Com um cartaz recheado e mais perigosamente extenso do que possa parecer, houve muito para ver nos três dias em que o NOS Primavera Sound 2016 voltou ao Parque da Cidade. Já tratámos de enumerar os momentos mais altos da edição deste ano aqui mas, ainda assim, houve mais acção que não pode passar sem ser mencionada. Assim, e como qualquer evento destes é feito da música, a Tracker traz-vos mais um compêndio com alguns dos concertos mais sólidos que aconteceram por lá, para além dos mais vistosos espetáculos de Sigur Rós ou Battles. Eis alguns dos protagonistas que tornaram o NOS Primavera Sound 2016 numa das edições mais célebres da História.

Parquet Courts, no Palco Super Bock.

Num primeiro dia e num palco onde as guitarras, para além de escassas, foram mais altivas e temperadas – cortesia de gentes como Sigur Rós -, os Parquet Courts foram um pouco a sua própria ilha ao trazerem consigo a sua dose de rock. Depois de um morno concerto dos Wild Nothing, mais terno e sossegado, e a elegância requintada de Julia Holter, o quarteto subiu ao palco para mais uma aparição desregrada e descomprometida. O grupo oscila muito bem entre a sua faceta mais experimental e as malhas mais javardas e directas ao assunto, e o que se viu no concerto que deram no dia 9 foi uma performance bastante sólida de uma banda rock com uma singular atitude. Com o seu quinto álbum a correr, os Parquet Courts trouxeram um som gordurento e descomposto: riffs desajustados e canções com multiplas secções a surgirem às cavalitas umas nas outras fizeram-nos soar caóticos em palco, mas sempre com uma dose de experimentação e técnica que os levavam para paisagens seriamente interessantes. A meio caminho entre uns Kings Of Leon do início e uns Sonic Youth sulistas, os Parquet Courts são um feliz emaranhado que é bruto e não pretende ser propriamente bonito. Gritam desleixe por todo lado, mas como se viu, trapalhões não são de certeza.

Moderat, no Palco NOS.

Um breve inquérito e troca de impressões levou-nos a descobrir que para muitos os Moderat acabaram por dar o melhor concerto dos três dias o que, como se pode calcular, não pode ser uma declaração leve face ao peso do restante cartaz. Os alemães ficaram de encerrar o palco maior do evento no início da derradeira madrugada do festival e trouxeram a sua IDM expansiva e sensorial a um palco que certamente teve a medida certa para os receber. Num concerto de bom ritmo e de qualidade sonora perfurante, esta mescla entre os Modeselektor e os Apparat certamente tem dado passos largos e significativos para afugentar o preconceito existente à volta da qualidade ao vivo de grupos electrónicos, com um sucesso e aceitação que parece recuar até aos tempos dos The Chemical Brothers. Portugal pôde finalmente confirmar essa premissa e deparou-se com um concerto sólido, sintético e orgânico q.b., e um ambiente de entusiasmo para o qual a própria plateia contribuiu imensamente. Foi uma boa história.

Dinosaur Jr. no Palco ATP.

Já são veteranos destas paragens, com certeza, e para além de irem figurando assiduamente no cartaz do Primavera de x em x anos, os Dinosaur Jr. são discutivelmente o material de fonte original que produz uma grande percentagem das bandas que acabam por aqui vir tocar. Assim dito, um concerto dos Dinosaur Jr. no Primavera tem sempre uma certa veia de História, ou de lição. Foi isso que o trio de J. Mascis veio ao Porto fazer, tornando-se num dos melhores pontos de referência para esta edição no processo. Com mínimas conversas, as lendas do alt rock norte americano lançaram-se a um concerto pesado e que foi directamente ao que interessa: as malhas. “The Lung” (que abriu), “Feel The Pain” e tradicional “Just Like Heaven” tirada dos The Cure, todas figuraram num enxame de riffs e distorção. A velocidade foi vertiginosa e a meio do concerto só se consegue pensar o quanto é preciso andar para encontrar uma quantidade tão grande de agressão hoje em dia como aquela que as bandas desta altura têm (sensação que voltou em Drive Like Jehu). Não se trata de um “antigamente é que era”, mas ao observar uma banda como os Dinosaur Jr. somos constantemente lembrados do que é realmente ser sem merdas, sem ornamentos e sem grandes pensamentos. Foi essa liberdade e descompromisso, para além do património sónico que hoje pode viver reinventado de n formas por esta ou aquela banda, o maior tesouro que este trio nos deu. Há neles e neste espírito todas as razões para nos inspirarmos.

