Pow! - High-Tech Boom
80%Overall Score

Há irreverência da boa em San Francisco! Sem querer entrar a fundo pelas teorias dos revivalismos na música desde o século passado até hoje, em traços largos podemos assumir que as tendências sonoras formam-se com renascimentos de duas décadas atrás. Talvez porque os músicos de hoje tiveram um começo de influências marcantes na infância. Não quero com isto dizer que nada se inventa, apenas que a sensação é que se anda de espiral em espiral; nos anos 80 assistiu-se a um revivalismo r&b pop e electrónico que teve a sua base nos anos 60; nos 90 há um renascer do funk e do psicadelismo dos 70; a primeira década de 2000 e o relembrar dos anos 80 e já é seguro afirmar que os 90 estão de volta, goste-se ou não! Isto, posto assim, dá uns enjoos de previsibilidade que nem vos conto… E claro, a evolução tem-se construído de rupturas à norma, chamem-lhe movimento hippie, punk, grunge, geração “download hits de cada álbum novo”, geração de ouvintes de smartphone.

High-Tech Boom, o disco de estreia dos norte-americanos POW! mostra-nos que ainda há esperança. Ruptura, mudança, contra-corrente, forte crítica social e inconformismo, chegam-nos por um som forte e bem marcado a fazer lembrar uns Bauhaus do tempo da 4AD. Nada é deixado ao acaso; da capa do album arty a lembrar uma motherboard, às guitarras cheias de efeitos, os sintetizadores sempre presentes, a voz cuspida de desdém, o ritmo ora lento, ora frenético. O trio synthpunk maravilha é composto por Byron Blum, Melissa Blue e Aaron Diko.

O fenómeno é localizado. É um grito de revolta contra o poder capitalista da nova e endinheirada sociedade de tecnologias que tem vindo a descaracterizar a cidade deles: moradores a serem massivamente despejados de suas casas, lojas pop-up, lojas de especialidade a destruírem o comércio tradicional, parklets… San Francisco tem vindo a ser vítima nos últimos anos de uma normalização cultural fatal ao espírito que a tornou conhecida. Mas será que essa normalização global e acéfala não tem vindo também a descaracterizar o mundo de cada um de nós?

Escutem o disco, passem a palavra, ponham-no a tocar bem alto e agarrem nos instrumentos. A música ainda é uma arma. Façamos coisas para quebrar o establishment. Boraí evoluir longe da corrente espiral?