Pillars And Tongues - End-dances
85%Overall Score

Pensem em 4AD vs. Real World. Se isto vos diz alguma coisa e até vos desperta as antenas, então é sinal que compreenderão e muito provavelmente apreciarão a música dos Pillars And Tongues. O bilhete de identidade diz Chicago, mas a música que o trio de Mark Trecka (voz/teclados), Beth Remis (voz/violino) e Ben Babbitt (baixo) nos traz, podia provir de qualquer lado do mundo, dada a universalidade sonora e paisagens que evoca. Desde o início que o projecto do homem do leme Mark Trecka se caracterizou por uma proximidade íntima a linguagens maioritariamente ambientais de cariz experimental. Protection, o álbum de estreia de 2008, era constituído por 4 faixas apenas, no qual todas, excepto a primeira, tinham uma duração de cerca de 14 minutos.

A identidade estava criada: temas, de um modo geral longos, esparsos, onde não há pressas para exteriorizar a apreciação pelos diferentes momentos que se sucedem progressivamente ao longo da composição. Momentos que, no início, fluíam num tapete sonoro de camadas ambientais compostas essencialmente de drones de violino e órgão ou harmónio, em que a presença de percussão era escassa, mas que mais tarde foram introduzindo mais frequentemente elementos percussivos acústicos e/ou electrónicos, repetindo-se em loops contínuos numa cadência lenta e compassada. Esta é a base de construção da maioria das peças musicais mais recentes da banda, completada instrumentalmente pelo baixo de Babbitt. Sobre este ensemble, a voz grave e segura de Mark Trecka, navega como se apenas de outro instrumento se tratasse, lembrando, em tom e presença – mas também na languidez – a mítica voz da metade dos Dead Can Dance, Brendan Perry.

Os pontos de ligação à legendária banda porta-bandeira da 4AD não terminam, aliás, por aqui. Ambientes calmos, meditativos, por vezes luminosos, mas na maioria das vezes melancólicos e obscuros, caracterizam as duas bandas. Ritmos hipnóticos que bebem em tradições tribais e ritualísticas, vozes por vezes marcadas, declamatórias, soturnas; outras, planantes, etéreas, viscerais – tudo elementos comuns aos dois universos musicais, mas ao mesmo tempo os mesmos que prontamente os distingue. Paralelismos à parte, o que resulta da conjugação dos elementos na música dos Pillars And Tongues são sublimes composições intemporais que transportam consigo a imponência dos espaços abertos – dos desertos aos oceanos, das montanhas às grandes planícies. Espaços de reflexão e contemplação que convidam à viagem, o que não será de todo estranho dado o espírito “viajante” da banda. Após a sua formação, o trio (na altura com o baixista Evan Hydzik no lugar de Ben Babbitt) percorreu muito do território norte-americano, executando música preparada ou improvisada, adaptando-se aos mais diferentes ambientes, como parques, caves e templos, e passando tempo no deserto e nas planícies – tudo ambientes que terão ajudado a moldar a música em criação, carregando-a de impressionismo contemplativo e cinematográfico.

End-dances, recentemente editado, traz-nos tudo isto. Ao quarto álbum (a enumeração pode variar, conforme se considere ou não outras edições de formato alternativo ou indefinido pelo meio), os Pillars And Tongues reúnem, apropriadamente, os seus pilares de construção e as suas linguagens expressivas num conjunto de canções que tanto balançam para as suas origens mais experimentais e ambientais, como para uma expressão mais aproximada a um formato pop de vertente folk, que vinha sendo progressivamente aflorado nos trabalhos anteriores, mas de uma forma mais evidente no mini-álbum If Travel Is Asked Of Me, de 2012, disponibilizado apenas em cassete e para download, que reunia dois novos e magníficos instrumentais e versões retrabalhadas de 3 faixas do álbum editado no ano anterior, The Pass and Crossings. Estas remisturas tiveram o forte contributo do então novo membro da banda, Ben Babbitt, que já tinha participado com percussão adicional nesse mesmo trabalho. Babbitt parece, aliás, ter um papel fundamental na evolução recente do som da banda a todos os níveis, tocando não só baixo e percussão, mas participando também ao nível da gravação e mistura.

