Quando no verão de 2007 se começaram a ouvir os primeiros acordes vindos de Braga, os peixe:avião vinham com o selo de ‘Radiohead portugueses’. Quase 10 anos depois esse selo disseminou-se e é no auditório da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto que mostram como cresceram e como soa Peso Morto, o seu mais recente longa duração. A reduzida iluminação e a mancha sonora formada após a entrada da banda em palco fez antever uma actuação expectante e enigmática que se expandiu por melodias diluídas.

A abertura com “Fénix” afirmou a misticidade através das batidas secas da bateria em diálogo com as melodias repetidas em loop de sintetizador, acompanhadas por esporádicos acordes distorcidos. Sempre conduzidos por projecções cinematográficas, os temas ganhavam uma sinestesia própria. Espelhavam-se como bandas sonoras de filmes não planeados que reivindicavam o quotidiano e a sua repercussão. Uma poesia imagética, habilitada a ilustrar as letras abstractas e contemplativas do quinteto.

“Torto” e “Quebra” deram a conhecer uma voz desfocada, embargada muitas vezes  pelos potentes instrumentais, que se mantinham sincronizados com as projecções de movimentos imutáveis, que continuavam a hipnotizar o público. De passagem pelo disco homónimo, “Pele e Osso” apresentou-se numa tónica mais crua, despoletada por distorções auditivas e visuais, transmissões transcendentes capazes de questionar em que dimensão o concerto tomava forma. A viagem electrónica aprimorada por interferências e percussões continuou com temas como “Nevoeiro”, “Torres de Papel” ou “Peso Morto”, com frásicas bem demarcadas e deslocações rítmicas temperadas em vários tons. Os decibéis foram traduzidos sobre ritmos em contra tempo descontínuos, que retratavam o dinamismo das composições.

Para o encore ficaram guardadas “Espirais” e “Prismas”. Enquanto a primeira se expressou num potente instrumental em batidas sincopadas com sons varridos por efeitos de sintetizador, a segunda manifestou-se aguerrida, capaz de manter um perfeita simetria  entre movimento e continuidade. Os rastos de luz lançados nas projecções fizeram prolongar a difusão dos sons, que se afirmaram intensos e pulsantes numa ambiência introspectiva.

A banda bracarense demonstrou a sua grande capacidade em se reinventar, não só a nível musical, enveredando por uma sonoridade minimal baseada essencialmente no experimentalismo, mas também a nível cénico, onde todos os elementos se orientam para um centro comum e dispõem de uma componente visual altamente envolvente.

A fotogaleria de Marcelo Baptista aqui:

peixe : avião @ Auditório FEUP