, dançando e tocando flauta sob um dos mais absurdos cenários do fim de semana.

Irmler & Liebzeit @ Out.Fest 2016

Irmler & Liebzeit @ Out.Fest 2016

Um DJ mistério, revisto a licra preta, duas dançarinas retro-futuristas e a mais incrível parafernália fluorescente acolheu a pop de quarto de dormir do fantasioso e sonhador artista louro que se lançou numa performance que foi tanto uma rave naíve (raíve?), como uma perversão de géneros e modelos musicais. A música de Van Ayres, subproduzida, mas altamente condimentada de doçura e melodia, tem um cariz de intensa e nebulosa distorção de convenções por detrás de registo quase infantil que, juntamente com a sua postura de sensual confiança, ajudou a produzir um clima de irresistível profanação. A cultura e o imaginário das séries de infância, dos temas de videojogos e das cartas coleccionáveis foi aqui trazido por entre danças quadradas e pulos descoordenados ao som de porcos beats de trap e rave e entre solos de flauta e de grand pianos digitais por Van Ayres que dominou o caos para criar uma das festas mais surreais do fim de semana. Do início ao fim lançou-se a uma performance artística de cativante e impressionante natureza num concerto que pela sua textura, ficou sem par neste Out.Fest.

A partir daqui é sempre a rasgar…

A coisa não daria sinal de acalmar depois de Van Ayres ter acabado o seu espectáculo disparado do palco para plateia. Manuel Mota, experiente estudioso da improvisação a seis cordas, estaria no andar de cima concentrado nos seus idiossincráticos esquemas, assegurando que o enigma se fosse adensando pela ADAO. Já em baixo, no palco Oficina, nova leva institucional: estariam para subir os Acid Mothers Temple para aquele que foi provavelmente o concerto mais extenso do festival, que se foi prolongando para lá do tempo regulamentar enquanto houvesse aquele feel. Os reis do rock psicadélico japonês, fortes desde os anos 90, regressaram a Portugal para um violentíssimo concerto. Um autêntico incêndio de wah wah e distorção foi-se ateando ao longo de um set que foi dominado pelo som absolutamente estridente que foram produzindo. Energéticos, mascarados e sorridentes, os magos nipónicos concentraram-se sobretudo num registo veloz e super sónico, onde por vezes foram esticando os seus motivos para léguas bastante densas e repetitivas, instaurando um mantra que, na sua maior parte, foi mais distorcido do que progressivo.

Bem dispostos e claramente na sua zona ao estarem a malhar e partilhar o fruto com uma casa lotada, o espírito era leve e livre apesar de todo incendiário rock n’roll à antiga que foi acontecendo e que, se não fosse o recurso àquela nova tecnologia chamada relógio, nunca poderíamos dar pelo tempo passar. No andar acima, preparavam-se já os lusos Tropa Macaca, repetentes assíduos do Out.Fest, que entre aventuras e edições discográficas estrangeiras, vieram trazer o seu rock concreto ao Barreiro num hipnotizante set onde a electrónica analógica se encontrou com uma abordagem muito plástica à música. Lançados em divagações ambientes que foram rasgando com quadrado noise de guitarra e acutilantes sequências de synth, o duo foi fazendo uma espécie de techno cerebral e atmosférico enquadrado num rock quase de reforma feito de férreas estruturas opacas e movimentos rigidamente geométricos. Tão forte na cabeça como nos pés, os Tropa Macaca brilharam e sugaram-nos para o seu próprio mundo de esterilizada clausura.

