Escrevi esta música na casa de banho. Numa casa de banho qualquer, daquelas onde as pessoas escrevem coisas indecentes, como pénis, ou assim. Ali estava eu, sentado, podem imaginar o que o que estava a fazer, embora também me sente muitas vezes para urinar. É então que leio, na porta, mesmo à frente do meu nariz: “Provavelmente, és estúpido”, e pensei, “Ahhhh, isso é injusto!” Fui buscar um marcador preto e escrevi por baixo: “Mas és bonito à mesma”.

Isto foi dito à entrada para o encore. Apresentando “Everything I Know”, a pedido de alguém do público (a música, não a história da sua criação) e prossegue “It’s true but it’s incomplete, I grab my pen and try to be discreet, another one of my little battles, that just ended in defeat”. Isto poderia dizer muito de Peter Broderick. Nomeadamente, da humildade. Que, por esta altura, já deveria ser menor. Este era um daqueles que teria desculpa para ter, pelo menos, alguma mania. Não muita. Só uma pitada, daquelas que apimenta uma figura, tornando-a enigmática, mesmo que não seja. Não aquela soberba das grandes estrelas, que as torna apenas vulgares. Não tem. É só um compositor virtuoso, multi-instrumentalista que gosta de fazer música. Que faça. Muita. O relativo anonimato não durará muito mais. Não pode. Seria uma estupidez. Daquelas que nem a beleza desculpa!

Só se fala de anonimato (e é difícil de acreditar, agora que o concerto terminou), porque esse se revelou de uma forma manifesta: Seria de esperar muito mais da seguinte equação: Concerto + Peter Broderick + Sábado à Noite + Cais do Sodré = €10. Não chegou. Faziam pouco mais de uma centena aqueles que se chegaram à frente, ainda assim com muito espaço, para interagir com o homem, num dos concertos mais intimistas a que Lisboa pôde assistir nos últimos tempos (e que por isso possibilitou momentos como o que abre esta peça). Talvez não seja anonimato nenhum e a malta queira apenas uma coisa mais “mexida” para uma noite de sábado. Talvez o conheçam da formação dos Efterklang e não seja o que lhes apetece. Talvez tenham visto uns vídeos no Youtube e o achem enfadonho. Talvez ninguém queira ser surpreendido. Talvez.

Sumie, encarregue da “Primeira Parte”, assim, entre aspas porque quatro temas não poderão ser considerados Primeira Parte, foi a responsável por dar a ambiência que se queria. A candura. É a palavra. Uma voz com o timbre da Russian Red mas com muito, muito mais alma, começou a encher o espaço às 23h50, hora marcada para o início do espectáculo. Uma guitarra e uma menina. Já não o será, mas preferimos que aquela figura de cabelos pretos, traços remotamente nipónicos, a cantar-nos um imaginário romântico viking ou haiku de uma outra Suécia e/ou Japão (serão assim tão diferentes?), seja o que se sente aqui. E a sala, já composta, vai lentamente deixando cair o burburinho. É a primeira vez que vem a Portugal. Mas o seu único álbum (tem dois EP’s) foi editado em 2012 pela Bella Union. Ou seja, outra ilustre injustamente desconhecida. Será? Por entre coisas como “Let’s get lost and follow the train, our unknown marks”, Sukie Nagano (irmã de Yukimi Nagano, das Little Dragon), deixa que os mais expectantes fiquem em transe induzida; há gente que fecha os olhos, outros estão apenas contemplativos. Ela também não esconde a sua admiração: “Um público tão sossegado a um Sábado à noite? Obrigado!”. Depois de “Speed Into”, Peter Broderick sobe discretamente ao palco, tira o casaco e o cachecol e faz os coros de “Hunting The Sky”. Para o último tema, empresta o violino a “Never Wanted To Be” e fecha-se com aquela chave de ouro sobre o azul que sabemos vir já a seguir.

