Vinte e cinco anos é muita coisa. É difícil conseguir manter uma ligação tanto tempo mas em Paredes de Coura a música e a natureza têm conseguido conviver de forma harmoniosa e pacífica durante todo este tempo. Uma das características específicas do festival minhoto foi o facto se de ter conseguido renovar com o passar dos anos, alterando-se gradualmente ao ritmo do seu crescimento sem, no entanto, perder a sua alma e identidade. Durante estes anos, apesar de procurar constantemente inovar – nomeadamente em termos de diversidade sonora –, o festival foi ganhando cada vez mais um gosto por atos musicais que exsudem sentimentalismo e que ofereçam ao público courense emoções e sensações que só a música consegue oferecer. Este é um público muito particular e que tem por hábito gostos muito específicos e difíceis de satisfazer: não basta ser aclamado pela crítica ou ser um sucesso de vendas para ser um sucesso em Coura. E não são só os cabeças de cartaz que levam as pessoas a regressar ano após ano para as margens do Taboão: o que interessa é, no calor do momento e não só sentir, sentir algo. Poucos são os artistas que vingam em Paredes de Coura sem se entregarem de corpo e alma.

Há uns anos, andava pelo rio uma festivaleira a vender tshirts que a própria tinha feito e onde se encontravam estampadas as palavras “Paradis du Coeur”. A expressão, apesar de ter sido ultrapassada pela do “Couraíso”, foi das primeiras a ajudar a definir o que diferencia o festival minhoto dos restantes chamados “grandes festivais” nacionais. Naqueles dias, a vila minhota transforma-se num retiro espiritual onde residem em comum pessoas de backgrounds, gostos e até ideais diferentes, unidos pelo gosto da música e pelo sentido de comunidade. A organização tem consciência destes fatores e move-se também neste sentido. Este ano, uma vez mais, passaram pelos dois palcos do festival vários artistas e grupos que tiveram a capacidade de mexer com o estado emocional dos festivaleiros. Desde a eletrónica melódica dos Future Islands, a calma dos Timber Timbre, a juventude fogosa de King Krule, a nova persona de Nick Murphy, a voz poderosa e cristalina de Benjamin Clementine, todos são exemplos de atuações da edição deste ano onde o público courense acorreu, fechou os olhos e sentiu.

Os Future Islands são um bom exemplo deste sentimentalismo, especialmente através do seu último trabalho The Far Field, lançado este ano, álbum central desta digressão da banda. Atuando no primeiro dia de festival, os rapazes de Baltimore – e em particular o seu vocalista, Sam Herring –, subiram ao palco um concerto portentoso: ainda antes dos primeiros acordes serem tocados, era fácil deduzir que quem esteve presente no anfiteatro natural não tinha vindo apenas para ouvir a banda: o público queria um show de Herring, conhecido pelas suas exibições extravagantes em palco e pela sua entrega exacerbada à arte da performance.

Começando de forma tímida mas bem disposta, os Future Islands estrearam-se no festival com “Ran”. Não foi preciso esperar muito até que Sam Herring deixasse solta a sua besta interior, que passou a ditar o ritmo enquanto a multidão foi tentando acompanhar. Como seria de esperar, todos os olhares se colaram em Sam para, daí em diante, não mais o largar. Claramente o ato mais aguardado da primeira noite, a banda também veio a Coura com alguns temas passados, numa retrospetiva da sua já longa carreira. Infelizmente vítimas do seu próprio sucesso, notou-se que o público estava muito mais familiarizado com os temas do longa-duração Singles de 2014 – aquele que contém os maiores sucessos da banda -, do que com os restantes temas. Ainda assim, os festejos foram efusivos quando começaram os primeiros acordes de “A Dream of You And Me”, prolongados depois para “Doves”, “A Song For Our Grandfathers” e “Seasons”, que arrancaram a reta final do concerto. Mesmo nas alturas em que o público se sentiu mais perdido em canções que pouco ou nada conheciam, Herring manteve a sua postura e entrega de forma irrepreensível, esforçando-se sempre para guiar o ‘seu’ público a bom porto. Dos ritmos calmos e suaves aos característicos gritos guturais de Sam Herring, os Future Islands passearam por todo o espectro das emoções num concerto que terminou com o líder da banda despedindo-se do público visivelmente tocado pela receção calorosa a que o grupo teve direito.

