Owen Pallett - In Conflict
100%Overall Score

Há muito, muito tempo, talvez no Jurássico, talvez no dia 10 de Março de 2010, Owen Pallett deu um concerto no Maria Matos. Talvez não possa haver lugar mais intimista. Talvez a Aula Magna contrarie isso. Talvez não. Talvez o moço estivesse, no final do espectáculo, a dar autógrafos à saída munido de uma garrafa de tinto duriense, um queijo da serra e tostinhas, que oferecia a toda a gente. Talvez tenha aceite fazer umas fotos no camarim, com a única condição de não ser retratado com o violino porque “parece aquelas capas de discos de intérpretes de música clássica”. Para além de tudo isso, quem estivera no espectáculo sentiu, por certo, algo que não se pode traduzir para português. Ou não devia: Bliss. A própria sonoridade do termo é mais bonita que a complexa fonética de “felicidade” ou o enfado do som de “deleite”. Porquê? Porque é Bliss. E bliss é ouvir Owen Pallett. Mesmo que aquele concerto fosse a apresentação de Heartland, o seu primeiro disco como Owen Pallett, nome do moço que já havia feito parte dos Les Mouches e dos Picastro, que integrava as digressões dos Arcade Fire desde o seu surgimento (compôs os arranjos de cordas para o Neon Bible), que estava num relacionamento sério com Droste, dos Grizzly Bear. Até ali, o seu alter-ego havia sido Final Fantasy. Dois discos portentosos, diferentes, criativos, insólitos, raros, muito raros. Has a Good Home (2005) e He Poos Clouds (2006) foram uma pedra de arrojo num imenso charco pintalgado, aqui e ali, de coisas boas. Heartland surgia em 2009 e marcava a transposição de uma fronteira em direcção ao convencional. Mas não totalmente. Porque ainda havia muito Final Fantasy em Owen Pallett (e não, não está confirmado que a empresa do jogo de vídeo o tenha processado ou que a razão da mudança tenha sido a dificuldade em encontrar temas do moço no Youtube).

Em In Conflict isso já não acontece. E ainda bem. Avançou ele e todos nós, em direcção a um lugar qualquer que ainda não sabemos qual será. Apenas que será maravilhoso. “I Am Not Afraid”, começa por dizer. É um aviso. Porque parece que ainda está tudo na mesma, sinfonicamente falando. Nada de mais errado. No tema que dá o título ao disco, o moço diz “we all will live again in the eyes of an actor and the light on the glass”, para exclamar, só depois de entrar o baixo (SIM, há um baixo no NOVO Pallett): “So let me see that ass, hey hey hey!”, é preciso ouvir para se acreditar. E eu estou como os adeptos dos clubes que valem a pena: “Sempre acARditei!” “On a Path” é típico do moço. Dedilha-se um violino enquanto se canta, tudo na mais profunda paz, mas sabe quem o conhece de ginjeira que vem aí a apoteose. Oh, se vem! Uma secção de cordas da melhor filarmónica do mundo (assim o parece) e coros, belíssimos coros como “cenário” de verdades supremas como “You stand in a city that you don’t know anymore, spending every year bent over from the weight of the year before”, oh, suplício que é tantos anos à espera de um disco assim. E o que eu (ou qualquer pessoa com os canais auditivos desobstruídos) tería para dizer do que se segue, o pseudo-techno de “Song Of Five & Six”, a aparente rendição ao convencional de “Secret Seven”, com o tal baixo a entrar no refrão, o electro-barroco de “Chorale” (que surge como raggae?), o histórico “The Passions” e tudo o resto, até “In Conflict”. O disco mais bem executado de Owen Pallett, o Moço, até hoje. Mas muito embora não me imponham limitação de caracteres, faz-me espécie que possa estar para aqui a escrever e haver um, um só leitor, que não vai comprar o disco. Agarrem-me, que eu vou-me a ele.