Não demora muito até que Broderick esteja outra vez em palco. Bate no micro e usa a rack para dar o ritmo em loop, faz o mesmo com umas notas de violino, que sobrepõe, prova em poucos segundos que é mesmo ele, no mesmo lugar onde tinha estado em 2009, pára repentinamente e fala da dificuldade que foi em estacionar porque “Isto está tudo diferente”. Ele também: entra a banda. Não estamos habituados a isto. São mais três tipos, um baixo, um guitarra solo e um baterista, que ele apresenta como sendo O Polvo. Percebe-se, pouco depois, porquê. Mas para já, Peter Broderick explica a este palco tão composto de gente: “Hoje tenho alguns amigos comigo. Nos últimos sete ou oito anos tenho andado em tourné sozinho, mas agora gravámos um disco em Maio, que sairá no próximo ano e vamos tocar muitas músicas novas”. Novas? Isto é todo um outro Broderick, como se toda a genialidade como compositor, que sempre lá esteve, não tivesse mais suportado ficar encerrada. E toda a necessidade de ultrapassar fronteiras, de dar o salto, está aqui, hoje, agora. Há jazz, soul, a folk de sempre mas extrapolada, momentos de êxtase nas vocalizações, há intensidade, muita. Chega a deixar a banda a engendrar o ritmo que dará o mote ao próximo tema e, depois de acender um cigarro, desce do palco para vir dançar com o público. Broderick está um homem novo, abriu uma nova página, deixou de ser aquele homem de olhar grave, sério (ou só concentrado?), dá-nos ritmos quentes, detalhes preciosos de paragens a meio dos temas para os retomar com mestria quase orquestral, deixa o teclado, a guitarra ou o violino que domina e opta por uma espécie de jam session com uma baqueta numa tampa de tacho (e nos pratos d’O Polvo); o loop é agora o público, num jazzístico “All Colors Of The Night Turn Every Darkness Into Light”. Tudo é demasiado intenso para a descontracção dele, que explica: “Hoje estamos muito felizes porque tivemos uma das melhores refeições das nossas vidas. Era bacalhau mas acho que tinha natas”, alguém o esclarece quanto ao nome “técnico” do prato e obtém um quase emocionado: “That’s the shiiiiit”, acrescentando: “se notarem que estamos a sorrir mais do que é costume, é essa a razão”, depois olha para as suas próprias projecções nas paredes e diz: “É estranho estarmos a ver o nosso próprio concerto” e faz poses, escolhe o seu melhor perfil. E canta. E toca. Muito. Afinal, é o bom e velho Peter Broderick. Está só crescido, o nosso menino.

Ao início, era quase inacreditável estarmos diante do mesmo compositor, afecto aos adros de igreja, às pianolas de saloon às quais emprestava um lirismo chopinesco (sim, não existe, mas queria dizer-se relativo a Chopin), sempre com aqueles ventos da Oregon natal em volta, o dramatismo das paisagens de uma América que já era e que ele parecia querer resgatar na sua mais profunda essência, desconhecida até pelos próprios americanos. É tudo muito maior, aqui e agora. É uma ideia reforçada pela personagem em que, sabemos agora, se tornou. Ninguém diz “Sim, Mestre”, mas fazem-no de uma maneira muito mais intensa: Ouvem-no. Retorna aos clássicos, como “Notes in My Ear” ou “Below It” (os coros que a banda, sem tocar qualquer instrumento, fica para fazer, chegariam para tornar este um concerto histórico), mas este Peter Broderick nunca mais será como o outro. E no entanto, regressa para um encore onde conta a tal história da criação de um belíssimo tema do http://www.itstartshear.com, disco com uma humilde projecção, durante um dos mais íntimos momentos de apelo fisiológico. Continua a ser humildíssimo, mas tem 15 discos gravados, numa rara urgência criativa. Continua a ser um homem simples, mas continua a tocar piano, guitarra, violino, banjo, serrote, bandolim. Continua a tocar, ponto. E continuará, para bem de todos nós. Mas agora, nada será igual. Ou seja, tudo ficará na mesma. Bem. Porque temos Peter Broderick. Que há-de voltar. Numa sala maior, espera-se. À sua humilde dimensão, portanto. Sim, porque Peter Broderick é grande. A malta é que anda a dormir. Mesmo a um sábado à noite!