Explosions In The Sky, no Palco Super Bock.

Actualmente cunhados com um mediatismo que faz deles uma das bandas post-rock com mais sucesso, os Explosions In The Sky são frequentemente citados também pela sua força e energia. Observando um concerto deles, essa informação passa a cristalizar-se num facto duro. Há muita genica nestes norte-americanos, e com um Palco Super Bock lotado para os receber, com certeza que essa mesma força recebeu um incentivo. Imparáveis ao longo das suas composições vertiginosas e eminentemente dramáticas, os Explosions In The Sky são também um exemplo de uma banda que sente fortemente a própria música que produz. Chega até a ser engraçado, e em certa medida comovente, a forma como os músicos, caoticamente dispersos em palco, se lançam a poderosas poses de rock dignas de um Freddy Mercury e agitam as suas cabeças em furioso headbanging uns para cima dos outros (felizmente sem acidentes). Não há aqui papéis distribuídos nem um espectáculo produzido. 100% da performance destes músicos faz-se de vontade e sentimento, e o contágio invadiu o palco que entre gritos, lágrimas e pulos, amalgamou-se com a banda que, mais que música, produziu emoções. É talvez por isso que os Explosions sejam tão bem recebidos: só o facto de conseguirem fazer plateias sentir e sonhar, de transportar, já é uma das coisas mais preciosas que uma banda pode fazer e ambicionar. Felizmente, este grupo vai de forma crescente fazer ambos. No fim, foi preciso um dos membros voltar ao palco para dizer que o grupo não podia mesmo voltar devido aos constrangimentos de tempo, tal foi a efervescência do público para que voltassem. Assim se vê o quanto pesam e significam estas relações.

Tortoise, no Palco ATP.

Apelidados de padrinhos do post-rock, os Tortoise chegam aos dias de hoje com a longevidade de um cágado e também com a sua dimensão e força. Os magos de Chicago são grandes e foi isso que vieram ao Porto confirmar. Num esquema de dupla bateria, teclados, baixo e guitarra, os virtuosos cinquentões atacaram as últimas horas da noite de sexta e deram show forte. Talvez menos melódicos e oníricos do que nos registos de estúdio, os Tortoise deram um concerto em modo lição: mantendo um passo acelerado, foram-se lançando profundamente na sua própria estranheza ao mesmo tempo que a sua fusão math se encontrava com o acid jazz, o funk e até um pouco de MPB. A questão é que todas essas modas foram vistas de acordo com a linguagem idiossincrática do grupo, com os seus teclados exóticos e assíncronos padrões rítmicos cheios de vertigem. Em modo desfile, como um conjunto de jazz a lançar-se a um potente medley, os Tortoise foram largando malha atrás de malha e o ritmo só não foi mais tenso devido a uma ou outra questão técnica que interrompeu algumas vezes o início do concerto. De resto, deram um dos concertos mais recompensantes do festival, de tão deliciosamente estranho que foi. Deus abençoe a malta esquisita.

Ty Segall & The Muggers, no Palco ATP.

É um facto devidamente confirmado por leis cientificas que Ty Segall é um dos maiores senhores do rock e um incontestável campeão da camaradagem e boas vibes. Eternamente prolífero, a sua nova saída consistiu em reunir um grupo de amigos e talentosos músicos para formar um outfit rock parte performance, parte espectáculo punk puro e duro. Desta vez dedicado exclusivamente aos deveres vocais e de frontman, Ty Segall deixou os instrumentos para os Muggers e concentrou-se no papel de horroroso bebé-anfitrião todo minado em açúcar. Correndo, pulando e chuchando no dedo, o californiano aproveitou a ocasião para largar a fera que havia em si e permitiu-se a si ser o maior lunático que já passou no festival, no palco ou na plateia. Foi um autêntico ring leader de um circo de feras evidenciado pelo agressivo mosh pit à sua frente e foi dramatizando as canções do mais recente Emotional Mugger com fantástico trabalho de guitarra, baixo e bateria dos seus companheiros. Ainda houve tempo para alguns sons dos anteriores discos e uma rendição bem psicadélica de “LA Woman”. O espectáculo em si foi o que fez mais mossa pela agressividade e loucura da música e, mesmo com os ânimos elevados, Ty Segall foi capaz ainda de alertar ao bom senso e pôr mão em algumas situações mais agressivas a acontecer nas danças da plateia sem cortar a moca de ninguém. Aquele bom e velho rock n’roll.