Pega Monstro - Alfarroba
85%Overall Score

Um dos processos naturais à entrada da juventude adulta é precisamente a reminiscência. A lembrança de um passado recente de uma vida que por fim ainda se vê curta nos anais do Tempo. Boas ou más, doces ou amargas, as memorias de brincadeiras de rua, o primeiro cigarro em jovem, as férias com os pais ou os namoricos de criança, surgem sempre naquela fase da vida em que lentamente nos sentimos desprendidos da bolha do faz de conta para virmos dar com a nossa posição no mundo das responsabilidades e dos problemas.

Esta introdução à vida mais formatada e cinzenta origina este tipo de lembrança, mais onírica e nebulosa, uma “tristeza magnífica”, alegre de ainda poder recordar, com pouca distância temporal, os primeiros tempos na Terra, os triunfos e as desilusões e toda a inocência que abrange as primeiras duas décadas de qualquer pessoa. Entre a memória de velhos animais de estimação e a homenagem às viagens ao Algarve com os pais (no título do novo disco), o rock lo-fi e sonhador das Pega Monstro é, senão, a recriação sónica de um espírito jovem de tom muito específico sempre ciente da sua brevidade.

Com o primeiro disco, as irmãs Maria, de 21 anos, e Júlia, de 23, já tinham cristalizado estas sensações de tão volátil e poderosa natureza, e se Pega Monstro já era uma fiel e genuína documentação de uma jovem geração portuguesa em ponto de ebulição (como, aliás, todo o espólio da editora Cafetra), Alfarroba, lançado pela londrina Upset The Rhythm, traz-nos precisamente o mesmo, num esforço mais coeso, corpóreo e focado. A configuração é intacta: Maria na guitarra, Júlia na bateria e uma torrente de rock jovem, despretensioso e sem medo de emoção. Rock a sério, portanto.

Para a sua segunda salva, as Pega Monstro lançaram algo fisicamente sólido, uma encomenda bem embalada, sem buracos nem fissuras. As canções de Alfarroba sabem a nexo e intenção, são directas e fazem do disco uma viagem mais concreta. Isto ao invés da estrutura mais desorganizada do seu antecessor, que sendo uma brilhante demonstração de poder, parecia estar ligado por fita-cola aleatoriamente administrada. Até aqui tudo bem, uma evolução costumeiramente encontrada nas bandas rock. Contudo, a forma como não se corrompeu nem um pouco a estética e a textura da banda é o grande mérito aqui.

Alfarroba é também veloz, intenso e tão autenticamente sensível quanto agressivo. É aquilo que esperávamos das irmãs Reis numa forma mais eficaz e letal (sem estar necessariamente mais polida) e se isso se conseguiu ouvir nas previamente reveladas “Branca” e “Braço de Ferro”, o resto do disco continua a colocar-nos no ponto. De um lado, conseguimos ver a melodia escondida por debaixo da distorção e da produção rasgada de “Não Consegues”, que a certo ponto pisca o olho aos momentos mais altos do shoegaze inglês. Por outro, estamos a ser arrastados por uma corrente de sludge em “Estrada”, canção que faz jus ao seu nome, já que eventualmente se prolonga e evolui para uma carreira de riffs de guitarra e bateria altamente velozes. Quando damos por ela, já vamos embalados pela estaleca das manas lisboetas.

Por muito lugar comum que seja dizer isto em bandas numa configuração de duo, a verdade é que as Pega Monstro são uma grande demonstração de simbiose sónica. O som que as duas fazem com os seus instrumentos é barulhento e carregado de energias. Uma canção das Pega Monstro é indubitavelmente uma canção das Pega Monstro. O cunho de personalidade pode ainda não lhes permitir que as canções se distingam tanto umas das outras como seria ideal, mas o espírito e postura não dão muito espaço para dúvidas.

Não obstante, Alfarroba apresenta algumas tentativas de oferecer experiências destacadas. Aponte-se para a balada “És Tudo o Que Eu Queria”, com o seu teclado tristonho a aliar-se às confissões aqui retratadas. Ou então “Fado d’Água Fria”, com a sua melodia de beco escuro e tom fantasmagórico, a sugerir a matreirice de quem “não dá fio à meada”, como canta a Maria desta canção.

Fantástica continua a maneira como se aborda o conteúdo lírico, que se apresenta de uma intimidade e especificidade desconcertante. O disco bate-se essencialmente com a recordação, o saudosismo e uma melancolia de quem ainda tem muito para viver pela frente. Encontra também o travo amargo do desgosto e da desilusão, no amor e noutras expectativas e trata tudo isto com uma sensibilidade tão própria que só pode ser autêntica. A forma como o conteúdo é apresentado é profundamente pessoal, mas nunca intrusiva.

Somos apresentados com momentos íntimos, alheios à nossa pessoa, tão específicos que não dão hipóteses se não canalizarem, paradoxalmente, emoções e sentimentos frágeis e universais protegidos pelas guturais paredes de som que abafam a voz que se ouve. O disco É sobre estas duas pessoas que o estiveram a gravar. Não é bem para se discernir todas as palavras que são cantadas. Com certeza não é para se interpretar à luz de deliberações filosóficas e jogos de palavras. Estas memórias e situações não são as nossas, mas são reais e há algo aqui que nos conecta com elas. Nem que por vezes, a conexão não passe dos sugestivos títulos dos temas.

Seja em entregas fugazes e ritmadas como “Fiz Esta Canção” ou no punk mais exploratório e viajante de “Amêndoa Amarga”, a voz e o espírito das Pega Monstro são reais e palpáveis e surgem visivelmente sem esforço por tão verdadeiro que é o seu som. A música destas duas raparigas é tocada e foi vivida a sério. Aquele “melhor amigo” em “És Tudo o que Eu Queria”, realmente era-o naquele ponto. Esta demonstração tão simplista e catártica de sensação e a forma como foi descoberta e registada merece todo o respeito e admiração e faz de Alfarroba um excelente álbum rock. Não é sonicamente sublime, nem tem de o ser. O segredo está na postura (ou na falta dela, se forem daqueles que não aliam o dito conceito a ser genuíno).

Jovem, sentido, marcado e aluado do futuro, assim é o segundo disco de uma banda punk que tem uma sensibilidade pop preciosa e uma vontade sedenta de continuar a fazer barulho. Características que certamente auxiliarão a encher o espaço de crescimento que as duas irmãs demonstram. Tudo isto é efémero e intenso, contudo, e por enquanto, deixemo-nos assim jovens, descuidados e reminiscentes, de cabelos suados e palmas surradas. Enquanto houver umas Pega Monstro a tocar desta forma, está tudo fixe, fixe.

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