PJ Harvey - The Hope Six Demolition Project
80%Overall Score

PJ Harvey voltou com lúcida esperança de artista crítica

Lançado na última sexta-feira, The Hope Six Demolition Project é o novo álbum da consagrada PJ Harvey (que virá ao NOS Primavera Sound), uma pessoa exemplar do que é ser excelente artista: ao longo das últimas três décadas, tem sido competente na escrita, na composição e na interpretação – o que lhe valeu também muitos convites para colaborações -, e ainda por cima é dotada com um carismático belíssimo rosto que agradou a vários fotógrafos e directores do audiovisual. Polly Jean Harvey é também um símbolo do autónomo e independente feminismo contemporâneo que emergiu nos anos 90 e que transcendeu muito o inócuo girl power espalhafatoso das Spice Girls. E é por isso que a madura PJ Harvey, aos 46 anos, merece que ouçamos atentamente cada novo disco dela, mesmo que já não possa receber os destaques de the next best thing.

O que é o The Hope Six Demolition Project?

À partida, o novo álbum é o resultado artístico da reflexão que PJ Harvey fez sobre viagens a Washington e ao Afeganistão, base da Al-Qaeda e ao Kosovo, na companhia do foto-jornalista Seamus Murphy. Já foi escrito que é a expansão aprofundada de Let England Shake, aplicando a crítica geopolítica também aos Estados Unidos da América, ao “polícia do mundo” com dispendiosas dezenas de bases militares espalhadas pelo planeta e indutor de quase tantos conflitos armados, mas com pobreza demasiado volumosa para o país com a economia que mais dinheiro gera. Talvez por isso Polly Jean – que despontou no rescaldo da invasão Tempestade no Deserto no Iraque e durante o genocida fim da Jugoslávia, do qual emergiu o narco estado do Kosovo -, tenha decidido na juventude adiar a expressão artística das suas convicções sócio-políticas após ter expressado as suas convicções íntimas, mas também após ter enriquecido e sobretudo ter atingido maturidade e prestígio imunes a menosprezo e certas pressões e censuras… E para confirmar que a intervenção política é uma antiga vontade da artista, a Pitchfork recordou uma entrevista da britânica em 1992, na qual ela confessa:

Sinto-me desconfortável comigo própria neste momento, porque sinto que estou a negligenciar aquele âmbito, não estou suficientemente atenta a esses assuntos.

O próprio Hope do título do álbum é um programa americano de habitação social pública que sempre gerou muita polémica e por isso pôde ser conceptualmente “demolido” pela artista (como o paradigma segregador do Hope foi substituído pela inclusiva versão Six). Porém, PJ Harvey adora a América real! Adora essa federação multifacetada que ela nunca confundiu com a maquiavélica elite que governa o povo, por exemplo, da por si idolatrada Patti Smith. E partilha com Nick Cave o gosto pela música afro-americana espiritual, com tanto de soulful (animada) como de bluesy (soturna), o que não fazia prever um álbum frio e deprimente.

Aliás, o disco abre com a animada e empática ‘americana’ de “The Community Of Hope”, uma réplica do estilo aligeirado de Stories From The City, Stories From The Sea, apta para compilações de road trip cuja letra retrata o contexto de centenas de milhar de pobres destinatários das sucessivas versões do Hope (“ouvidos” no coral gospel), mas ironicamente usando substantivos depreciativos e adjectivos dos preconceitos de certa classe média.

Identificado o foco humano, o álbum avança para “The Ministry Of Defence”, uma potente canção em que os tambores marcham marcialmente e o bombo vai rebentando sob alarmantes riffs de guitarras e saxofones, para uma letra apocalíptica que narra os escombros de um bombardeado bairro (seja palestino ou sírio ou libanês), dotada com um engenhoso título que fala por si: o trocadilho “defenCe” (derrubar cercas), em vez da “defenSe” (tantas vezes ofensiva, no estrangeiro, violando o Direito Internacional) – um engenho também conceptual, de reprovar o despesismo militarista americano imediatamente após uma canção que denuncia falta de investimento em serviços sociais, como acontece com o sistema escolar degradado.

Assim, “A Line In The Sand” revelou-se complementar da canção anterior (também na faceta instrumental), porquanto parte do flagelo fatal das camufladas minas de guerra para passar a narrar a quase selvática cultura de sobrevivência em campos de refugiados onde faltam tantos bens essenciais, rematando Polly Jean com uma reflexão sobre a incoerente “natureza” humana, aparentemente feita por uma criança pré-adolescente (num falsete que lembra aquele menino que cantava no filme “O Cozinheiro, o Ladrão, a Mulher e o Amante Dela“). E o que afinal se revela ser um tríptico, foi concluído com “Chain Of Keys”, tendo tantos tambores (de vários tipos de guerras) conduzido à triste solidão de uma mulher, uma idosa viúva aparentemente institucionalizada (pensemos quantas causas podem obrigar a um realojamento), sem esperança e com uma inquietação interior que Polly Jean veiculou no emotivo modo como cantou aquele tema.

