Fechem os olhos, apertem os cintos do imaginário e embarquem durante proximamente 12 minutos numa viagem entre o mundo onírico e o palpável. Chegámos ao comboio dos Post Pines, no qual o trajeto sobre os carris nos leva ao som do EP Past Eyes, local utópico, onde os sonhos mais irreais ganham forma e veracidade. Acomodem-se no acento que escolherem, relaxem o corpo e deixem que a mente vagueie por entre as ondas sonoras presentes ao longo das 4 músicas e que estas preencham todas as cavidades até a alma sair do corpo que a prende de alcançar o inverosímil.

Antes da seguirmos viagem, será apresentada a todos os passageiros uma sucinta apresentação da banda: os rapazes oriundos da Suécia – Joakim Andersson e Julius Norrbom -, dão vida e fisionomia a este projecto trazido em correntes dos ventos de norte com as raízes musicais que solidificam o caule dos Post Pines a seguirem o legado de bandas como Bon Iver e Sigur Rós. Feitas as apresentações, as portas do mundo real fecham-se, e o comboio inicia o seu percurso até chegar ao mundo utópico que tanto ansiamos: o desprender da realidade que avassala o coração e a possibilidade de desemparedar o peso que acarretamos fruto do passar da vida, com a esperança de poder preencher o vazio mundano ao som do invólucro dreampop presente em cada uma destas 4 melodias. Sente-se o ar fresco atravessar cada poro do rosto que proporciona a liberdade de sairmos do corpo e entrarmos numa atmosfera paralela, onde o irreal ganha forma.

O comboio pára e encontramos a primeira estação de nome “Moon”. Absorva-se a narrativa capaz de nos guiar visualmente para todos os recantos da música e da voz, onde é possível amar em segredo a cara-metade que nos arrebatou o coração, sem ressentimentos. Mesmo que esta paixão não seja recíproca, temos a garantia que em cada sítio imaginário a chama emocional perdurará sem nunca cessar. Há uma poderosa harmonia que liga os instrumentos à dualidade de sentimentos; o amor e a nostalgia presentes na voz de Joakim e Julius.

A estação seguinte leva-nos ao som de “Blood” onde os três minutos se passeiam sem qualquer palavra, existindo apenas a harmonia dos sintetizadores. Cada batida mais acentuada e coesa contida ao longo da música personifica o batimento do coração e o sangue que palpita e invade cada veia do corpo. O sentimento contido transfere-nos para a metáfora de acordar das cinzas e voltar a ser plenamente feliz, mesmo depois do término de uma relação de futuro amaldiçoado. A necessidade de sarar uma ferida que não pára de sangrar impera, e curá-la com a alegria contida em cada pedacinho da nossa existência também.

A meio da nossa viagem, Past Eyes continua a ecoar em diálogo directo com a alma. A terceira estação deixa-nos em “Grain”. Estamos perante uma metamorfose musical e de dualidade de sentimentos numa mescla de nostalgia e esperança. Embora sentindo a falta de um amor pregresso, a luz fria do dia revela a sua existência como tóxica, contaminadora do ar que nos mantinha vivos. A esperança contida nas pautas de uma melodia mais risonha cria o desejo de voltar a inalar ar puro e seguro para a estabilidade emocional e consequentemente reencontrar o verdadeiro amor.

A viagem no comboio dos Post Pines chega assim, infelizmente, à última estação, invadida pelo som de “Hold Now” que marca o final do EP. Durante todo o tema vivência-se uma harmonia coesa entre as vozes e os sintetizadores que se encaixam numa perfeição oriunda de outra galáxia. “Hold, hold now”, profere-se repetidamente ao longo de 4 minutos da mais completa magia musical. Agarrar um mundo onírico presente na profundeza da mente humana é a porta que se abre para a plenitude da essência que define cada indivíduo enquanto portador da sua identidade.

Ao longo da viagem por Past Eyes, fomos levados numa introspecção pessoal ao som de melodias únicas e viciantes. O dueto entre uma voz doce e utópica, e instrumentos dotados de uma sonoridade fantasiosa caracterizam a sonoridade que define a banda. O uso de sintetizadores na produção das melodias resulta na perfeição, nutrindo uma atmosfera aconchegante capaz de nos prender e agarrar até ao final de cada música. O EP de estreia Past Eyes já se encontra por aí a rodar desde 28 de Outubro; comprem já o bilhete e embarquem numa viagem pelo cosmos.

Post Pines - Past Eyes

Post Pines – Past Eyes