Ainda na oficina, os Acid Mothers Temple encontravam-se agora numa zona mais chill do seu set, aproveitando para refrescar um pouco o bafo de calor que naturalmente surgiu. Lançando-se numa reflexão lenta e circular em jeito progressivo e bucólico, ergueram lentamente a sua composição orientada pelas danças de guitarras, bem como a plateia que seguia atentamente. Entretanto, o português Ondness, solitário no palco mas bem acompanhado de uma plateia sentada que revestiu todo o chão do ilustre salão onde estavam, já se encontrava a esculpir as suas paisagens sonoras mais orientadas para a textura do que propriamente para a melodia. Contemplativo e concentrado, o artista foi samplando, cortando e colando as suas fontes sonoras para construir um quadro apenas semi-narrativo que lentamente se foi orientando para a batida à medida que se aproximava do fim. Foi de maneira relativamente discreta e serena que a sua música se espalhou, paciente e progressiva, ao mesmo tempo que, tal como tem acontecido ao longo do fim de semana, foi recompensando quem a escutou com atenção, podendo retirar daí todo o pormenor e detalhe que foi vibrando no ar.

A caminho do horizonte…

De pormenor e detalhe também se faz em grande medida a música de Foodman, conterrâneo dos Acid Mothers Temple e admirado artista multimedia especializado nas suas produções over-the-top e hiper-detalhadas. Completamente em casa com toda a fluorescência colorida do espaço onde se encontrava, a música de Foodman é precisamente uma rebentação em Technicolor de glitch, justaposição, mutação e colagem. Frenético nos seus maneirismos e hiperactivo na forma como foi organizando o seu set, o nipónico manteve uma atmosfera vibrante e altamente colorida à medida que organizou os intrincados arranjos que, bebendo tanto de tantos estilos de dança diferentes, foram permanecendo enigmáticos do ponto de vista da coreografia. Sob esta perspectiva eminentemente moderna, de resmas de informação, encontrou-se um espectáculo singular, constantemente desafiante e nem sempre tão acessível de acompanhar devido ao elevado ritmo. Cosmopolita e exótica ao mesmo tempo, esta dose de Foodman deixou-nos saciados e foi uma curiosa iguaria que merece partilha.

Pisamos agora as primeiras horas da madrugada e os membros dos Acid Mothers já se vêem a passear pelo festival. As atenções dividiram-se então entre as paisagens de atmosférico e gingão jazz dos Gume e nova dose de Jamal Moss, que regressa ao Out.Fest 2016 sob o conhecido mote de Hieroglyphic Being. Não andando muito longe um do outro em termos de propriedades espirituais e humanas, o Out.Fest viu-se terminar numa nota ecléctica, com a banda liderada pelo também repetente desta edição Yaw Tembé a fundir os acessos clássicos do género com transfronteiriças técnicas em nome de um registo etéreo e elevado, convidativo à reflexão e à consciência do ser no mundo. Liderados pela voz do trompete e o instinto da percussão, os Gume trouxeram a noite ao fim de uma forma cálida e relaxada como se pediria depois de tanta correria.

Foi precisamente esse o mote para o set de Jamal Moss, que em toda a sua natureza sintética não poderia ter soado mais orgânica numa dose tão quente de humanidade e espiritualidade transportadora. Sob a batuta do seu ar de cool guy, fomos carregados sob as suaves nuances da sua produção, sempre sedosa e equilibradamente luxuosa nas suas batidas tão orientadas para a introspecção como para a dança. Hieroglyphic Being foi certeiro em encontrar corações e mentes, levando os meandros da música electrónica a paisagens tão bucólicas e espirituais como raramente se vê nestes campos, tornando o seu espectáculo, um óbvio tesouro do fim de semana. Assim, com um fim de noite levado a cabo de forma memorável por todo o espírito zen que foi instaurado nesta madrugada na ADAO, impossível não ir embora de peito cheio de um festival absolutamente cativante e ensinador. Recarreguem-se as pilhas e aproveite-se que domingo pode-se, na maioria dos casos, dormir até mais tarde. Isto porque ainda há programa: no fim da tarde de domingo, André Gonçalves ainda havia de prolongar este estádio de placidez com uma bela esculptura sonora no Convento da Madre Deus da Verderena, utilizando a sua panóplia de equipamento modular. Que belas prendas.

@Out.Fest 2016

@Out.Fest 2016