O segundo dia foi particularmente forte em emoções e sentimentos, com atuações em palco dos Timber Timbre, King Krule e ainda Nick Murphy. Destes, o primeiro a subir a Coura foi o quarteto canadiano composto por Taylor Kirk, Simon Trottier, Mathieu Charbonneau e Mike Wheaton, quando o sol ainda raiava. Com um público relativamente bem composto para o que costuma ser a tradicional hora de jantar, rapidamente se deixou envolver pelos acordes relaxantes dos Timber Timbre, guiados pela voz calmante de Taylor Kirk que os serenava. Maioritariamente composto por temas do último álbum Sincerely, Future Pollution, lançado este ano, o concerto contou com várias músicas deste trabalho tais como “Sewer Blues”, “Moment”, “Velvet Gloves & Spit” ou “Grifting”. A julgar pelas expressões faciais da multidão – que foi crescendo aos poucos no palco Vodafone FM, palco secundário do festival –, foi notável a evolução da atitude do público à medida que este foi descobrindo as músicas dos canadianos. Com uma postura sempre profissional e focada apenas na música, os Timber Timbre ganharam esta semana muitos novos fãs em Portugal. O ritmo da música dos canadianos arrancou, quase involuntariamente, movimento do corpo, olhos fecharam-se e espíritos foram sendo levados bem para longe dali. Para os que já conheciam a banda, os canadianos ainda tiveram tempo para fazer alguns acenos aos seus trabalhos passados com temas como “Hot Dreams” ou “Curtains?!”.

Pouco depois do final do concerto dos canadianos, mal houve tempo para recuperar do embalo porque no palco Vodafone estava prestes a começar a actuação de King Krule. O inglês Archy Ivan Marshall tem vindo a ser um dos artistas mais requisitados à organização do festival nos últimos anos, particularmente devido ao seu ritmo groovy e à sua versatilidade instrumental ímpar que mistura vários estilos e géneros muitas vezes dentro das próprias composições. King Krule é reverenciado porque, apesar de jovem, conseguiu na sua curta carreira demonstrar um poder de observação crítico sobre a (sua) vida e a sociedade que raramente se vê com a sua idade de 22 anos. Este discernimento fora do normal, que também se encontra na construção lírica e instrumental de Archy, fazem com que tenha tido uma ascensão meteórica no seio da comunidade da música alternativa, particularmente entre os seus contemporâneos.

King Krule @ Vodafone Paredes de Coura 2017

Krule acabou, inadvertidamente, por se tornar numa das caras desta nova geração que pondera sobre o seu futuro e o mundo onde se insere. Aliado do seu único álbum de longa-duração 6th Feet Beneath The Moon de 2013 enquanto King Krule – A New Place 2 Drown foi editado dois anos mais tarde mas sob a insígnia Archy Marshall -, o britânico transformou a colina do anfiteatro num espaço de partilha emocional. A lista de temas apresentados foi saltando pelas canções mais conhecidas do álbum como “A Lizard State”, “Muzak”, “Ocean Bed” ou ainda “Half Man Half”, até culminar em “Easy Easy” para fechar a atuação.

A finalizar o segundo dia de festival a eletrónica, agora densa, de Nick Murphy. O australiano, mais conhecido pelo seu antigo heterónimo Chet Faker, foi um dos mais esperados desta edição do festival. No entanto, tendo em conta a “morte” do seu alter-ego, nos dias antes da atuação, uma grande pergunta ia inquietando os corações dos seus fãs: “será que Nick Murphy irá tocar músicas de Chet Faker?” A resposta, bem como seria de esperar, foi sim e não. Em termos objetivos sim, porque tocou “1998” e “Talk Is Cheap”, dois dos seus temas mais conhecidos antes da queda do nome que o apresentou ao mundo. A resposta não vem pela forma como estes temas foram apresentados. Na verdade, todo o concerto de Nick Murphy serviu para provar que o próprio artista não só renunciou ao seu passado musical, como também tenta desesperadamente afastar-se dele o mais possível. Adotando ritmos muito mais virados para a eletrónica, a performance foi orientada para um formato que mais parecia um set do que um concerto, arrastando o fim das músicas e encadeando-as umas atrás das outras em progressão contínua. “1998”, um dos temas mais eletrónicos da fase Chet Faker, foi introduzida sem aviso e saiu da mesma forma. Talvez esta seja a única maneira para conseguir afirmar-se em nome próprio nesta nova estapa da sua vida artística. Nick Murphy é agora Nick Murphy, e não hesita em renunciar a Chet Faker.

