Se o cariz da festividade do chamado “S. Valentim” é ou não legítimo, já não é uma questão que valha a pena a atenção. Passa-se à frente a redundância. Há quem goste, há quem faça questão de boicotar propositadamente. Não interessa realmente, o que é importante é que haja sempre amor para dar, seja quando e em que condições for. Quer isso possa ser amoroso ou não (depende do ponto de vista), o 14 de fevereiro deste ano apresentou-se extremamente ventoso, fresco e ainda se muniu de uma quantidade assinável de pluviosidade, portanto, se alguma coisa, tornou a já simpática Zé dos Bois num belo lugar de resguardo e descanso, para acompanhados ou singulares.

Éme e Pega Monstro também pararam por lá para encontrar abrigo e o pequeno temporal que se gerou conferiu um encanto bastante específico ao fim de tarde que ocorreu na notória galeria do Bairro Alto e acentuou ainda mais o carácter comunitário que estes espectáculos curados pela editora Cafetra inerentemente já têm. Ao bom estilo do liceu, vimos reunidas antes da hora do jantar duas actuações calorosas de um jovem e cada vez mais habilidoso cantor e um duo rock cheio de postura, que regressou neste dia a Lisboa para a última data de uma tour internacional maioritariamente pela Europa central.

Coube então a João Marcelo, nome cristão de Éme, inaugurar as cantorias. Pontual, bem vestido, descontraído e acompanhado do que parecia ser o sempre bem-vindo whiskey, voltamos a encontrar mais uma performance vívida, carismática e intimista do cantor. Notando a sua guitarra algo desafinada para o seu ouvido, Éme iniciou-se no concerto com uma sessão de afinação ao vivo, que entre pedidos de desculpa sorridentes de orelha a orelha e típicas piadolas, serviu para alertar à plateia a importância de se ser um músico com brio. Um momento genuinamente engraçado que imediatamente põe a plateia no clima certo para receber o imaginário adocicado do dito artista, sempre cantado com uma tão acolhedora e talentosa voz.

‘Pá, desculpem lá, eu não ando em digressões no estrangeiro, tenho só ficado em casa a ver séries” – Para quem tem estado a acompanhar as mais recentes tendências da ficção televisiva, Éme entregou a quem o foi ver um alinhamento relativamente fresco e repleto de novos temas. Entre as ainda novinhas “Puxa a Patinha” e “Buraquinho”, houve tempo para algumas das suas prendas pop mais conhecidas como a sempre carismática “Lisa” (com a voz do teclado a ser aqui a voz de rouxinol do músico, desta feita sozinho em palco) e a tão celebrada “Um Lugar”. Alguns momentos providenciais d’O Último Siso foram deixados de lado a favor da novidade, algo que de qualquer maneira acabou por trazer uma aura diferente e especial por nos colocar a explorar e descobrir o que este rapaz tem andado a fazer.

Muito mais baseado na guitarra a solo do que no esforço mais “artista com banda” do último disco, Éme continua airoso e jovial com as suas canções. O seu universo lírico continua a soar deliciosamente agridoce quando não é meloso e bem humorado, embalado sempre com o toque de juventude reminiscente (“lembras-te de ir a pé de Roma à Sé“, canta numa canção) que tão encantadora fica na sua voz. Consegue-se, contudo discernir uma nova maturidade, quer seja no assunto dos cantares, quer na cada vez mais refinada destreza e imaginação com que organiza os seus versos e constrói os seus temas (é importante referir para a proeza que é uma música como “Buraquinho”),

Agora vou tocar uma triste, por isso se houver namorados, desculpem“, diz antes de tocar “Partilhar a Vida”, música que encerra o seu segundo disco e tocada ao sabor da chuva que caía do outro lado da janela do aquário. Muito do carisma do espectáculo de Éme encontra-se na sua própria habilidade em ser anfitrião. Quer esteja a contar uma das suas intermitentes piadas ou a olhar por vezes virado para o infinito e desviado do público enquanto canta, o que a plateia tem em palco é uma presença simpática e cálida que sempre sabe como, mais que receber, acolher. Acabado o whiskey, dá-se um até já e introduz-se o espectáculo das amigas que estará para começar breve. Pode portanto voltar às suas séries. Valeu…

