O que torna um festival uma experiência para lembrar pro resto da vida?

Uma escalação de bandas inéditas? Preços populares? Palco gigante? Espaço físico de lazer? Reencontrar amigos que não vê há tempos?

Pode ser tudo isso, pode ser só pelas bandas mesmo, não há fórmula matemática para bolar um modelo de festival perfeito, mas definitivamente o Popload Festival, que ocorreu no último fim de semana (8/10) em São Paulo – Brasil – soube bem como entrar no hall dos festivais to remember..

Primeiramente o local escolhido (Urban Stage) foi bastante acertivo. De fácil acesso (ao lado do metrô), amplo, com espaço acolhedor de descanso (sofás, puffs, redes de balanço); gastronomia – que agradou desde os amantes de junk food até os vegans; bares com cerveja e drinks; caixas ambulantes que facilitaram a compra de fichas para comer e beber, minimizando filas; banheiros decentes com manutenção de limpeza; mimos para o público: brindes do Spotify e passes grátis de metrô disponibilizados pela patrocinadora, Heineken.

Em termos de ambiente e facilidades, o público não pôde reclamar. Mas e os shows? Ah, os shows… apenas perpetuaram os motivos que tornaram o festival incrível!

O Bixiga 70 entrou pontualmente às 16h e tocou para poucos, porém, pra variar, os poucos que lá estavam não pararam de dançar. Essa é a mágica desta big band instrumental brasileira. A performática e ritualista cantora Ava Rocha, que entrou em seguida, também tocou pontual e deixou o público que começava a chegar mais expressivamente bastante interessado. Quando o duo nova-iorquino Ratatat subiu ao palco com sua psicodelia experimental, o Urban Stage já estava cheio. A produção divulgou o número de 7800 pessoas no local, sendo que 8000 ingressos foram colocados à venda. Ou seja, praticamente sold out.

A maioria esmagadora de público lá presentes eram fãs de Wilco. E quando deu a hora para o sexteto de Chicago entrar, parecia que estávamos em final de copa do mundo com placard bastante favorável de tão eufóricos que eram os fãs. “Olê, olê, olê, olê, Wilco, Wilco“. Também, não era para menos, 10 anos sem pisar no Brasil é praticamente uma eternidade para quem ama incondicionalmente uma banda.

Jeff Tweedy – guitarra/vocal e líder do Wilco – e seu icônico chapéu de cowboy à la Bob Dylan, que nos remetia às suas origens no country, soube se aproveitar muito bem dos fãs (no bom sentido). Simpático, a todo sorrisos, já entrou se desculpando por não tocar no Br há tanto tempo e lembrou que era a 1ª vez que tocavam em terras paulistas. Logo de cara destruiu corações literalmente com a baladinha “I’m trying to break your heart”, do disco Yankee Hotel Foxtrot (2002) que teve coro da plateia. Praticamente todas as musicas tiveram coro uníssono do público, algo emocionante de se ver.

Colados na grade da pista premium estavam os fãs de carteirinha, que levantavam cartazes com o rosto de Jeff com os dizeres de “Wanted“. Finalmente o encontraram. Jeff brincou:

We know everybody’s name – apontando para eles, que provavelmente estavam no show do Rio na quinta-feira anterior, que teve o César, fã sortudo que tocou guitarra com a banda por lá.

Como um só Jeff não faz o Wilco, sua banda é de dar inveja; músicos experientes em sincronia perfeita, infinidade de instrumentos, metais pesados, pitadas electrónicas entre um riff pop e uma balada country, bateria forte; impecáveis. Nós estamos tentando tocar um pouquinho de cada disco nosso, avisou e cumpriu Jeff. A bateria rasgando em “Via Chicago”, o hit mega “Jesus, etc..”, o solo de guitarra fenomenal em  “Impossible Germany”, as antiquíssimas do 1º disco, como “Box Full of Letters”, tudo contribuiu para essa apresentação entrar pra história do grupo. Foram duas horas de show!!! Isso é bastante para uma apresentação em festival.

You guys are the best, exaltou Jeff à plateia e continuou:
É uma noite linda, vocês são pessoas lindas, esse é um dos melhores shows que gente já fez. Obrigada por nos receberem, aproveitem o festival! E assim eles saíram, ovacionados, depois do Bis, entre choros, abraços e gritos. Saíam do palco do Urban Stage mas tocariam novamente no dia seguinte no palco do Auditório Ibiraquera, para 800 sortudos que conseguiram comprar os ingressos mais disputados dos últimos tempos.

A noite seguia e era hora da gig final, os boêmios libertinos entraram às 23h06.  Revolucionários que são, esses minutinhos de atraso foram com certeza só pra quebrar a praxe da pontualidade britânica que estão acostumados, ou então porque estavam bebendo no camarim e esqueceram a hora mesmo. Pete Doherty e sua bandana brasileira ganhou a plateia no primeiro “Oi, oi“, que soou bem aportuguesado.

Era a 1ª vez no Br com essa formação clássica e o clima foi de nostalgia do início ao fim. Junto com Carl Bârat, Pete era só festa e divertiu-se muito fazendo piadinhas com a galera, falando tchau no meio do show, sempre com a sua inseparável garrafa de whiskey na mão.

O icônico disco Up The Bracket (2002) e o mais novo Anthems for the Doomed Youth (2015) foi tocado em peso, mas a galera pirou mesmo com o hit “Cant Stand Me Now”, do segundo disco, uma das melhores canções de indie rock da atualidade.

O clima de amor e cumplicidade entre Carl & Pete sempre foi intenso, e no palco era notável a cada vez que dividiam o microfone nas canções e pareciam se beijar ou quando Carl acendia um cigarro para Pete.

Na bateria, energético, Gary Powell deu show, assim como antes quando atacou de dj no espaço destinado à discotecagem que rolava entre um show e outro. E a banda se abraçou, os amigos se despediram, Pete jogou o microfone pra plateia.

Fim de noite, nostalgia perpetuada, deu tempo de pegar o metrô pra voltar pra casa, e hidratados, pois a produção providenciou distribuição de garrafas d’água na saída ️

E aquele sentimento de “que festival foda“,  “épico” ficou na mente.

@ Popload Festival 2016

@ Popload Festival 2016