E a malta não fugiu do pacífico bicho musical! Agradado pela companhia dos simpáticos Urso Bardo, o descontraído público do Out Jazz prestou vassalagem ao sol, astro-rei que aqueceu muito a pitoresca Tapada das Necessidades, na última tarde em que o festival passou por lá neste 2016.

Era uma aposta de risco. O paradigma artístico do Out Jazz nunca foi conservador e sempre acolheu o soul e o funk e até a contemporânea cultura hip-hop, mas o post-rock não é de todo conotado com a cultura ‘negra’ que não o criou e disseminou e talvez fosse a primeira vez que uma banda como Urso Bardo seria protagonista de uma tarde daquele festival. Todavia, as exploratórias jam sessions são uma libertária prática comum ao post-rock e ao jazz (de cujo ensino vêm muitos músicos do primeiro), ambos os géneros agradam a grande parte das jovens gerações de melómanos eruditos e talvez a maioria do post-rock tenha um temperamento ambiental e atmosférico, adequado a extensos espaços verdes como a Tapada das Necessidades.

Os Urso Bardo iniciaram o concerto evidenciando que o post-rock deles transcende galacticamente a atmosfera e tinha no mínimo lugar naquele relvado: passava pouco das 17:00 quando o quarteto de bateria, baixo e duas guitarras começou a tocar “The Full Moon Rise (Over The Restless Sea)”, tema longuíssimo que ocupa quase 11 minutos do recente álbum de estreia Urso Bardo, editado já neste ano. Desde a lânguida introdução planante, impulsionada pela bateria tocada com as potentes macetas, vulgares no jazz escandinavo, que convidou a olhar para cima e contemplar o descoberto céu azul, foi um tema que permitiu diversas trips meditativas atravessando o amplo ‘nada’ sobre a circular clareira relvada do grande jardim, porque começou numa toada skygazer suspensa, evasivamente no sentido oposto ao calçado, acelerou um pouco para orbitar num ortodoxo (post-)rock já batido com as habituais baquetas pop e encorpou num final poderoso, mais bombado e timbalado.

Insolitamente, após o protagonismo dos paus, foi porque “logo na primeira malha há uma corda que se parte” numa das guitarras, que o baixista Ricardo pediu perdão, após anunciar “Somos os Urso Pardo e viemos curtir o calor convosco”, num bem humorado tom entre o solidário – pelo excesso de calor -, e o satisfeito – pela ensolarada ausência de chuva. Uma facilmente tolerável pausa forçada que ajudou os espíritos a descerem à terra para assimilarem melhor “Huck Finn”, que a interpretação no Out Jazz revelou ter sido bem intitulada, tal foi a leveza com que as guitarras foram melodicamente dedilhadas, fazendo alucinar arborizadas margens de um rio e o cartoon animado Huckleberry que saltava em câmara lenta, ligeiramente acima do solo como flores e espigas arbustivas ondulando ao vento numa pradaria ou numa estepe da América do Norte. “Huck Finn” foi mesmo um momento lindíssimo, que só a preguiça impediu de ser aperfeiçoado escutando aquela música à beira de um dos mini-lagos da tapada, com o olhar seguindo peixes ou alguns patos flutuando no plano de água.

“A bela tarde que ficou, porque há bocado ‘tava um calor insuportável” (citando um Ricardo que fez com o resto da banda os testes de som uns três graus acima da temperatura às 17:30), a quente tarde estival convidava a lullabies no relvado e por isso foi lógico o anúncio da oportuna “Valsa Escanifobética”, uma esquizóide malha indutora de marasmos de consciência, que é de facto uma sorumbática valsa, animada por acessos delirantes de guitarra que, curiosamente, fizeram lembrar alguns instrumentais de canções de Jeff Buckley, um desaparecimento demasiado prematuro que teve uma vida cheia de instantes delirantes, um dos quais…

E exibindo consistência no alinhamento de músicas, a memória de Jeff Buckley não foi só um instante, porque o tema seguinte – pareceu ser uma variação sobre “Journey Back” -, poderia ter-lhe sido um tributo, logo desde a introdução que lembrou a canção “Grace”. Assim como Jeff Buckley, assumido apreciador do rock dos 70s musicais, poderia ser a ponte artística para o troço seguinte do concerto, um medley de três temas que teve como virtude estilística recordar a quem gosta de rótulos como “post-rock” que ‘tudo’ foi inventado pelos hippies mais ou menos ‘acidificados’ dos 60s e 70s: sem Pink Floyd – e Procol Harum, e outros -, dificilmente haveria Urso Bardo ou Explosions In The Sky ou First Breath After Coma, todos filhos artísticos dos psicadélicos rock progressivo e rock sinfónico. Exceptuando partes da ligeiramente funky “Cubano Postiço”, foram 15 ou 20 minutos de guitarradas nos antípodas da irrequieta ginga arquetípica do jazz, mas tão adequados a diluir o olhar em todos os verdes das Necessidades!

E sem se dar por isso, o público tinha ‘tripado’ em sobriedade até ao encore. Ricardo voltou a agradecer a presença do público, apresentou a banda e informou: “Estamos a apresentar o nosso álbum que saiu em Março, e vamos tocar mais duas malhas”. A primeira daquelas foi “Dez”, o número de minutos que dura em Urso Bardo, tão longa que após a atmosférica introdução aquele post-rock transportou o espírito para o interior de um errante planador sem destino nem prazo para aterrar furando suavemente as correntes de ar, como se fosse um albatroz-gigante – cujo nome alternativo é precisamente albatroz-errante. Mas o planador dos Urso Bardo teria que aterrar e desceu num som tranquilo, mas com alguma força, muito ao jeito de Explosions In The Sky.

Não foi Jazz, mas foi tão Out (of the box) que a Tracker agradece mais momentos de ecletismo naquele festival.

Urso Bardo @ Out Jazz