Do Médio Oriente para a ocidental guerra social

Um instantâneo teletransporte transatlântico faz amerissar no “River Anacostia”, o curtíssimo curso de água que desagua na capital dos Estados Unidos, e neste disco é um cântico quase a capella onde desagua um receio bíblico de fúria divina que bem podia ser o de um eventual sem abrigo afro-americano com a voz bluesy que serve de introdução e de fundo ao cântico de PJ Harvey. Curta é também “Near The Memorials To Vietnam And Lincoln”, que após o forçadamente festivo cante de Harvey sobre a acústica cantiga folk, pouco mais é que uma fotografia sonora da contradição entre o gosto da governação norte-americana em celebrar guerras e os ideais pacifistas de Abraham Lincoln (lamentavelmente assassinado), atraiçoados também pela guerra social que gera tanta miséria na falta de distribuição da imensa riqueza produzida pela economia dos States.

Está-se a meio do The Hope Six Demolition Project e a toque de djambés, Polly Jean sugere em “The Orange Monkey” a plausível origem (geográfica) do álbum – a ruralidade, dos Himalaias afegãos -, mas a letra da canção é sobretudo uma alegoria da evolução e do mal orientado “progresso”, que após a evolução que progrediu até ao ser humano, tem regredido pela ameaça a outras espécies (até à extinção, em tantos casos), como tem acontecido ao raríssimo macaco laranja, caçado e privado do seu habitat com a expansão da urbanização. E como acontece a muitas espécies de plantas, também desalojadas pela urbanização, como aquelas que no antrópico National Mall “conversam” com a britânica sobre o capitalismo medicinal ao longo da soprada “Medicinals” – um descontraído tributo instrumental às brass bands da comunidade afro vinda do sudeste da “América”, onde está a carnavalesca New Orleans. E é num jazzy blues, com um longo final de saxofone frenético (como os do último disco de Bowie), que em “The Ministry Of Social Affairs” PJ canta o muito gráfico retrato de um dia no atendimento da Segurança Social norte-americana, em que um balcão separa a pobreza etnicamente segregada e, muitas vezes, um ignorante e preconceituoso menosprezo na branca classe média que a atende – lá como cá…

Síntese final: o império que (lhe) parece movido por violência e ganância

Surpreendentemente, PJ Harvey ofereceu neste álbum músicas alegres, mesmo festivas e letras extremamente sinistras! A música de “The Wheel” não é muito diferente da hedonista “Rocks” dos Primal Scream. E, todavia, após o alegre longo instrumental de introdução, é disparada uma letra tenebrosa sobre as quase 30 mil crianças que em cada ano morrem vitimadas por tiros e explosões de armas! Nem se pode dizer que seja uma canção de extremista oposição, porque contra a anarquia das armas domésticas até o presidente Obama tem sido um activo legislador e interlocutor. De facto, era quase inevitável que Polly Jean criasse uma canção sobre o tema – será a alegre música uma metáfora da festa da vida em que aquelas vidas são ceifadas?

Na despedida, o álbum desfalece lentamente ao som de “Dollar, Dollar”, uma elegia muito gráfica (mais uma) do que é uma pessoa abastada estar num veículo que atravessa uma multidão de pobres miúdos mendigando “Dollar, dollar!” aos ricos turistas perante a extrema e massiva pobreza que torna impossível não olhar para trás e pensar, como PJ cantou, “All my words get swallowed In the rear view glass.”

Escutado The Hope Six Demolition Project, sobra uma ligeiramente decepcionante desilusão. Sim, PJ Harvey cumpriu a promessa de uma produção transparente, que até incluiu gravações “em montra”, visíveis para os comuns dos mortais. Sim, Polly Jean está a satisfazer a sua vontade de assumir as suas convicções políticas através da criação artística. E sim, está a utilizar o seu estatuto social para tentar iluminar as mentes da humanidade melómana. Porém, PJ Harvey não conseguirá iluminar muita gente, porque o “engajado”‘ The Hope Six Demolition Project é liricamente demasiado negro, sombrio, demasiado pessimista para ser um farol de unificadora celebração, como ela própria o anunciou no fim dessa promoção do disco e da digressão que passará pelo Primavera Sound português.