São vinte anos, quem sabe, vinte proféticos anos, que separam o hoje dos primeiros singles dos Placebo. “Come Home”, em Abril de 96 e “36 Degrees”, em Junho do mesmo ano, começavam um burburinho em torno de uma banda andrógina, de visual desviante e difícil categorização sonora e de género. Era a década de noventa, eram os excessos sem bandeira, anunciava-se a morte do rock e a electrónica dava cartas. A sexualização da música já era antiga mas Brian Molko e Stefan Olsdal traziam-na estampada na pele, no eyeliner, no verniz preto, numa total ambiguidade estética. “Teenage Angst”, “Nancy Boy” e “Bruise Pristine” – os dois últimos já lançados em 1997 e todos eles retirados do disco de estreia homónimo -, e os seus vídeos sci-fi, surrealistas, carregados de insinuações glam weird e decadência deixavam a banda sobre os olhares da imprensa, uma crescente e estranha legião de fãs crescia e poucos esperavam a evolução contra tudo e contra todos que os Placebo iriam concretizar. Contra tudo, contra todos e tantas vezes contra si mesmos em histórias clássicas de rock n’roll. Abusos, drogas, breakdowns, confissões, provocações sexuais e emocionais, posições politicas, sociais e ambientais.

Em 2004, a meio caminho entre o aqui e o lá, aquando da primeira retrospectiva de uma carreira já cheia de singles enormes, de live bangers, de relatos da vida de toda uma geração que crescia com eles e com as mesmas dúvidas, incertezas e olhares vazios para um mundo em constante regressão, para relações sem freio nem calor e para uma evolutiva desconexão, Brian Molko escrevia “There are twenty years to go/The best of all I hope/Enjoy the ride/the medicine show”. A esperança e uma recuperação gradual da alma perdida de Molko entre todas as drogas do mundo, entre todo o álcool e a desagregação a olho nú que o pequeno sex dwarf foi desenvolvendo ao longo da primeira década como rosto de uma banda encadeada pela fama, pelo papel desejado e  indesejado de porta-voz de uma comunidade LGBT, de profundas depressões e convulsões de ego. A recuperação começava a ser contada em 2006 com Meds, que trazia em si as colaborações com VV dos The Kills e Michael Stipe dos REM.

Doze anos depois a segunda celebração com uma tour e com A Place For Us To Dream – 20 Years Of Placebo. Se apenas mais dez anos nos separam do fim vamos ter de esperar para descobrir e entretanto saborear o medicine show de uma banda que se desmarcou de categorizações, que superou criticas ferozes por não prestar contas a nada nem a ninguém, que transformou o seu som sem derrubar a sua identidade a seu bel-prazer, que carrega o seu dia-a-dia nas palavras sinceras da poesia de Molko. Uma ancora para muitos, um conselheiro para outros, um amante, um amigo, um ombro onde chorar, uma bússola em busca de se encontrar. Um disco que abraça todos os discos, versões alternativas, covers, locais para sonhar, sonhos por localizar. E uma novidade que é galardoada com vídeo, “Jesus’ Son”.

No seguimento do último álbum de originais, Loud Like Love, os Placebo continuam a sua evolução que mais do que musical e artística é uma evolução humana. Em “Hold On To Me”, do disco de 2013, Brian cantava sobre a elevação espiritual, a descoberta de novos caminhos energéticos para um bem superior, a descoberta do metafísico e de uma consciência superior. O processo de aceitação do que ficou para trás parece ter agora no único original de A Place For Us To Dream uma continuidade no discurso e no sentimento de felicidade cada vez mais sentido e cristalino. Onde “Loud Like Love” se apresentava como a composição mais claramente focada e feliz dos Placebo, “Jesus’ Son” é, usando as palavras sempre honestas de Brian:

…the most optimistic, life afirming, positive, spiritual single ever. There isn’t a lot of darkness in this song. There is a lot of light.

Gravado numa pequena praia da Sardenha com elementos tradicionais da cultura local – os Mamuthones, Issohadores e o cavaleiro Su Componidori, todos eles pertencentes à mitologia envolvente ao carnaval nativo – “Jesus’ Son” é em si mesmo uma continuidade visual da mensagem actual da banda. O elemento grotesco animal, o pagão, o Universalismo, a natureza aberta, a espiritualidade, a absolvição da alma enquanto pequena parte de um todo cósmico.

“Jesus’ Son” será também editado em formato EP. Life’s What You Make It sai a 07 de Outubro ao mesmo tempo que A Place For Us To Dream – 20 Years Of Placebo.

“We have no past, no present and no future. We always have been.”

Ambos os discos podem já ser comprados em vários formatos e pacotes clicando na capa de A Place For Us To Dream – 20 Years Of Placebo em baixo.

Placebo - A Place For Us To Dream

Placebo – A Place For Us To Dream

+ Placebo

Placebo @ Coliseu dos Recreios