O ambiente é mais exótico e místico do que por alturas do seu melodramático alter-ego, tendo agora ritmos mais upbeat, mergulhados em canções de estrutura uptempo hipnotizantes, em construções mais alegres e envolventes que foi do agrado da maioria da plateia, que encheu de pé toda a colina até ao topo. Os fãs mais jovens agarrados às grades, que esperavam algo mais virado para Chet Faker, poderão não ter gostado tanto do que o australiano apresentou em palco. Ainda assim, a emoção de Nick Murphy continua presente, uma emoção que é apenas agora servida de uma forma diferente. O método é distinto, tal como o homem que as interpreta, e por isso há que interiorizar esta sua nova pele. A atuação em si ainda contou com um convite surpresa, através da presença de Marcus Marr, amigo do artista com quem partilhou os acordes do tema “The Trouble With Us”, ainda em 2015. No fim do concerto, altura mais emocional do encontro, foi dos poucos momentos de sintonia entre artista e seu público, com a interpretação de “Stop Me (Stop You)” às escuras, com a plateia a usar as suas lanternas para criar um ambiente mágico.

Na sexta-feira, as emoções ficaram mais ao rubro com o concerto dos Beach House. As primeiras emoções foram mais negativas porque a banda, em virtude de problemas técnicos, atrasou o início do seu concerto em cerca de meia hora. Depois do concerto se ter iniciado com “Levitation”, do icónico álbum Depression Cherry de 2015, os ânimos ficaram de imediato mais folgados. O que se seguiu foi uma viagem na dreampop suave e cautelosa que constrói a carreira do duo composto por Victoria Legrand e Alex Scally na qual todos os álbuns foram representados com a exceção de Devotion de 2008. O álbum que esteve em maior destaque foi mesmo Depression Cherry, com Teen Dream de 2010 a ficar por pouco atrás.

Este concerto de Beach House foi um pouco em sentido contrário àquilo que tinham sido os concertos da banda até então. Enquanto a maior parte dos artistas se decidiu por valorizar a experiência visual dos concertos, o duo de Baltimore preferiu que a sua música tratasse do espetáculo. Com os jogos de luzes desligados durante a maioria da atuação, e estando a pouca luminosidade que se encontrava no palco a emanar da parte de trás do palco e dos dois artistas, ficou difícil para quem não estava na frente do palco conseguir observar o que estava a acontecer em cima do estrado. Reservados e interagindo pouco com a multidão, o duo foi encaixando tema atrás de tema, numa osmose que retirou o recinto de Paredes de Coura da Terra e o enviou direto às estrelas. Essa viagem passou por músicas como “Space Song”, “Wishes”, “Walk In The Park” e “PPP”, culminando nos seus maiores sucessos contidos em “Sparks” e “Myth”, que fecharam o concerto. Pelo caminho, ficaram acenos aos outros álbuns da banda com a interpretação de temas como “Master Of None”, do álbum Beach House de 2006, ou a mais recente “Elegy To The Void”, de Thank Your Lucky Stars de 2015.

No último dia de festival foi a vez de Benjamin Clementine aquecer os corações em Paredes de Coura. Num dia completamente esgotado, foi um Clementine sóbrio e tímido que tomou o palco no início da noite, sem saber ainda que grande parte desta multidão tinha vindo precisamente para o ver. Ao ritmo de “By The Ports of Europe”, Clementine foi embalando aos poucos o público de Coura que se agarrou a cada sílaba e a cada acorde do londrino. Fortemente politizado, os temas de Clementine puxam por sentimentos e emoções diferentes dos romantizados e busca, através da sua música, acordar os espíritos para os horrores que estão a acontecer mesmo à nossa frente, como é possível ouvir em “Phantom of Aleppoville” ou “God Save The Jungle”, referente à “selva” de Calais, França, onde se encontravam milhares de refugiados que tentavam entrar no Reino Unido. Durante o concerto, um Clementine incrédulo com o amor que estava a receber do público, retribuiu da melhor forma que sabe: através da sua voz. E que voz. Entre cada nota, a emoção transpirava e transparecia, entoando cânticos como “I Won’t Complain, Condolence” ou “Jupiter” que não deixaram a multidão imune. Para terminar o que foi um concerto relativamente curto em quantidade mas cheio de qualidade, Clementine despediu-se com “Adios”.

Benjamin Clementine @ Vodafone Paredes de Coura 2017

Não é necessário um enorme aparato para encantar o povo courense: por vezes, um artista e um instrumento chegam. Em Paredes de Coura, vive-se de genuinidade. O mais importante é, e sempre será, a emoção e as sensações que se transmitidas de artista para a plateia. É isto que o público deseja, e é para isso que a música serve.