Existem sonoridades e bandas que facilmente se associam a fenómenos naturais, a condições climatéricas ou a estações do ano. A parte norte do globo faz mais que jus ao predicado e não deixa espaço para metáforas. A ligação é clara e nítida e, sim, tudo o que nos rodeia tem ligações directas e concretas a todos os actos criativos. Aglomeramos três palavras e arrancamos para as apresentações. As palavras são Aurora, Borealis e Bolywool.

E, assim sendo, senhoras e senhores, estes são os Bolywool. Os primos Oskar Erlandsson e Calle Thor atravessaram já quase duas décadas de gelo e som, cada um na sua cidade em zonas distintas da lapland, Gothemburg e Borgholm. Mas o céu é o mesmo, o solo é o mesmo e as cristalinas neves que desenham as beiras das estradas é o mesmo. Quem habituado está a percorrer os caminhos das sonoridades que nos chegam da Suécia conhece bem todas as variantes que nos são exportadas. O folk delicado de González e The Tallest Man On Earth, o indie-pop com sabor a extra-candy dos I’m From Barcelona e dos Shout Out Louds, a experimentação sem margens nem beiras de Fever Ray e dos The Knife são dialectos mais que comuns entre os melómanos um pouco por todo o lado. Mas a shoegaze pura e dura – ou deveríamos dizer etérea e progressiva –, é algo que não transcende as fronteiras suecas com muita frequência. Talvez por isso os Bolywool sejam ainda uma jóia por revelar.

Quatro discos adornam a coroa escondida do duo. Through A Century de 2009, Isles de 2012, de 2014 e, o até agora, último álbum, Hymnals & Bombs, lançado já este ano. Mas aqui temos o prazer de apresentar Open Your Eyes, o EP acabado de editar no passado dia 03.

E é com os notas iniciais de “Open Your Eyes” que somos encaminhados de novo ao parágrafo inicial desta declaração de amor. Onde é que os Bolywool se encontram com as auroras boreais? Em todo o lado. Nada disto se passa na atmosfera terrestre. Nada disto se passa num estado físico e não é exactamente isso que quantifica o nível de electricidade e de compostos químicos do qual é feito os melhores hinos shoegaze? Claro que é. Existe uma brisa que acompanha todos os segundos da canção. É um zéfiro que vem de todas as frentes e esbarra com as altas densidades das atmosferas características do trabalho dos Spiritualized e dos Ride, do magnetismo de Sonic Boom e dos Spaceman 3. Abre espaços a guitarras americanizantes que também chamam ao composto químico do fenómeno nomes como os Black Rebel Motorcycle Club e os Primal Scream e tudo revestido a véus de neblinas post- rock travestido de pop ambiental.

Gravada inicialmente em 2005 – a demo é uma das faixas do EP, juntamente com o Radio Edit e a cover pulsante e com aroma a deserto do Nevada para “If I Stay Too Long” dos The Creations –, “Open Your Eyes” é, segundo eles, uma carta de amor que até hoje não tinha sido enviada. E faz sentido. ”Open” parece existir desde sempre entre nós e entre as grandes canções da história do shoegaze. Um tema essencial para o ano de 2016. Sem corpo mas de formas marcadas, quente como uma primavera de chuvas suaves, volátil como uma muralha de uma China livre, uma ode aos anos de ouro do gaze… que assim sendo passam a ser os nossos.