Premiere: Matthew And The Atlas - Temple
89%Overall Score

Três meses. Apenas três meses foi o tempo que Matthew Hegarty precisou para formar Temple, o segundo disco de originais e sucessor de Other Rivers, disco lançado em 2014 e cartão de visita mais que suficiente para atirar com os seus Atlas para as luzes da ribalta – ou, neste caso, do coreto mais próximo –  que iluminavam de forma constante os novos nomes da folk. Associado automaticamente a um movimento cheio de hype – e em muitos casos super justificado – em torno de nomes como Bear’s Den, Mumford & Sons, Noah & The Whale, Laura Marling, James Vincent McMorrow, Benjamin Francis Leftwich, Dry The River ou Bon Iver, os Matthew And The Atlas não se esquivaram de levar com o selo de “British Bon Iver”, com tudo de bom e de mau que o estigma poderia acarretar.

Uma canção por semana, escrita focada e direccionada para uma visão interior pessoal e com o olhar nas histórias que conta e não na possibilidade de repetir a fórmula vencedora do disco que lhe abriu o maravilhoso grande mundo – coisa que sempre pareceu ser secundária na música de Hegarty mas que com este novo Temple se sente mais influente – e temos um candidato a jóia da coroa do folk em 2016. Mas será este um disco de folk?

Sim, claro que sim. Os elementos necessários estão por lá. As baladas, o acústico sentir, a melancolia das planícies da americana e dos bosque britânicos. Mas não, de todo estamos na presença de um disco folk. As instrumentações tradicionalistas não estão presentes e são trocadas pelo uso dos synths e dos pianos agregados a toda a normal formação de uma banda. Seguindo o caminho escolhido em Other Rivers, deixando para trás as raízes e descobrindo novas formas de folk, novas abordagens a uma sonoridade abrangente e expansiva em toda a sua história. Apesar de Matthew afirmar que foi longe demais no disco de estreia e que Temple seria um regresso à sua fonte primordial, o que se nota no novo trabalho de escrita é um refinamento exponencial da sonoridade criada para o disco de 2014 mas indo ainda mais longe e não dando um passo atrás. A tudo o que anexou como seu em Other Rivers, os Matthew And The Atlas alastram-se para um novo mundo de sons e entram por caminhos cada vez mais americanizantes.

Não são raras as vezes em que ao longo de Temple podemos associar as composições ao cancioneiro rock americano, a paisagismos na escrita semelhantes a nomes como Strand Of Oaks e Broken Social Scene e consequentemente a Sprinsteen e a Neil Young. A isto não será de todo alheio o local escolhido para a gravação do disco – Nashville -, casa mãe suprema do country e a ajuda preciosa de Eric Hillman e Brian Holl dos Foreign Fields, um dos duos mais ricos em termos de texturas inovadoras no que toca a fundir a electrónica com folk intimista.

O resultado é um disco carregado de detalhes e nuances, mas acima de tudo um disco enorme no papel superior de exorcista catártico de traumas do passado. A black figure que assombrou Matthew depois de um esfaqueamento que quase lhe roubou a vida, e que ocupou larga parte de Other Rivers ainda surge, mas também assistimos à morte anunciada do relacionamento da vítima com esse mesmo fantasma. O recente papel de pai, os medos da tecnologia, a análise da destruição da essência humana, a solidão de um homem frente a um mundo imenso a precisar de um livro de instruções.

Com toda a estranheza inerente a estas condições, temas como “On A Midnight Street” (tanto Springsteen por aqui), “Temple”, “Mirrors”, “Gutter Heart” ou o tema de abertura do disco, “Graveyard Parade” são canções elevadas, de vibrações altas e com a esperança e a redenção na ponta da língua. Ao mesmo tempo “Elijah”, “Can’t You See”, “Glacier” e “When The Lights Hit The Water” não deixam de ser o espelho de um homem que reconquista alguma luz mesmo sendo temas negros, interiores e reflexivos. Curiosamente os mais folk também e onde uma faceta mais crooner dá espaço a uma voz perfeitamente funda de preacher man que analisa as dores do dia-a-dia.

Temple é um disco imenso na sua contenção e na sua antagónica expansão. Pé ante pé, vai entrando e trazendo o seu imaginário para dentro de nós. Há manhãs de neve demasiado branca para o olhar humano, há manhãs que queimam os olhos para as tardes serem pouco menos que um despontar demasiado lento das noites solitárias. E há, acima de tudo, um conforto surpreendente nas palavras e sons de Matthew Hegarty que o faz um pouco de nós. Vamos deixar o templo crescer dentro de nós?

It’s alright to give up… diz Matthew em “Glacier”. É mas ainda bem que não aconteceu!

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