End-dances segue no sentido lógico indiciado por If Travel Is Asked of Me, em que a percussão adquire maior protagonismo e a melodia maior expressão. Algumas faixas apresentam pela primeira vez perfil para single, com durações mais comedidas e refrões fortes, como são os casos do tema de abertura do álbum, “Knifelike” e “Points of Light”, precisamente as escolhidas para videoclips de promoção do disco. Juntamente com essas faixas, “Dogs” e “Bell + Rein” perfazem a primeira parte do álbum, que poderá ser considerada a mais “acessível”, de um ponto de vista pop. “Dogs”, uma das canções mais bonitas e contemplativas de todo o repertório da banda, representa talvez o lado mais neo-folk dos Pillars And Tongues, trazendo à memória ambientes como os de Joni Mitchell no fabuloso e muitas vezes injustamente esquecido Night Ride Home. Em conformidade com a linha de construção que lhes é característica, existem células constituídas por sons electrónicos e/ou percussão que conjuntamente com uma linha de baixo, se repetem ao longo de quase toda a faixa, impondo o tal ritmo lânguido e encantatório ao qual um violino melancólico e o entrecruzamento harmonioso das vozes de Trecka e Remis (Babbitt também contribui nos coros) acrescentam a alma. E é uma alma que viaja, que vê o mundo com olhos de quem absorve tudo e de quem detecta a beleza dos mínimos pormenores. E que chora. Mas com esperança. “Dogs” é tudo isto. Mas também End-dances, no geral.

A primeira parte de “Bell + Rein”, sendo o momento que maior reflexo encontra nas águas mais calmas dos Dead Can Dance, é também a primeira a recuperar os ambientes mais presentes em álbuns anteriores, principalmente em The Pass And Crossings. Mas as origens da sonoridade da banda fazem-se representar mais declaradamente nas 3 faixas seguintes: “Medora”, “Travel” e “Ends”, das quais a primeira é precisamente uma re-interpretação de um tema que fazia parte do alinhamento de uma primeira edição de autor de Protection, e a terceira um instrumental que poderia bem fazer. “Travel” é mais uma composição longa e meditativa, inquieta de início, mas serena posteriormente, em que apenas voz, baixo e violino trazem cor aos devaneios líricos de Mark Trecka, que descrevem a incerteza dos lugares e a subjectividade das emoções. Aliás, o lirismo poético e exacerbado das palavras de Trecka, transposto para melodias de notas longas e espaçadas, liberta-nos das amarras dos significados, permitindo-nos a viagem personalizada em tapete das mil e uma noites pelos sons, que por si só, são capazes de saciar a fantasia das mentes férteis. A terminar: a luz. “Ships” encerra o álbum em tom de optimismo e esperança. “Let it in, touch gold at the center / Let it in, let the center be touched forever / Let it in, and find us touching our centers together”. A celebração de uma consciência universal do poder das ligações humanas e de uma esperança e confiança no futuro das mentalidades, cantada em palavras ditas ao alto e dançada em cânticos tribais, faria as delícias de Peter Gabriel, na sua visão pacifista dos povos da Terra.

Chegados a 2013, os Pillars And Tongues alcançam um patamar de maioridade sonora e criativa, revelando ao mundo um álbum magnífico, de produção cuidada e meticulosa, que demonstra uma evolução também a nível técnico – de arranjos e mistura -, conseguindo uma justaposição perfeitamente equilibrada e irrepreensível entre os diferentes elementos, que nos permite uma percepção clara e individual de cada um deles. End-dances representa o culminar de um repertório de excelência à partida. Mark Trecka e a sua pequena trupe vêm, desde 2007, a trilhar um caminho coerente de busca de um ideal musical muito próprio, universal e intemporal, numa viagem que vai dando os frutos pretendidos, com uma maturidade surpreendente. Não é um caminho de facilitismos para quem se decide a ouvi-los mas, com a paciência de quem gosta de desafios musicais, é certamente um caminho repleto de recompensas e retribuição para quem se decide a segui-los.