Panda Bear - Panda Bear Meets The Grim Reaper
85%Overall Score

Está de regresso com disco a solo do mais benfiquista e mediático dos Animal Collective. Noah Lennox, que há uns bons aninhos decidiu assentar arraiais em Lisboa, desta vez não dedicou um tema à equipa de Jorge Jesus, mas a um bairro da capital. E “Príncipe Real” é justamente uma das faixas mais dançáveis de Panda Bear Meets The Grim Reaper, segundo aquele que o músico considera o seu álbum hip-hop.

Vamos por partes. Panda Bear, aka Noah Lennox, é um rapaz sincero, mas levar à letra a expressão hip-hop poder ser no mínimo excessivo. Claro que já sabemos que ele é um moço de ouvido eclético capaz de reunir no mesmo cabaz Black Sabbath e Justin Timberlake, mas também não é menos verdade que a estranheza dos sons que o rodeiam é o chocolate que lhe faz crescer água na boca. Logo, este hip-hop é um outro hip-hop. E é em virtude de toda essa estranheza que Panda Bear pode não ser um tipo fácil. Ou, pelo menos, facilmente entendível. Repare-se que ele já apanhou com todos os rótulos de freak folk a músico digital, e isto porquê? Porque, óbvio, se tem um fogão e a Bimby, usa os dois. Todos os Animal Collective têm formação em instrumentos tradicionais, guitarra, bateria, violoncelo, piano e a electrónica é o follow-up natural de quem vive no século XXI.

As suas faixas são quase inteiramente composta de loops e multi-track trompe l’oeil, com um senso de estrutura repetitiva, dinâmica e a arte da mudança subtil típica de um DJ, que é essencial para o efeito eficaz das suas canções que embalam o ouvinte para estados de felicidade e conforto (não deixa de ser irónica a sua colaboração com Daft Punk em “Doin’ It Right”, que soa como qualquer outra canção Panda Bear através de um simples vocoder). No entanto, a grande diferença para a música de dança é a uniformidade de construção das suas canções, a presença frequente de instrumentos acústicos, o shambling no sentido high, e a utilização se subgéneros como house e techno em círculos de repetição com uma organização melódica em vez de sequências programadas. Daí o título de McCartney dos Animal Collective. Em “Person Pitch” e “Tomboy”, Panda Bear operou uma mudança de registo ao criar mundos e espaços sonoros multi-dimensionais que são críveis por causa da sua profundidade e extensão, qualidades que por sua vez dependem de como o músico de forma tão convincente costura os seus elementos.

Se “Person Pitch” e “Tomboy” podiam ser comparados a ambientes digitais excepcionalmente bem executados, a experiência de ouvir …Grim Reaper é como estar no interior daqueles ambientes, com a fritura dos circuitos de computador e erro, mais as mensagens flash intermináveis. Panda Bear teve uma inata compreensão das possibilidades de obter resultados de várias texturas num só registo que, em vez de misturar texturas, coloca-as umas contra as outras. Tome-se como exemplo o gancho vocal em “Boys Latin”, em que cada sílaba emerge de um ponto diferente na mistura que joga com o seu próprio loop, sem origem coesa, apenas a partir de um princípio organizador. Existe uma pessoa cantando “Boys Latin”? Ou apenas um fantasma digital?

Não se preocupem os menos pensativos com as questões filosóficas que …Grim Reaper não é um neo-matrix sobre a natureza das coisas, nem os existencialistas se desassosseguem que também não se esconde aqui o pesadelo cinematográfico da fusão entre os mundos tecnológico e humano. Este é o disco assumidamente mais agressivo de Panda Bear, cheio de ritmos alucinantes e teclados corroídos. Mas sempre ancorado nessa narrativa da estranheza. Repare-se como no tema de abertura, “Sequential Circuits”, a passadeira electrónica reverbera uma cascata de sons de água, uma espécie de caixa de música de ondulações marítimas pré-programadas em ambiente digital. Ou na cavalgada selvagem de “Mr. Noah”, nos arpejos de harpa de “Selfish Gene”, seguidos por 18 segundos de cacofonia de synthbuzz em “Shadow Of The Colossus”.

Há um lado Giacometti em Panda Bear. Mas que vai muito além do aspecto académico da coisa; será muito mais um etnólogo emocional. Óbvio, pois interessam-lhe muito mais as emoções provocadas pela música do Timberlake e dos One Direction que as pautas musicais em si. As emoções dos ursos e dos pandas muito mais que os ursos e os pandas. E é por isso que quem disser que Panda Bear Meets The Gream Reaper é um grande disco de música electrónica, é um grande animal. Sem desprimor para os animais em geral. E a electrónica em particular.