Pouco depois é então hora de subirem ao palco as irmãs Reis, que escolheram a Zé dos Bois para terminar a tour de Janeiro/Fevereiro. Assiduamente presentes nos palcos portugueses desde o lançamento de Alfarroba, as Pega Monstro têm vindo muito progressivamente a crescer com o álbum e a levá-lo a crescer com elas. Começa a ser notável com estas músicas, algumas bem simples por natureza, têm vindo a mudar e evoluir num espectáculo ao vivo que vai ficando cada vez mais refinado. Esta tarde na Galeria foi provavelmente o concerto mais polido que já vimos delas. O esforço e a aprendizagem são notórios na crescente perícia das duas músicas.

E se abrir com a “Braço de Ferro não foi de todo um move surpreendente, a abordagem epicamente musculada e intensa, principalmente por parte da dona do kit, Júlia Reis, foi suficientemente forte para deixar algumas bocas abertas em dois minutos de concerto. Embaladas num volume entorpecente e num ritmo vertiginosamente elevado, as manas lançaram-se à canção de abertura com atitude e robustez, com cada tempo rigorosamente acertado e cada riff cirurgicamente entregue.

A partir daqui seguiram-se os já adorados momentos como a celestial intro em uníssono de “Não Consegues” e a cerimoniosa versão de “Responso Para Maridos Transviados”, que no set tem uma função deliciosa de “momento para respirar” que se infiltra de forma ligeira e esguia no meio de uma hora de reverb e distorção em volumes verdadeiramente assertivos. E o silêncio sepulcral que se sentiu na plateia durante toda a sua duração realmente ajudou a inflacionar o tamanho e escala do tema.

Em relação a novidades no espectáculo ao vivo, vimos aqui umas Pega Monstro bastante confiantes e verdadeiramente donas das possibilidades que as suas músicas e a panóplia de efeitos lhes põem ao dispor. Imensos e hábeis jogos de voz que acentuam ainda mais a nébula emaranhada do garage sonhador dos seus discos, e a criação de novas secções e variações rítmicas que incutem novas e expansivas dinâmicas que por vezes lançam o duo para um bem recebido formato de jam band. Isto é especialmente bom de se ver, pois aumenta o valor de repetição destas músicas e destes concertos com a antecipação de se encontrar algo novo numa cara de resto conhecida.

Prova disso foi a versão desta tarde de “Alfarroba”, que especialmente alongada, foi tratada com especial ambição, completa com numerosas secções diferentes que muito lentamente se transformavam nas mais variadas surpresas eléctricas sempre a viver de uma velocidade e vertigem radicais. Desde o prog ao shoegaze e sempre sob a marcha imperial do punk, nunca o imaginário algarvio se sentiu como uma viagem tão espacial como aqui.

Entretanto, e tal como o amigo Éme antes, houve uma boa dose do set dedicado a uma mão quase cheia de novos temas. Uns mais sucintos e straight foward, outros mais intensos, pesados e exploratórios, na linha do que se tem visto no novo disco. Podemos certamente esperar viagens mais ambiciosas por parte de Maria e Júlia Reis, que ainda que mantendo a sua cativante atitude simplista, não se têm coibido de tomar abordagens sucessivamente mais complexas, com estruturas mais intricadas e espaçadas para a improvisação, fruto provável de uma nova estaleca de estrada e experimentação.

A energia visivelmente mais confiante que produziram foi suficiente para ser combustível para um intenso moshe que praticamente não pausou, e o espírito e dedicação foram imediatamente verificáveis nas energias e e decibéis que libertaram no pequeno aquário. Principalmente apelativo pela já conhecida atitude das duas músicas em palco e pela boa dose de novidade e experimentação, este espectáculo foi um bom lembrete para estarmos atentos ao que aí pode vir deste duo e acima de tudo, um grande momento de rock vivo e aguerrido. Ainda tivemos direito a uma introdução valorosa de um Éme em forma a ajudar a provar a teoria de que a juventude está mesmo em altas. E isto tudo antes de ir comer.

Confere as imagens das manas Reis, a Júlia e a Maria no palco da ZdB aqui em baixo. E do companheiro Éme aqui.

Pega Monstro @ ZDB

Pega Monstro @ ZDB